"O Tempo", de Aldisio Filgueiras

    Entre setembro de 2005 e novembro de 2006, li, organizei e arquivei 53 artigos desse escritor, compositor, poeta, jornalista e membro da Academia Amazonense de Letras, do amazonense Aldisio Filgueiras, publicados no jornal Correio Amazonense. Excelente matutino - priorizava a literatura, a poesia, a musica, o teatro, etc -, mas, de pequena duração. Acho que após um ano e meio, deixou de circular. Hoje, Aldisio está  no jornal Amazonas em Tempo, como editor de opinião, além de editorialista, do mesmo jornal.
     Simão Pessoa, Tenório Telles, Zemaria Pinto, Aldisio, os saudosos Paulo Graça e Aníbal Beça, entre outros nomes, nos orgulham muito. Eles fazem parte dos melhores representantes da literatura e o cancioneiro regionais dos últimos 30, 40 anos. Porém, falta-lhes mais reconhecimento  tanto por parte das autoridades como pela sociedade, como um todo. O certo, é que estão aí - em vida ou in memorariam - cumprindo seu oficio. 
    Segundo o professor da UNB, poeta escritor Antonio Lisboa Carvalho de Miranda (76), "com Aldisio Filgueiras a poesia brasileira do século 21 se renova pela melhor tradição, renasce das cinzas da mesmice, dando um coice no beletrismo (ainda) em voga e se institui, consciente e agressivo".
    Se confirmado que os poetas são a "antena do mundo", os jornalistas são a base dessa antena, e consequentemente, os  escritores são o sinal emitido dessa antena. Assim, é o imortal em questão: perspicaz, atualizado e antenado a tudo que diz respeito ao seu compromisso profissional.  Apesar de impiedoso com os chamados "homens públicos" que praticam desvio de conduta, não perde a coerência do que escreve e publica. 
    Opinião  minha: seus livros "Malária e Outras Canções Malignas", "A República  Muda", Ararinha-azul, o Sumiço" e "Nova Subúrbios" e os que virão, jamais deixarão de ser inovadores os temas abordados. Seus artigos são ótimos ( não deixam a desejar diante de nenhum autor de outras regiões do país ). Alguns são memoráveis, mesmo depois de quase 12 anos de sua publicação. Como exemplo, trago à luz desse comentário, alguns deles, como os fragmentos a seguir:
    1. "Ser enganado d´a um prazer enorme", de 30 de outubro de 2005, onde consta: "Para ser democratas, os gregos precisaram de crianças, mulheres e escravos. Para sermos democratas, precisamos de pobres, nao interessa se criança pobre, mulher pobre. Abolimos a escravidão e adotamos a pobreza para sermos mais democráticos do que os gregos".
    2. "Avis rara (para o senador Jefferson Peres)", de 2 de abril de 2006, cujo início é assim: "Nunca mais a olho nu/uma ararinha azul". O poema segue e o autor questiona: " - Para que servem os pássaros, se ´e proibido come-los?" As estrofes se sucedem e ele tasca: "A ararinha-azul agora/´e visagem sem cabeça/ronco e ´arvore". E, ao terminar o poema, exclama: "Ararinha-azul/os meus pecados sem metro,/elo amor de Deus, não volte!". 
    3. "Um carnaval de cinzas", de 3 de março de 2006, sobre a euforia de carnavalescos locais homenagearem  políticos em seus enredos, ele pergunta e responde incisivamente: "Existe algo mais caricato que um político?Não".
    4. "Política publica no Amazonas é salão  de beleza", de 17 de fevereiro de 2006, o jornalista constata: "Duas inquietações movem o homem político no Amazonas: a eleição e a reeleição".
    5. "Abra e feche os olhos", de 24 de agosto de 2006, quando, então, o Líbano queimava vitima de conflitos - hoje é a Síria -, o coração do jornalista, sensibilizado diante de tanto sangue que por lá jorrava, além de Israel, Afeganistão, etc. registra estas frases: 

     "Toda distância é uma linha imaginaria que contorna rios e montanhas, situa e sitia cidades e orienta os navegantes em seus barcos, os motoristas em seus carros, os pilotos em suas aeronaves, os homens-bomba em seu delírio, os insones  em seus pesadelos. Nenhuma porta fechada, nenhuma cerca elétrica, nenhum carro blindado, nada será bastante fechado para impedir que se feche e abra os olhos. Tente". Isto é, nada, nada, nada, deterá a liberdade humana. 

