'Hollywood Tropykal 65"

    Em novembro do ano passado, 2016, publiquei "Glauber, a solidez da rocha", sobre a estada do cineasta  Glauber Rocha em Manaus,AM em meados da década de 1960, quando filmou Amazonas, Amazonas. Nessa pesquisa, comentei que detinha de um artigo dele sob o título "Hollywood Tropykal 65". O qual poderia ser reproduzido por mim, por tratar-se de um delicioso relato sobre as bandas de cá dos trópicos amazônicos. Alguns amigos sempre perguntavam ou cobravam esse conteúdo. Eis aqui palavra por palavra do mestre do Cinema Novo, grafadas há 52 anos.

    "Itacoatiara, interior do Amazonas, vive em casarões do tempo da borracha. Barranco solitário, comerciantes árabes, ruas que dormem no berço maravilhoso da selva. Para quem conhece o Brasil português e negro, Itacoatiara é território estranho, sugestão de Amazônia espanhola. O casarão que projeta o porto é arquitetura francesa. Batido pelo calor e pela umidades, o amarelo antigo ganha verde pálido de febre a cara do caboclo ao balanço da rede. Jovem cemitério, Itacoatiara, em cuja noite se pode ouvir o lendáario gemer dos bichos, abriga um mestiço alto, chapéu de palha e calças Lee. A calça é de segunda, veio de São Paulo para a feira do Ceará, de lá foi comprada por um mascate e revendida no mercado de Manaus, dali entrou selva e foi parar, remendada nas pernas indolentes do caboclo. este homem não sabe ler. Trabalha no rio ou no porto, planta juta, mandioca ou pode ser seringueiro. Quantas vezes foi ao cinema? O Cinema de Itacoatiara é em 16 mm. Cópias velhas, reduzidas quase pela metade, são apresentadas a um preço mínimo que mesmo assim é alto para o caboclo. Uma vez por ano, se muito na vida, ele entre no cinema. Analfabeto, vê imagens que falam língua estranha. A legenda faz parte do mistério. Os homens são grandes, valentes, as mulheres belas, há beijos na boca. Na rua, assustado, se pergunta, ouve a resposta: Americano! povo maior, que viaja em cima da terra e abaixo do mar, certamente é mais feliz  que ele, povo menor, que atravessa o rio a remo e está aberto ao veneno das cobras. A calça Lee, comprada ou recebida de presente, lhe dá maior segurança. Resto de armadura de João Vaine, o caboclo é um artista sonolento. O boteco vende cerveja gelada ao alcance dos ricos. O viajante, derretido, procura onças e jacarés. Na praça, lua clara, as moças namoram os navios. O alto-falante toca um iê-iê-iê, versão nacional. A moça morena pensa que o repórter é um artista: cabelos grandes, camisa de cores e calça Lee nova. O aparato do fotõmetro e da câmara, o cinto largo, os óculos, objetos de uma mitologia que realiza o milagre de fazer o cinema saltar das telas para a vida. No bar, meio-dia, entram dois rapazes e olham os estranhos. Um se aproxima e pergunta:
    - Cinegrafista?
    - Sim.
    - De Herbert Richers?
    O jornal de atualidades de Herbert Richers chega a Itacoatiara com meses de atraso. Para as poucas pessoas que sabem ler, este jornal é o fenômeno da informação, e da, ao mesmo tempo,  a consciência de que, no distante Brasil do Sul, se faz a mesma coisa que os americanos. Prova de grandeza, de igualdade ao maior, pai dos homens estranhos que invadiram a cidadezinha com câmaras na mão. E se filma? Quando os rapazes descobrem o nome dos cinegrafistas o espanto fica maior. Não é Herbert Richers! É cinema novo? Sim, é cinema novo. O louro que tem 18 anos e vai estudar geologia em Belém, fala do Cinema Novo com grandes conhecimento de causa. e quando pergunto qual o filme preferido ele não sabe responder pois não viu nenhum filme, apenas leu o Cruzeiro ou na Cinelândia, Protesta porque ali só chegam filmes estrangeiros e, raramente, uma ou outra comédia de Herbert Richers, da Atlântida, de Massaini ou de Jarbas Barbosa.
     Esse rapaz nunca conversou com o caboclo da calça Lee que viu João Vaine matar dez índios. Ele é um rapaz, que vai estudar geologia porque assim terá uma profissão que interessa a "minha terra", tem uma rara e vaga noção de nacionalismo. O nacionalismo é um fenômeno estranho no Amazonas. O rio é a força do homem débil. O rio é  sua própria alienação  mas qualquer fonte de energia terá de ser descoberta as relações do homem com o rio e com a selva. O caboclo tem um rio e na selva  o ventre é o cemitério. Ele matará e morrerá para defender o rio e a selva se algum dia suspeitar de alguma ameaça. O rapaz que já terminou o ginásio no Colégio dos Padres Italianos, este rapaz lê jornais e revistas atrasadas sabe que o rio e a selva possuem riquezas entre as quais os minérios significam a razão  do futuro. Estudará geologia porque, assim, servirá sua terra. Este rapaz é um em cada duzentos, o caboclo é noventa em cada cem O rapaz não gosta do americano porque sente que o americano ameaça seu futuro, isto é, o minério. O caboclo respeita o americano porque  o americano é superior e não erra tiro. O índio índio não respeita ninguém. O índio se apaixona pelo revólver de cabo de madreperérola  do americano e o segue dias e dias pela floresta, enquanto o americano tira fotografias de árvores e paisagens. O índio conhece todos os movimentos do americano. De manhãzinha, o índio distende seu arco e flecha o americano no pescoço, No porto, desdentado, bêbado, o índio exibe um revólver enferrujado.
