Adoniran: o Carlitos brasileiro

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Belíssima pintura de Adoniran*
 
  Você sabe quem foi João Rubinato? Foi o Adoniran Barbosa, nascido em Valinhos, São Paulo, a 6 de agosto de 1910, no mesmo ano em que o cometa Halley assustou o mundo, com promessas de destruição e catástrofe. Filho dos  imigrantes italianos Fernando Rubinato e Ema Riquini Rubinato.
  Preocupado com os estudos dos filhos (eram sete, Adoniran era o caçula), o casal se muda para Jundiaí, cidade  vizinha mais desenvolvida. Aí João ia crescendo, travesso e nem sempre obediente. Ele confirma: "Eu era um moleque vagabundo, fiz até o terceiro ano e fui expulso". Gostava de cabular as aulas para brincar no rio. Sua mãe descobria tudo e ia buscá-lo sob "vara de marmelo". 
    Em 1924, quando o garoto já tinha 14 anos, seus pais querendo proporcionar aos filhos boas condições de vida, migram para uma cidade maior, com mais opções de emprego e melhores salários. Novo destino: Santo Amaro, próxima à capital paulistana.
    Já longe da escola, o jovem passou a trabalhar para ajudar a família. Foi entregador de marmitas, garagista, tecelão, pintor de paredes, encanador, metalúrgico, garçom e mascate de meias.
    Aos 22 anos foi tentar a vida na capital. O ano era 1932, a cidade vivia uma grande turbulência devido a Revolução Constitucionalista que estava a todo vapor contra o governo Vargas. Mas, o jovem prefere ficar longe dos conflitos, e vai trabalhar numa loja de tecidos na 25 de Março. Fazia alguns "bicos" como cantor de ambulante. Após o trabalho, nos finais de tarde, ele preferia as cantorias e os bate-papos dos bares e botecos apinhados de clientes. Costumava visitar as lojas de música da vizinhança e já se aproximava do rádio.
    Participou do programa Hora do Calouro, na Rádio Cruzeiro do Sul. Persistiu tanto que certa vez conseguiu cantar Filosofia, de Noel Rosa, até o fim sem ser gongado. "O homem do gongo devia está dormindo", ironizava. Seu sonho de  ser artista era evidente. Queria trabalhar no teatro, queria o aplauso das plateias. Para atingir esse fim, escolheu o rádio. A primeira oportunidade veio em 1933, dada por Paraguaçu, com quem cantava semanalmente. Em 1935, foi premiado pelo sucesso da marchinha de carnaval, Dona Boa. A partir daí, mudou o nome para Adoniran Barbosa.
    "Já no fim da vida, o compositor diria que, se soubesse que grande parte de sua carreira nesse nesse meio de comunicação seria como ator e não como cantor, teria mantido seu nome verdadeiro. De qualquer modo, João Rubinato se tornou Adoniran Barbosa - Adoniran era o nome de um amigo, companheiro de boemia e de copo, e o Barbosa veio do sambista Luiz Barbosa, ídolo de João Rubinato". Vai entender! Talvez, por isso, Boldrin, tenha dito: "ADONIRAN "RUBINATO" BARBOSA, A QUEM NÃO RESTAVA A MENOR DÚVIDA ".
    Passou a cantar em diversas rádios da cidade. Era grande o número  de pessoas tentando fazer sucesso. O cantor Nelson Rodrigues contava: "Eu, o Adoniran Barbosa e muita gente boa cantou apenas pelo dinheiro da condução". Participou do Programa Casa da Sogra, fazendo várias personagens; em meados dos anos 40, participou de vários filmes. No início dos anos 50, foi premiado pela autoria das melhores marchinhas de carnaval, Malvina e Joga a Chave.
    Em 1949,  Adoniran se casou com Matilde de LutiIs e juntos ficaram até a morte dele em 1983. Ela entendia sua alma de de artista. Queria ser famoso e ela compreendia isso. Portanto, aceita o espírito boêmio do homem que amava. Eis aí o exemplo de um amor duradouro.
    Porém, a careira de compositor são decolou mesmo a partir da década de 50. Principalmente após ter contato com o conjunto "Demônios da Garoa". Em 1955, com Saudosa Maloca, que foi um grande sucesso, seguida pelo O Samba do Arnesto. Em 1964, foi a vez de O Trem das Onze. Foi o casamento perfeito: Adoniran X Demônios.
    Finalmente, em 1974, foi lançado seu primeiro LP, aos 64 anos de idade - história semelhante a do Cartola, quando já eram sexagenários. Eram excelentes compositores, mas o disco só veio na velhice. Tanto um quanto o outro, conseguiram em suas composições, criam algo mais que original: a poesia da vida real. Adoniran, souberam conceber belos versos em perfeita sintonia melódica (tudo muito simples). Adoniran, soube, como ninguém, reproduzir "a fala, o sotaque e retrata os costumes de camadas populares paulistanas, onde a predominância de imigrantes se fez sentir acentuada". 
    Por exemplo, Bom Dia Tristeza. É um primor. É uma daquelas canções que encantam a gente; é inesquecível! Criada em 1957, em parceria com Vinicius de Moraes. Outras obras que levam sua assinatura são: Despejo na Favela; Doutô Vardemá; Luz da Light; Mulher; Pode Ir em Paz; Um Samba no Bexiga; Velho Rancho, entre tantas outras.

