Moacyr Alves: o poder da oratória

      Como o presente comentário versa sobre o LIVRO e a sua LEITURA, achei oportuno iniciá-lo com esta citação do escritor inglês, Laurence Hallewell, 1929 (88 anos), autor da obra: "O Livro no Brasil:sua história", 2008: "Ser leitor é alguém com capacidade de ler e compreender qualquer nível do texto e formular, por escrito e com clareza, o seu raciocínio".
      Há algum tempo já vinha querendo comentar este tema e tinha por parâmetro o seguinte material: um texto de Millôr Fernandes e o CD "Livros", do Caetano Veloso. Mas, agora que descobri " O LIVRO - SUA NECESSIDADE E UTILIDADE", de Moacyr Alves,mudei o critério do comentário.
       Moacyr Souza Alves era baiano e veio para Manaus, AM, em 1956, já formado em Direito pela Universidade da Bahia. Aqui, exerceu vários e relevantes cargos públicos como Secretário de Justiça e Procurador Geral de Justiça do Estado.
       Foi professor de Literatura Brasileira, na Faculdade de Filosofia do Amazonas. Desde jovem, dedicava parte do seu tempo ao jornalismo. Por exemplo, por muitos anos, fez circular em Manaus a revista LUMINAR, na qual difundia atividades literárias.
       Publicou muitos trabalhos em jornais e revistas. Em 1971, lança seu primeiro livro, "Respostas de Jesus"; em 1975, "Cinco Falas da Amazônia", quando já era membro da Academia Amazonense de Letras (AAL), onde fora empossado no dia 5 de dezembro de 1970, vindo ocupar a cadeira de número 34. Tudo isso foi incentivado pelo amigo Mavignier de Castro.
       "Homem simples e modesto, em momento algum modificou a sua maneira de ser. Detentor de vários títulos de primeiro colocado em concurso de oratória, enquanto era estudante, na Bahia, pouca gente sabia disso, pois não se envaidecia em divulgar seus méritos".
        No dia 7 de agosto de 1976, o coração do renomado escritor, professor, orador, jurista e poeta baiano-amazonense Moacyr Alves, parou! Porém, não foram poucas as homenagens póstumas  em sua memória.  Uma delas, ocorreu em 14 de novembro de 1979, vinda do então governador do Amazonas, Henock Reis, quando da inauguração do "Centro Moacyr Alves" - hoje conhecido como "Abrigo Moacyr Alves", em Manaus, mais precisamente instalado no bairro do Alvorada.
        Como adquiri, então, "Cinco Falas da Amazônia". Uma obra rara, publicada há mais de 40 anos?.
Foi assim: em 2016, a minha filha primogênita participava de um evento cultural como universitária no centro histórico do Recife, PE, quando se deparou com alguém vendendo livros numa feira de literatura. Entre outras obras, estava esta, do autor em análise. Tem mais: o livro traz a seguinte dedicatória: "Ao meu amigo Otacílio Gaudêncio, com um forte abraço de Moacyr Alves. Manaus, janeiro, 1976" .
       A apresentação está assinada por Leôncio de Salignac e Souza, ex-presidente da AAL.Na "Nota ao Leitor", o autor justifica o porquê do título da obra: "Convidado, algumas vezes, para transmitir, a jovens concludentes de diferentes cursos, a lição derradeira, atendi sempre, com muita alegria ao apelo, e escrevi os pensamentos ocorridos, receoso de perder-me no emaranhado das emoções da entrega dos diplomas".
       "Três, dos cinco trabalhos aqui contidos, foram divulgados, através de plaquetas, a saber: O LIVRO - SUA NECESSIDADE E UTILIDADE; CHAMAMENTO DOS JOVENS à REALIDADE; BATEDORES DE ESPERANÇA, os quais conservam, nesta obra, a mesma redação das edições anteriores, de modo a permitir, ao leitor de agora, comprovar estar de posse do texto original". 
        "Reunindo-os num só volume, acoplados aos não divulgados - CURAI ENFERMOS e O PREGOEIRO DA FLORESTA -, pretendo facilitar a divulgação dos cinco estudos, na esperança de estar ajudando". 
        E, ao concluir, diz; "Cinco Falas da Amazônia" situa minha passagem pela imensa área verde e registra meus pensamentos numa determinada fase da vida, exatamente aquela vivida entre os heroicos dominadores do extremo norte brasileiro".
