Teu samba, minha vida

    Nos anos 70, a gravadora RCA decidiu relançar discos em diversos países da Europa, nos EUA, na Argentina. No Brasil, a série saiu com o título REMINISCÊNCIAS. o volume 1 de "Samba Nostalgia", de 1976, teve um resultado tão positivo, que motivou o lançamento do segundo álbum da série, no ano seguinte, isto é, em 1977, com clássicos da época do LP 78 RPM, ou seja, dos anos 30, 40, 50 e 60, também. 
    Tanto o volume 1 quanto o 2, contém dois LPs, cada, com 31 e 32 canções, respectivamente. No primeiro, podem ser encontradas músicas como Feitiço da Vila, Saudosa Maloca, Pelo Telefone, A Voz do Morro, Corcovado, A Flor e o Espinho, Lata D'agua, Você Abusou, Fita Amarela, Laranja Madura, A Normalista, Garota de Ipanema, entre outras.
    Na contracapa do volume 2, há um excelente estudo da época - a partir dos anos 30 - de José Eduardo Homem de Mello, mais conhecido como Zuza Homem de Mello, que, modestamente chama sua análise de "Notas", das quais extraí as principais ideias sobre as canções, os autores e seus intérpretes.
    Nesse novo álbum, algumas canções clássicas daquelas décadas, que tocavam nas vitrolas, os discos que  eram de 78 rotações  por minuto como Madame Fulano de Tal e Caminhemos, dois grandes sucessos gravados na poderosa voz de Nelson Gonçalves; Deixa Essa Mulher pra Lá, vem na voz do mestre Ataulfo Alves; Vai, Mas Vai Mesmo, na voz inconfundível de Nora Ney; Atire a Primeira Pedra, com Orlando Silva. Por sinal, foi ele que "lançou com sucesso a gravação original - dessa música - para o carnaval de 1944, regravando mais tarde esta versão. Orlando ainda interpreta Chora Cavaquinho, de Waldemar de Abreu , o Dunga, originalmente lançada pelo próprio Orlando em 1939.
    Rosa Morena, depois de várias gravações clássicas "recebeu um tratamento bem ao estilo de Miltinho, que foi na década de 50 um ídolo nacional". Lamentos (Pixinguinha/Vinicius de Moraes), muitas vezes grafada no singular, também está no "Nostalgia", onde é executada por um gigante do choro brasileiro, Jacob do Bandolim. A interpretação é tão marcante que passou a ser imitada por todos os instrumentistas.
    Martinho da Vila marca presença com Iaiá do Cais Dourado e Pequeno Burguês. União de puro sucesso. Principalmente a segunda canção, cuja letra continua sendo comentada pelo aspecto social. Também fazem parte do álbum os cantores e compositores Jorge Vieira e Ciro Monteiro, com Café Soçaite e Falsa Baiana, respectivamente.
    O samba é um gênero tão autêntico que a partir dele surgiram outras vertentes musicais. Assim ocorreu com os primeiros sambas de breque, lançados por Moreira da Silva, em 1939: Acertei na Milhar (Geraldo Pereira) e Amigo Urso (Henrique Gonçalves). Curiosamente esta última tem a letra em forma de carta. Nela, o autor cobra um dívida.
    E Nega Maluca (Evaldo Rui/Fernando Lobo - pai de Edu Lobo)? Esse samba foi um grande sucesso no carnaval de 1950, na voz de Linda Batista, também consta nesse empreitada da RCA. Também foi convocado "um dos melhores compositores de samba de São Paulo, Paulo Vanzolini" com Volta Por Cima, na interpretação de Adauto Santos.
    Os cariocas Nelson Cavaquinho e Cartola, têm lugar de destaque no "Nostalgia 2", com Notícia, Luz Negra e O Sol Nascerá. A primeira com o próprio Nelson e as demais na voz da baiana Maria Creuza.