    "Adoniran Barbosa não foi apenas um compositor criativo, um ator de radionovela eficiente e um cronista popular. Para entender um pouco o que ele realmente foi e significou, é preciso mais que simplesmente perceber suas qualidades de artista; de marco da música popular brasileira; é preciso notar que sua principal característica era a de ser transparente. Transparente o suficiente para que pudéssemos olhar através dele e enxergar as ruas da cidade, os cortiços e o modo de vida do povo se processando nos silêncios, nos acordes e nos versos dos seus sambas".

    O cantor, compositor e apresentador Rolando Boldrin, aquele do popular programa "Som Brasil", de talento inconfundível, e "que melhor interpretou levou para o grande público a música, a cultura e os costumes do homem do campo, do caipira que ainda habita o interior do país, em suas cidades e em suas lavouras, ao reportar-se sobre o amigo, disse:
    "Adoniran Barbosa foi meu "companhêro" durante anos, em muitas "empreitadas. Contracenamos em novelas, tamborilamos sambas em botecos, dividimos o cigarro ao meio, compusemos alguns intrincados versos. E eu... ri muito com ele. Só não poderia dizer que rimos juntos. Adoniran não ria. Verdadeiro humorista nunca ri de suas próprias "patacadas" e Adoniran  era um humorista nato. 
    O compositor Adoniran Barbosa sempre se retratou na força de suas letras e nas melodias simples, feitas sem rebusque de ritmos ou acordes dissonantes. Sua obra cheira ao rádio antigo, onde brotou. Mas o verdadeiro sucesso apenas veio com um grupo de artistas que deu a face definitiva de sua música. H´a de se fazer justiça. No meu jeito caipira, é assim que se respeita a história: pedindo a bênção ...aos Demônios da Garoa. Estou certo de que, lá do céu, o velho RUBINATO, vulgo ADONIRAN BARBOSA, lhes agradece, ETERNAMENTE". 
     Apesar de inúmeras aventura e dos romances ligeiros, o compositor casou-se apenas duas vezes, com Olga Rodrigues de Souza, que durou menos de um ano, e tiveram apenas uma filha, Maria Helena Rubinato Rodrigues de Souza, e dela herdou um único neto, Alfredo. Depois se casou com Matilde, cujo companheirismo e perdurou por quase 40 anos. "Os atropelos e vida confusa, com dinheiro escasso e constantes mudanças de horizontes na carreira do compositor, levaram o casal à decisão de não ter filhos".
    Durante a união, o casal dedicou o carinho guardado nos sentimentos paterno e materno a três cães. "O primeiro, Peteleco, ficou famoso por acompanhar o dono em suas caminhadas e assinar a coautoria de alguns de suas composições  (inclusive nas fotos de álbum de família, são várias as aparições de Peteleco). Com a morte de Peteleco, vieram Lourinha e Mosquito".


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Adoniran e seu amado Peteleco*

    Por falar em peteleco, no mês passado (junho de 20017), a TV Record - Programa Domingo Espetacular -, exibiu uma reportagem sobre a convivência entre Adoniran e seu cão era tamanha, ao ponto de causar intriga entre artistas, amigos do compositor. Por exemplo, o cantor Noite Ilustrada, teria composto uma música com Adoniran, e ficou muito feliz por isso. porém, quando o disco foi lançado a canção estava assinada assim: "Adoniran e Peteleco". O verdadeiro coautor quis saber quem era Peteleco, e descobriu, surpreso: um CÃO. 
    "As parcerias formais de Adoniran foram raras. Sua música se construiu muito mais a partir do comprometimento anônimo com os personagens que faziam o dia a dia da cidade". No entanto, isso não impediu que os intérpretes para as suas composições fossem surgindo - a partir de os  Demônios da Garoa, é claro -, como Clementina de Jesus, Carlinhos Vergueiro,  Clara Nunes, Elis Regina, Maísa, João Bosco, Gal Costa, Djavan, Gonzaguinha, Beth Carvalho, MPB-4,etc.
    Só para exemplificar: 1. "Elis é responsável  por uma memorável gravação de Tiro ao Álvaro, no disco de comemoração dos 70 anos do artista, em 1980 (ela faleceu em 82 e ele em 83)". A cantora se atrasou muito, e quando finalmente surgiu, mesmo sem conhecer a música, entrou no estúdio com o autor e o deixou surpreso. Quando de lá saiu, meia hora depois, já com a primeira e definitiva gravação; 2. Bom dia Tristeza (Vinicius e Adoniran), recebeu várias versões, entre elas da de Maisa, de 1958. Trata-se de uma raridade de beleza; e 3. Clara Clara Nunes e Clementina de Jesus, misturaram seu samba carioca, do morro, com o sotaque paulistano tão caipira quanto italianos.
    Meados dos anos 50. O Brasil vivia a euforia de "50 anos em 5" do governo JK. Era a era das portas abertas ao capital estrangeiro. E numa de suas composições, Adoniran escreveu: "Progréssio/ Progréssio/Eu sempre escutei falá..." Isso demonstra que estava antenado à realidade do país, ou seja, não apenas ao que se passava ao seu redor: a cidade de São Paulo. Adoniran construiu sua obra do mesmo modo que os moradores da periferia erguem suas casas e barracos: com os tijolos forjados no cotidiano e na luta pela sobrevivência. 
    Mas, o "progréssio" não podia parar - essa era a concepção pregada no país, principalmente São Paulo, de um lado. Do outro, a classe operária pagava o preço do progresso. Da desgraça e da tristeza, um samba nascia. com Saudosa Maloca, criada em uma única noite, enquanto ainda chocado com um despejo visto horas antes, quando passeava pelas calçadas já escuras da cidade. Vamos à letra:

