O samba puro de Zé Kéti

     Você sabe quem foi José Flores de Jesus? Ele  nasceu no bairro de Inhaúma, na cidade do Rio de Janeiro, a 16 de setembro de 1921. Seu apelido era Zé Quietinho, por ser um menino sossegado, quieto. Depois de algum tempo, esse apelido foi abreviado para Zé Kéti.
      Há  alguns meses, pesquisei e publiquei aqui no Facetas  a história  da vida e da arte de Cartola. São incríveis as semelhanças entre os dois. "Cariocas, saídos da pobreza, alimentados nos subempregos e nas artimanhas da vida (...). Têm outros pontos em comum: o ritmo no sangue, a poesia nas palavras e, enfim, o talento de samba puro". 
     Seu interesse pela música surgiu ainda na infância. Cresceu acompanhando a fama de Noel Rosa, da dupla Preto e Branco (Herivelto Martins e Francisco Sena), de Ataulfo Alves e muitos outros artistas do mundo do samba. 
     Em 1939, aos 18 anos, esteve pela primeira vez no famoso Café Nice, que na época era o ponto de encontro na vida artística do Rio de Janeiro. Só para lembrar: o cantor e compositor Milton Carlos, imortalizou ainda mais esse lugar  em 1975 com a canção "Memórias do Café Nice", de Monalisa e Artúlio Reis, cujos versos dizem:
                                     Ah! que saudade me dá
                                     Ah! que saudade me dá
                                     Do bate papo do disse-me-desse
                                     Lá do Café Nice
                                     Ah! que saudade me dá.
     "Lá apareciam tanto cantores procurando músicas novas com compositores da moda como compositores novatos cercando os cantores da moda". O menino Zé já chegou no Nice bem acompanhado por Luís Soberano, autor de Não Me Diga Adeus. Muito moço? Sim. Mas, cheio de qualidades. Por exemplos: sabia ser paciente e persistente com todos e com o que queria, além de ter grande facilidade de se relacionar com as pessoas. 
     Foi exatamente nesse Café que fez amizade com nomes de peso como Lúcio Batista, Geraldo Pereira, Francisco Alves entre outros bambas que por lá apareciam. Apesar dessa aproximação, somente alguns anos depois, em 1946, teve a oportunidade de ter duas de suas músicas gravadas: Vivo Bem, com Ari Monteiro, na voz de Ciro Monteiro e Tio Sam no Samba, com Felisberto Martins, pelos Vocalistas Tropicais.    
     Kéti era portelense desde 1940. Foi nessa época que fez o samba Jaqueira da Portela e o samba de quadra Jequitibá. Mas, por causa da disputa sobre a autoria do samba  Não Quero Morrer, o poeta se afastou da agremiação no final daquela década. Migrou, então, para Vaz Lobo, onde,em 1952, fez seu samba mais conhecido. Hoje, um clássico: A Voz do Morro. Gravado por vários artistas, entre eles, Demônios da Garoa e em 1971,  pelo próprio autor. Ainda naquele ano de 52, Linda Batista fez sucesso com outra canção do mestre: Amor Passageiro.
     No ano seguinte,  A Voz do Morro e Leviana, ambas de Zé Kéti, foram incluídas na trilha sonora do filme Rio, 40 Graus, do cineasta Nelson Pereira dos Santos. Em 1957, repete a dose no filme Rio, Zona Norte, do mesmo diretor, com os sambas Malvadeza Durão e Foi Ela. Não parou por aí. Nos anos seguintes, fez músicas para outros filmes, de outros diretores, como A Grande Cidade (1966), de Cacá Diegues. 
     Na próxima fase, em 1963, o sambista reapareceria ativamente no meio artístico, quando passou a visitar o Zicartola, onde frequentavam artistas de uma esfera mais sofisticada como  Carlos Lyra, como o qual fez o Samba da Legalidade. Foi aí, que Oduvaldo Viana Filho, o Vianinha, Ferreira Gullar e Armando Costa, conceberam a ideia da peça de teatro, Opinião, que lançou Maria Bethânia, no lugar de Nara Leão. Esse nome opinião, vem do samba homônimo de Kéti, gravado por Nara, Elis e Jair Rodrigues. 
     Em 1964, Nara grava Diz Que Fui por Aí, que deu ao autor o troféu Euterpe, de melhor compositor carioca, e o Guarany, junto com Nélson Cavaquinho, como melhor compositor brasileiro. No ano seguinte, Acender as Velas, na voz de Nara   Leão, foi sucesso nacional. Ainda em 65, ele lança o LP "Roda de Samba, pela gravadora Musidisc, com outros sambistas, entre eles Paulinho da Viola.
     Em 67, ele emplaca um grande sucesso carnavalesco, Máscara Negra, dele e Hildebrando Pereira Matos, cantado até hoje. A partir daí, esse autêntico artista popular, vê cada vez mais  o seu nome se destacar na galeria dos grandes sambistas nacionais. 
     Mas, mais por ingenuidade que sutileza, em 1972, grava um compacto com músicas ufanistas. Foi um fracasso de vendas e tudo mais. No entanto, no ano seguinte, já estava recuperado, e lança um ótimo LP, no qual constam canções como  Antigamente Era Assim, Mascarada, Meu Pecado, Nega Dina, etc.
      No final da década de 70, ou seja, em 79, lança o LP Identificação,com novas composições como Meus Cabelos Brancos, Tamborim, Companheira e Eu Vou para a Bahia. E assim, segue sua carreira, sua vida até o dia de sua morte, em 14 de novembro de 1999, aos 78 anos. Foram 60 anos de atividades artísticas repletas de criatividade e originalidade. 
      Segundo o jornalista e crítico de música Sérgio Cabral, Zé Kéti pertenceu a quarta geração dos criadores do samba, a partir dos anos 50. Ainda era menino  quando "já se espalhava pelos subúrbios e pelas favelas do Rio de Janeiro o novo samba feito pelos compositores do bairro do Estácio de Sá e que tinha muito pouco a ver com a música amaxixada de compositores como Sinhô, Caninha (primeira geração do samba)". Portanto, ele pode, muito bem, ser o consolidador do samba, pois, além de dar continuidade a esse gênero, soube desenvolver alguns componentes que o samba oferecia.  A poética encontrou no sambista tem um pouco de malandragem e sutileza. Poesia essa que ainda não era praticada no meio artístico. Eis aí o mérito maior desse mestre. 
      Os criadores dessa poética frequentaram pouco a escola. No entanto, era de uma beleza sofisticada e, muitas vezes, cheia de ginga. Autores como Wilson Batista, Geraldo Pereira, Ataulfo Alves, etc, criaram um estilo de poesia do samba. Estilo muito bem absorvido por Zé Kéti, como garante o estudioso da cultura brasileira, Cavalcanti Proença: "Um homem que diz 'tenho muitos amigos, eu sou popular' mereceria uma estátua". Em suas letras há o humor, a crítica. Por ser um músico talentoso e figura típica da comunidade - do morro.
      Foi Linda Batista, repito, que em 1952 lançou Amor Passageiro. Esse acontecimento ajudou, e muito, abrir, ainda mais, as portas para o artista, quando então, passou a gravar os seus sambas e deles sobreviver, ou seja, deixando a sua marca de grande compositor.
      Ele é considerado o "responsável por uma espécie de ressurreição do samba, a partir do Zicartola onde cantava ao lado de Nélson Cavaquinho, Cartola, Ismael Silva", conclui Cabral. Isso fez seu oficio se superar no tempo, de forma que até "as injustiças e as incompreensões que enfrentou ao longo da vida e da carreira, tornarem-se pequenas". diante de sua grandeza humana. 
      Outro estudioso da nossa cultura, o professor Chico de Assis, fez brilhante correlação da música vindo da classe média, da época da euforia do "Brasil Grande, da década de 50, com o artista popular do anos 60. Essa "parceria" foi por Assis classificada como "encontro de compositores da classe média com os do povo". Aquela euforia, foi rompida ab-ruptamente em 64. Restando, a partir daí, "uma plateia que, sustentando os festivais de música, fazia sobreviver essa rica aliança".
     Anos 60. Os estudantes cariocas visitam as favelas. Agora, elas tinham outro significado para elas. Era a busca pelo o universo desconhecido dos morros de favela, nos labirintos de Rocinha, com o salvo-conduto da luta popular. Assim, passaram "até a entender os problemas daqueles aglomerados urbanos lotados de miséria e iluminados pelo talento de compositores que se tivessem tido a chance de uma faculdade, poderiam ser outros Villa-Lobos". 
     Estava selada a fusão de classes, de tendências. "Houve encontros de compositores, músicos e cantores da classe média com seus colegas simples vindos das camadas mais baixas do povo". Nara Leão retratou bem isso. Ela foi buscar composições para gravar de artistas até então distantes, que nem sonhavam em frequentar Ipanema. 
     Nesse contexto,  Zé Kéti, sem dúvida, foi um dos primeiros compositores autênticos para o meio artístico. Foi a partir de sua participação no filme Rio, 40 Graus, que o sambista se acostumou a frequentar os ambientes da classe média carioca, mas sem perder sua característica popular.
     O LP, do qual extraí essas informações é uma obra-prima do cancioneiro brasileiro. O fascículo tem 8 páginas de pesquisa da Abril Cultura e artigos de Sérgio Cabral (pai) e Chico de Assis. São 12 músicas; as letras são originais; alguns intérpretes são Jorge Goulart, Nara Leão, Dalva de Oliveira, Paulinho da Viola e Zé Kéti. As canções principais são Opinião, A Voz do Morro e O Meu Pecado
     Os poemas são tão fascinantes com mensagens tão atualizadas, apesar de terem sido publicadas pela primeira vez há mais de 50 anos, que  não foi fácil escolher um para ilustrar este trabalho: 