    6. "O nome do jogo é intolerância", de 8 de setembro de 2006, sentencia: "O amor e a paz nao vingam/numa civilização que adotou/a intolerância como princípio de vida".
    Porém, do mesmo poeta vem o alento, com estes versos: "Nem tudo é tardio/e a tarde insiste/em ser noite/se amanhã/ ´e de outro dia".
    Até mesmo nos momentos mais difíceis, como o da tragédia que fatalmente vitimou duas jornalistas daquele informativo, num acidente automobilístico, na Zona Leste de Manaus, o poeta soube revitalizar a esperança da vida, com estas palavras: "Enquanto perseguirmos o amanhã,/não existirá adeus".
    Eis aqui, outro momento de beleza poética do mestre. Em 1986, foi lançado o álbum duplo (vinil) "Nossa Música", pela Superintendência  Cultural do Amazonas, e nele está a premiada canção Porto de Lenha, cuja letra é de Aldisio e a melodia de Torrinho (hoje Zeca Torres). Há alguns anos foi ela eleita (entre 20 músicas inscritas) pelo público local, como a "Canção-Hino do Amazonas". O letrista diz:

    Porto de lenha
    tu nunca serás Liverpool
    com uma cara sardenta
    e olhos azuis
    um quarto de flauta
    do alto rio Negro
    pra cada sambista-paraquedista
    que sonha o sucesso
    o sucesso sulista
    em cada navio, em cada cruzeiro
    em cada cruzeiro
    das quadrilhas de turistas. 
    
   O primeiro artigo que li desse acadêmico, foi "Diário de uma perda de tempo", de 17 de setembro de 2005. Confesso: fiquei deslumbrado, como havia ficado quando vi  as águas do Atlântico lambendo as areias da praia de Copacabana, no Rio de Janeiro. O texto e tão fascinante e remete ao leitor a reflexão que o reproduz aqui, por inteiro:

    "Houve e haverá em todos os tempos uma preocupação  com o tempo. Tempos de ser e não ser. Tempos em que muda de mãos e troca de dono. Teve um tempo em que o tempo era feminino. Os mitos da primeira humanidade tratam da Terra e da Lua - feminilidade é tudo o que torna a vida possível.
     E´ bem provável  que o homem tenha se apropriado da Terra e aprisionado o Sol, ao perseguir sua sombra, ao mesmo tempo em que aprisionou o sonho da Lua. O tempo era de três Luas, estações ou fases, o que não significava que o tempo já fosse um tempo de varejo, na verdade, era no atacado que se entendia o tempo: as diferenças ainda não eram desigualdades. 
     O homem levou o tempo a uma condição de mercadoria e varejo. E lhe estabeleceu preços. Compra-se tempo. Vende-se tempo. Troca-se tempo. Acreditou que, com essa atitude, poderia ganhar tempo, acumular tempo, estocar tempo, lucrar tempo - tempo e dinheiro, como se diz hoje, quando a cultura do dinheiro j´a nem d´a mais tempo ao tempo.
    E o homem dividiu o tempo em horas, minutos, segundos, centésimos de segundo, exatamente como fez com o dinheiro, criou uma economia do tempo. No entanto, quanto mais objetivo o tempo, mais ilusão: essas moedas temporárias não fazem a vida mais longa, porque se trata disso: acumular vida, dar sobrevida à vida - talvez seja isso o que sustenta esse diálogo ou fixação obsessiva com o tempo, afinal inútil: a morte dura mais tempo.
    Diz-se que os velhos acordam mais cedo para ter a impressão de que vivem mais tempo. Se a primeira impressão é a que fica, a ´ultima impressão não é tão forte que possa mantê-la fixa: o último suspiro apaga todos os fragmentos do tempo. Mas existe um consolo: alguém pagará o enterro e as flores e o esquecimento.
    O relógio - não mais a Lua, o Sol e a Estrela ou a Noite e o Dia - é o diário da nossa perda de tempo. Uma pessoa feliz não pergunta o sentido da vida".

    E sem perguntar o sentido da vida, segue o poeta na trilha da verdade, com esta e outras citações geniais. O Aldisio e´ um pescador. Pescador das belas e necessárias palavras. Dos úteis versos sem embaraço linguístico, mas da reflexão. Os poetas são assim: sabem ser mordazes, mas também sabem  ser compreensíveis com as palavras e seus significados... O que, por´em, os fazem mudar de ideia, são as circunstâncias de cada instante, de cada momento.
    Portanto, voltemos ao TEMPO com estas palavras do magnífico poeta espanhol Federico Garci´a Lorca:
    
                          Eran las cinco em punto de la tarde.
                                Ay qué terribles cinco de la tarde!
                                      Eran las cinco em todos los relojes!
                                             Eran las cinco em sombra de la tarde!

   Referências 
   1. www. verdestrigos.org
   2. Correio Amazonense, caderno "Obra-prima", n. 6, ano 1, Manaus, 17.09.2005. p. 12
   3. "Aldisio Filgueiras: a palavra inventa e devora", por Antonio Miranda, em 24.07,2006.
   4. "Nossa Música", álbum duplo (vinil), Sup. de Cultura do AM, Spalla Gravaçoes, SP, 1986.
       

   
Tecnologia do Blogger.