                        SAUDOSA  MALOCA 

    Se o sinhô num tá lembrado/dá licença de contá/que aqui onde agora está/esse edifício arto,/era uma casa véia/um palacete assombrado./foi aqui, seu moço/que eu, Mato Grosso e o Jóca/construimo nossa maloca /mas um dia/nóis nem pode se alembrá/veio os home co'as ferramenta/ o dono mandô derrubá./Peguemo todas/nossas coisa/e fumo pro meio da rua/apreciá a demolição,/que tristeza que nois sentia/cada tauba que caía/ duía no coração/ Mato Grosso quis gritá/ mas em cima eu falei:/os home tá côa razão/ nóis arranja outro lugá./ Só se conformemo/ quando Jóca falô:/"Deus dá o frio conforme o cubertó./E hoje nóis pega as paia/nas gramas do jardim/E pra esquecê nóis cantemo anssim:/  Saudosa maloca,/maloca querida/onde nóis passemo/os dias feliz/de nossas vidas.

    O tempo passou. A velhice chegou. Em casa, dedicava-se à Matilde, primeiramente. Depois, ao Mosquito e Lourinha. Por fim, passa horas criando brinquedos. Todos perfeitos. Tudo nos mínimos detalhes. Quando alguém perguntava sobre essa atividade, a resposta era um pouco áspera: "Alguns chamam isso de higiene mental, mas eu acho que não passa de higiene de débil mental".
    Até que, na quarta-feira, dia 23 de novembro de 1983, seu coração parou de bater. Morria, então, o Carlitos brasileiro. Os médicos o diagnosticaram com complicações pulmonares (o cigarro lhe fez companhia por, praticamente, os 73 anos que vivei). 

    No "sepultamento, mais de 500 pessoas prestaram-lhe homenagens, entre compositores, cantores, músicos, amigos companheiros de boemia, integrantes de escolas de samba, sua esposa Matilde, amigos e, principalmente, representantes do povo. Eles choravam a partida do compositor, mas, sem saber, construiram uma pedra, um tijolo, um pedregulho, perdido no meio da falta de memória nacional, mas que estaria ali, resistindo ao tempo, contemplando para sempre a vida da cidade - São Paulo: a maior metrópole da América Latina. Poucos conhecerão esse pedregulho, poucos saberão que ele encerra um sentimento de ruas e esquinas percorridas, de musicas e sambas criados para serem testemunhas de um tempo em que a cultura do povo saltou dos casebres, das favelas e dos cortiços e ganhou as ondas do rádio, as faixas dos LPs, muitas vezes nos diversos e na voz de compositores, de cronistas como Adoniran".

    Naquele dia, amigo leitor, alguém cantou estes versos: "Bom dia, tristeza. Que tarde, tristeza".
  Ufa! Foram-me as palavras. Quase não consigo balbuciar: estava "tanto tempo longe de você TRISTEZA".


   Referências
  1. Encarte do CD "Adoniran Barbosa", vol. 7, da col. MPB Compositores, RGE Discos/Editora Globo, SP, 1996.
   2. Encarte da col. MPB Compositores, vol. 7, Adoniran Barbosa, Editora Globo, SP, 1996.
   3. DUB-Dic.Brasileiro Universal Tres.- SP:Tres Livros e Fascículos, vol.1, pp.144/145, 1984.

  Imagens
*Belíssima pintura de Adoniran - http://euqueroumsamba.blogspot.com.br/2010/05/adoniran-se-sentia-um-palhaco-triste.html
*Adoniran e seu amado Peteleco - http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/845861-livro-ilumina-a-sao-paulo-de-adoniran-barbosa.shtml

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