                            OPINIÃO

             Podem me prender
             Podem me bater
             Podem até deixar-me sem comer
             Que eu não mudo de opinião
             Daqui do morro eu não saio não  (bis)
                     Se não tem água
                     Eu furo um poço
                     Se não tem carne
                     Eu compro um osso e ponho na sopa
                     E deixa andar, deixa andar
                     Fale de mim
                     Quem quiser falar
                     Aqui em não pago aluguel
                     Se eu morrer amanhã, seu doutor
                     Eu estou pertinho do céu
           Podem me prender(...).
    
       E você, amigo leitor, já mudou de opinião ou vai deixar ser surrado no rosto? Como anda a democracia brasileira?  Precisamos sair dos camarotes da nossa vida particular  e nos unir em prol de todo o Brasil. Não podemos deixar um grupelho de descompromissados continuar maculando o país.

       Sobre a data de amanhã,  o poeta curitibano Paulo Leminski Filho (1945-1989)++ deixou estas inestimáveis palavras, com as quais o Facetas parabeniza todas as MÃES do mundo:

                      "Amar é um elo
                        entre o azul 
                        e o amarelo".

      Referências
      1. Zé Kéti e Monsueto. Coleção História da MPB (grandes compositores), vol. 14. Abril Cultural, São Paulo, 1982.
         
                           

   
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