       "Cada trabalho", como o autor se expressa, é de uma grandeza inigualável. Só os lendo para saber. Os li. Os chamados "homens de letras", são realmente imortais, são fascinantes. Pensam o que nós, anônimos, negamos pensar; registram o que nós, deixamos de escrever. E, quando partem para o púlpito da oratória, pronunciam o que nós, só balbuciamos e com a voz trêmula de medo, por insegurança. São esses imortais que descontrolam as nossas emoções.
       Escolhi: " O LIVRO - sua necessidade e utilidade". É um discurso glorioso! Em ligeira explicação, o autor afirma que o presente trabalho foi por ele apresentado em primeiro de maio de 1959,   na "Feira do Livro", realizada pela União de Mocidade da Primeira Igreja Batista de Manaus.
       "Considerando que a reunião não suportaria discurso mais extenso", o orador resume seu pensamento a respeito do Livro (como ideia geral), da Educação, do Saber. Ressalta a importância do LIVRO no desenvolvimento das nações e do indivíduo. Sua superioridade (do livro) é a luz das gentes, o guia dos povos.
        O discurso em questão está dividido em várias tópicos. Falo sobre os "Grandes Homens Depõem", no qual o mestre cita nomes e opiniões sobre o livro e a leitura como Rui Barbosa, Marden, Cândido de Figueiredo, Plínio, Bacon, Lacordaire, Fenelon, Coelho Neto, Spencer, Afonso Karr, Gebhart, Sêneca, Petrarca, entre outros. 
        Ele já inicia seu sábio pronunciamento, como ele mesmo garante, ousando parafrasear Rui Barbosa, assim: "Sem leitura mal se vive. Vida sem leitura é uma vida no escuro, vida no medo, morte em vida. O analfabeto é um cego, um mendigo, um condenado".  E acrescenta: "O livro é a arma mais forte já possuída pelo homem e cujo poder se dobram espadas e canhões".
        Não mais podendo controlar o seu esplendor de sapiência, ele é contundente: "O livro é fonte de cultura. Não é a escola que transforma, propriamente, o ignorante num sábio, mas o Livro. Não foram as famílias unidas tão somente, que nos legaram bons costumes e educação. A tradição, apenas, estacionária. Se fôssemos seguidores do exemplo do passado, sem acompanhar a evolução da CULTURA, estaríamos ainda vivendo de tanga e colares".
        Atesta, o mestre, que "Foi a introdução fácil do livro na mão do povo que transmudou a humanidade. Lendo e meditando, os fracos repudiaram o domínio dos fortes e pleitearam a igualdade, assim como os humildes galgaram o planalto da soberania e escalaram os montes da glória".
        "Desde de cedo, nos dias hodiernos, estamos sob influência do livro. E felizes os que podem viver sob tal domínio, porque se tornam venturosos".
         Mundo afora, foram muitos os seres humanos que transformaram suas vidas e consequentemente, parte do mundo, a partir da leitura de bons livros! Principalmente a BÍBLIA, o Livro da Vida. Porque, ainda segundo ele, "a leitura forma as nossas faculdades, faz que as descubramos, desperta as ideias, alenta a inspiração".
        Se por um lado foi Cândido de Figueiredo que afirmou que "é pela leitura que nascemos para a vida intelectual", por sê-la ( a leitura) a "mais nobre das paixões", por outro, Plínio, o Velho, dizia ser preciso ler muito os autores, mas não muitos autores, o que significa: só podem ser lidos bons livros. Esse é o caminho e somente após ser percorrido, "poderemos adquirir juízo seguro, imparcialidade crítica, discernimento claro".
         Paulo, de Tarso, Afonso Karr, Fenelon e Sêneca comungam da mesma opinião quando o assunto é livro/leitura, por quê? Porque a leitura torna o homem seguro, útil, agradável e com 
conhecimento substancialmente duradouro. Só para exemplificar, nos conta Gebhart que certa vez o Cardeal Farnese encontrou Michelangelo, entristecido, errando pela neve, nos arredores do Coliseu, e logo quis saber onde ia com tão mau tempo. O genial arquiteto retrucou ao purpurado: "A escola, para aprender alguma coisa". 

