"De medalhões estamos fartos"


    Na semana passada fiz menção aos 100 anos da Semana de de Arte Moderna, que serão lembrados em fevereiro de 2022. Hoje, 95 anos depois desse acontecimento histórico. Em 1982, o jornalista Mário da Silva Brito publicou uma longa reportagem sobre os 60 anos daquele evento, com o seguinte título: "MODERNISMO: de 1922 a 1982 - A IMPORTÂNCIA E PERMANÊNCIA DA SEMANA DE ARTE MODERNA". Da qual, extraí alguns tópicos, há exatos 35 anos, e, agora, oportunamente apresento aqui.
    Em 1922 foi inaugurada no Teatro Municipal de São Paulo, a Semana de Arte Moderna, os principais integrantes foram: Mário de Andrade, Oswald de Andrade, o poeta Menotti del Picchia, o pintor Di Cavalcante, e tantos outros. Inclusive foi com "de medalhões estamos fartos", o brado de Menotti conclamando a todos para a necessidade de mudança na cultura brasileira, principalmente nas artes.
    "Sessenta anos são decorridos desde a semana de Arte Moderna de 11 a 18 de fevereiro de 1922, data de instauração, entre nós, do movimento modernista. Implantara-se, então a ruptura com os processos estéticos anteriormente cultivados pelos escritores e artistas brasileiros, e, em consequência, novos rumos passavam a ser percorridos para a apreensão da vida e seus dramas através da criação artística nos seus muitos planos: a ficção, a poesia, o teatro, o balé, as artes plásticas e musicais". 
    O simples fato de cada decênio, os meios de comunicação - o livro e a imprensa, principalmente - se detenham no exame crítico desse evento, já dá a medida da importância que os oito dias polêmicos de 22 tiveram nos destinos culturais do país. Que outro acontecimento dessa ordem provoca até hoje tamanho alarido neste Brasil que esquece tão rapidamente o dia de ontem? 
    A partir da exposição de pintura de Anita Malffati, em 1917, que foi rudemente atacada por Monteiro Lobato, começa constituir-se o grupo que iria deflagrar o Modernismo. Três anos depois, Oswald de Andrade fazia-se o arauto anunciador da SEMANA DE ARTE MODERNA, ao revelar, em artigo, que um grupo pequeno de artistas de São Paulo "está se preparando para fazer valer o ano do centenário da Independência do Brasil". E afirma que "Independência não é só Independência Política, é, acima de tudo, independência mental e independência moral". Em 1921 já há uma plataforma modernista que norteará a ação dos inovadores.  
    São os seguintes os pontos básicos dessa proposta: a) a repulsa às concepções românticas, parnasianas e realistas; b) a independência mental brasileira pelo repúdio às sugestões europeias, mormente as lusitanas e francesas, em voga nos meios cultos conservadores; c) a formulação de uma nova técnica de representação da vida, em vista de que os processos antigos ou os conhecidos não apreendem mais os problemas contemporâneos; d) a adoção de outra expressão verbal para a criação literária - expressão que os modernos italianos e franceses estão seguindo - que não seja mais a mera transcrição realista ou naturalista, mas recriação artística trabalhada, transposição para o plano da arte de uma realidade impregnada de vida, dos seus conflitos, entrechoques, variedade e tumulto.
    Os modernista também firmam posição contra a trindade étnica brasileira, por não admitirem mais o português, o índio e o negro como exclusivos elementos formadores do homem nacional - étnica primitiva, que julgam dissolvida pelo sangue imigrante, que pretendem seja integrado no corpo da nacionalidade. Por outro lado, combatem a rima, a métrica e todos os moldes e formas antes aceitos. Repelem o regionalismo, que escamoteia a nova realidade das metrópoles tentaculares.  
    Por fim, realizam os três festivais desenrolados no Teatro Municipal paulistano nos dias 13, 15 e 17 de fevereiro. Ali apresentam a sua doutrina estética por meio de conferências; a nova poesia por meio de declamação; a nova música por meio de concertos e recitais; a nova arte plástica é mostrada em telas, desenhos, esculturas e maquetes de arquitetura, expostos no saguão do teatro.