    "Outro compositor típico dos morros do Rio de Janeiro, é Candeia", pois seu nome está registrado na
Série com Filosofia do Samba, uma conhecida composição bem do seu estilo. O talento de Ismael Silva também está nesse trabalho, com dois grandes sucessos: Nem é Bom Falar e Adeus, quando já era um senhor de 68 anos de idade. Há quem garanta que Adeus, é considerada uma homenagem de Ismael ao parceiro Nilton Bastos, in memorian. Todavia, a irmão de Nilton declarou, alguns anos depois, que a primeira parte da canção já tinha sido composta por seu irmão.
    Zuza, destaca também: "O Orvalho Vem Caindo (Noel Rosa e Kid Pepe), cujo intérprete é um dos pioneiros na pesquisa de música popular brasileira: Almirante. A música que fez sucesso no carnaval de 1934 e foi regravada inúmeras vezes." No "Nostalgia" está em sua originalidade, ou seja, de outubro de 1933. Mas há também duas interpretações do início da carreira de Maria Bethânia: Mora na Filosofia (Monsueto) e a belíssima recriação de Três Apitos, de Noel.
    Dorival Caymmi merecidamente foi incluído no álbum com Marina, que, apesar de ter passado por várias gravações, inclusive a sua, todas de 1947, a do disco vem na voz de Dick Farney, por ser um cantor mais ligado ao samba-canção , cujo estilo começava a se firmar.
    Samba de Uma Nota Só (Tom Jobim/Newton Mendonça), um dos primeiros sucessos da Bossa Nova, foi registrado pela primeira vez por João Gilberto em 1960. Agora, nesta nova versão, tem como intérprete, Leny Andrade. Do Sul veio Lupicínio Rodrigues, o mais famoso compositor do Rio Grande, que canta Esses Moços, lançada em 1948 por Francisco Alves. Zuza observa: "Notem que apesar da música ser conhecida e registrada como Esses Moços, é cantada Estes Moços".
    Ao finalizar seu estudo, o autor diz: "Jorge Ben, comparece com a música que foi um dos sucessos iniciais dos Originais do Samba: Cadê Tereza, que tem a participação do próprio Ben ao violão e fazendo vocal ao final da música".
    Se em plena década de 1970, Zuza teceu estas excelentes considerações sobre essa divulgação fonográfica da RCA (claro, sobre mais de 60 canções dos dois álbuns) com muita credibilidade, imagina-se hoje, aos 83 anos de idade e cheio de vitalidade criativa e física, o "musicólogo, jornalista, pesquisador e escritor, José Eduardo Homem de Mello, compartilha a memória prodigiosa e o conhecimento enciclopédico sobre a música brasileira", garante Marcelo Perrone.
    No mês passado (maio/17), em entrevista ao jornalista acima citado, Zuza fala da sua relação profissional  com a música - dentro e fora do Brasil - e com artistas de várias gerações. Sua grandessíssima importância no meio artístico, é uma coisa impressionante. "Ele viu e ouviu de muito perto artistas que revolucionaram a música no século 20". Lá fora com John Coltrare, Miles Davis, Duke Ellington, etc. Aqui, com João Gilberto; Elis, Chico, Caetano, Gil, Jair Rodrigues, Nara, Edu lobo, e tantos mais. E mais: Zuza, foi um dos primeiros brasileiros a ouvir o antológico Sgto. Pepper's Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, que, por sinal, neste mês de junho estão sendo celebrados os 50 anos de um marco simbólico da histórica música universal.
    Assim, espero que o meu leitor possa apreciar este resumo do memorável levantamento desse genial musicólogo, que já tendo passado quase meio século, as suas palavras continuam  mais atuais que antes. É como 'um rio que ficou na nossa vida'. Se você adquirir esses dois álbuns terá duas obras raras do cancioneiro brasileiro do mundo do samba no teu acervo.

    Referências
    1. SAMBA NOSTALGIA, volume 2, RCA/Camden, com "Notas" de Zuza Homem de Mello, 1977.
    2. ZUZA HOMEM DE MELLO: "O público está hipnotizado", por Marcelo Perrone    (http://zh.clicrs.com.br, de 04. 05.2017.  
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