        "Talvez nada tenha tanto poder como os livros para levantar o pobre acima da sua pobreza; o miserável acima da miséria; para aliviar os  sofrimentos dos enfermos e as angústias dos infelizes. São os livros os amigos dos solitários, os companheiros dos abandonados, um reconforto para os desalentados e infelizes (Marden)". 

         É de Petrarca, considerado um dos maiores poetas italianos de todos os tempos, a seguinte sentença:  "Tenho amigos cujo convívio me é muito agradável. São de todas as idade e de todas as nacionalidades. Posso aproximar-me deles sempre que queira, porque estão permanentemente ao meu serviço. Nunca são enfadonhos e respondem imediatamente todas as perguntas que lhes faço". Sabeis a que amigos se referia? Aos livros, naturalmente.
         N a sequência, três depoimentos indispensáveis a uma reflexão maior sobre o assunto em pauta: 1. "A leitura torna o homem perfeito". De Bacon, querendo nos fazer compreender o alto sentido filosófico que desejou firmar com a verdade. 2. "Só três coisas são  necessárias para para tornar a vida feliz: a bênção de Deus, bons livros e um amigo", disse Lacordaire. 3. "Se me fossem oferecidas todas as coroas do mundo em troca do meu amor pela leitura, desdenhosamente as repeliria", garante Fenelon.
        No final do primeiro terço do discurso, o poeta Moacyr voltar a recitar Rui Barbosa. O baiano, o outro, costumava gabar-se de madrugador ( nos dois sentidos). Segundo o próprio, sempre acordava antes do nascer do sol. Assim sendo, dizia: "Os que madrugam no LER, convém madrugarem também no PENSAR. VULGAR é o ler, raro o REFLETIR. O saber não está, nas ideias próprias, que se geram dos conhecimentos absorvidos, mediante a transformação por que passam no espírito que os assimila, Um SABEDOR não é armário de SABEDORIA armazenada, mas transformada por reflexivo de aquisições digeridas".
       E Rui segue sendo citado por seu conterrâneo. Portanto, no auge da pregação, o orador Moacyr é definitivamente brilhante. Sem tom paternalista, diante dos formandos, olha para o centro do auditório e conclama aos jovens, com as seguintes palavras do outro baiano:
       "Já se vê quando vai do saber aparente ao saber real. O saber de aparência crê e ostenta saber tudo. O saber de realidade, quanto mais real desconfia, assim do que vai aprendendo, como do que elabora".
         Portanto, senhores, "dependemos, como vedes, dos livros, desde o alvorecer ao anoitecer da vida. Muito obrigado!". 
         Sejamos leitores na definição de Laurence.Hallewell. Viva o Livro. Viva a Leitura. Viva a Vida.
         O maior orador sacro de todos os tempos, o português-baiano padre Antônio Vieira, disse: 

                                  "O livro é um mudo que fala, 
                                    um surdo que responde, 
                                    um cego que guia, 
                                    um defunto que vive".


         Referências
         1. Alves, Moacyr. Cinco Falas da Amazônia, Gráfica da Imprensa Oficial do Estado  do                Amazonas, Manaus, 1975. 
         2. http:/www.abrigomoacyralves.org/crbs_2.html
         3. Jornal do Commercio, 5 de dezembro de 1970, pp.4 e 5.
         
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