    A principal noite foi a segunda. Após o discurso de del Picchia, que tinha como linhas gerais dos propósitos do modernismo. Também foram exibidas a poesia e a prosa. Mário de Andrade disse versos da "Pauliceia Desvairada - a Ode ao Burguês -  mais tarde ele disse que não sabe como teve coragem de enfrentar a tão grande e turbulenta vaia. O poema Os Sapos, Manuel Bandeira, escandalizava o Parnasianismo. Mesmo assim tiveram aplausos com a recitação da poesia Os Pássaros de Aço, por Agenor Barbosa, a qual exaltava o avião. Oswald de Andrade, leu um trecho  de prosa, Os Condenados, enquanto
a plateia ladrava e gritava. Apesar do tumulto os integrantes não se deixaram traumatizar pelo ocorrido e, marcaram presença com as suas ideias.
    De 1922 a 1930 o Modernismo traça a sua trajetória para, enfim, consolidar-se como conquista do espírito e soterrar o que de arcaico entrava a evolução prática nos domínios da criação e das ideias. Como o homem e o mistério, o céu e a terra, estão na poesia de Drummond, Bandeira, Schmidt, Bopp, Murilo Mendes, Jorge de Lima, entre  outros.
    Foi Mário de Andrade, por exemplo, quem melhor sintetizou as conquistas fundamentais do Modernismo, sendo que delas decorre a importância do movimento. São: 1) O direito permanente à pesquisa estética; 2) A atualização da inteligência artística brasileira; 3) e A estabilização de uma consciência criadora nacional e, sobretudo, a conjuração dessas três normas (...) num todo orgânico da consciência coletiva.
    O Modernismo deixa no seu espólio obras marcantes, entre as quais, para destacar só algumas, e um tanto a esmo, a prosa de Mário de Andrade (Macunaíma) e Oswald de Andrade (Memórias Sentimentais de João Miramar e Serafim Ponte Grande); a Cobra Norato, de Raul Bopp; os contos de João Alphonsus; os romances de Haroldo Ferraz (Doramundo e a Famosa Revista, este em colaboração com Patrícia Galvão); a poesia de Cassiano Ricardo, de Drummond, de Jorge de Lima, Murilo Mendes; os textos de Aníbal  Machado (João Ternura e o Livro de João); a música de Vila-Lobos; a pintura de Di Cavalcante, Segall, Tarsila do Amaral e Portinari; a escultura de Brecheret,  Bruno Giorgi e Ceschiatti; a arquitetura e o urbanismo de Warchavehik, Lúcio Costa e Oscar Niemeyer.
    Pela estrada aberta pelo Modernismo - a inovação estética não ocasionando mais espanto, protesto ou repulsa - trafegariam o romance de Jorge Amado, José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Clarice Lispector, João Guimarães Rosa, e até a sociologia de Gilberto Freyre.  
    Passados  poucos meses  dos 95 anos daquele evento, a frase: "De medalhões estamos fartos", está vivíssima. Assim como fartos estamos de figurões nas Academias de Letras, nas políticas partidária e social. Precisamos nos desvencilhar disso tudo se o país quiser figurar entre os 50 melhores do mundo em 2050.

    Com esta edição o Facetas atinge 100 publicações. Tem mais: todas consecutivas( todo sábado, uma). Por isso, agradeço de coração cada leitor, cada sugestão, cada manifestação. Poderia citar alguns nomes, mas estaria sendo injusto por não saber os nomes de outros milhares (são quase 40 mil). Muito, muito obrigado mesmo.    

    Amigos leitores, quando este estava sendo publicados, eu estava  em Parintins, AM, em serviço, a capital mundial do festival do folclore dos Bois Garantido e Caprichoso. São três noites de festividades do quinquagésimo segundo Festival.  Estou na terra de Chico da Silva, de Tony Medeiros, de Emerson Maia, e tantos outros artistas, artesãos, criadores culturais. Para quem não conhece esta Ilha, fique sabendo que tudo aqui tem manifestação de criatividade artística e cultural: da criança ao idoso. Tudo é grandioso. Tudo é maravilhoso.Eu vejo assim. Eu penso assim.Ao visitante pouco importa qual dos Bois será o vencedor. O que mais chama a atenção é a originalidade de tudo, de cada coisa, cada detalhe. Parintins é festa.


    Referência
    1. ISTOÉ, n. 269, de 17 de fevereiro de 1982. Reportagem Mário da Silva Brito.



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