     O "Harbor" em Manaus ou Belém, "vira" "rabor" e "rarbor", "rarbo" é milagre, pois "rarbo" acolhe os navios. Os navios levam tudo: minério do Amapá que vem das minas de manganês por uma estrada de ferro construída pelos americanos e embarca num porto construído pelos ingleses. Nas ruas de Manaus, Inglaterra e França se encontram sob mosquitos. Nos dois hotéis de luxo se bebe uisque escocês a baixo preço, cigarro americano, e o dólar pode circular abertamente. Os meninos pobres repetem a imagem dos filmes: caçam o americano para engraxar sapatos e recebem gordas gorjetas.
    O americano como um tucunaré com arroz e sorri. Nos trópicos o americano sempre sorri. Uma lovely índia habita suas noites quentes. Hollywood  lhe meteu uma imagem paradisíaca na cabeça. Mas quem primeiro viu os trópicos? Gaughin ou Flaherty/Murnau? Tarzam nasceu da cabeça colonialista de Rice Burroughs mas antes Rudyard Kipling já tinha criado da Índia esmagada uma imagem romântica  e humanitária. Rousseau infritrou ideias e o índio de Voltaire ou os índios de Chateaubriand noticiavam à Europa a noção de um paraíso do outro lado. outro lado do paraíso, para os franceses o novo mundo era uma saída existencial, a custa do negro que temperou e transformou com sangue e esperma a agricultura. 
    Um romance de Carpentier contra como nobres franceses renasciam no sadomasoquismo entre negros, no massacre e no prazer sexual. Colonialismo de minérios e carne, um Marquês de Sade pragmático. Os nativos de Gaughin refletem exatamente este fascínio sadomasoquista que mais tarde veremos nos filmes africanos de Jean Rouch.
    Franz Post,. Debret, Gaughin forneceram os primeiros sistemas de modas aos produtores americanos. O americano mata nativos mas ama americanos. A terra é boa para dinheiro mas o racismo evita o sexo na medida do possível. O colonialismo, redenção, em última instância, dos europeus, arrebenta, inclusive, em gestos heróicos como os de Lorde Jim. Heroísmo por amor, heroísmo por sadomasoquismo como o de Sir Lawrence das Arábias.  
    O heroísmo americano é moralista e Tarzã  em via hollywoodiana, é um defensor  nas selvas do crime branco mas ao mesmo tempo protetor de cientistas e exploradores honestos. Como o fantasma e todos os subprodutos. Enquanto o colonizador europeu nos trópicos e se instala e morre e retorna a Londres e a Paris e não consegue esquecer, o colonizador americano sorri, mata, rouba, retorna e gasta o dinheiro em seu próprio país. As exceções valem para os dois casos, mas este botânico francês se interessa  pela raiz da árvore, pela estrutura biológica e por sua utilidade ao homem, enquanto este americano se interessa pelo resultado comercial desta árvore.
    Não que o colonizador europeu seja mais humano. Ele é mais sutil e sofisticado, traz uma carga cultural se integra em comportamento. O europeu medita diante da vida e da morte. O americano vive a vida e a morte com uma objetividade sem nuances. Por isto ri. O Levi Strauss nos tristes trópicos vê o paraíso, Roqueffeler vê fábrica. O produtor de Hollywood misturou habilmente o paraíso de Gaughin com o humanismo de Kipling e somou a poética  do esplendor servil à moral do cawboy. Este resultado de Lorde Jim e Búfalo Bill mergulha na selva para defendê-la dos concorrentes. O heroísmo americano defende uma moral e uma economia e nem sempre esta morte significa economia, daí o conflito. O drama americano se faz no território do capitalismo  e o rigor protestante do velho testamento impulsiona o colonizador com força que impulsionou Moisés. A Califórnia era a nova terra prometida. O trópico é a nova terra prometida. Como a lua e o universo. O colonizador tem uma moral a impor. No Viet-Nam o americano declara que  luta para salvar a democracia. Democracia se funde a capitalismo  moderno . Em nome de Deus se mata guerrilheiros como antes se matava índios. O delírio gerado pela fé como o delírio  gerado pela ideologia nazista. Os antigos colonizadores ibéricos traziam a bandeira da igreja ao lado da suprema vontade de dilatar o império. Camões fala em dilatação da Fé e do Império.
    Removendo-se toda poética, o colonialismo sempre foi e será a dilatação do Império e a Religião ou Ideologia nada mais são do que sustentáculos morais do Império.
    Boa consciência para o invasor, fatalismo e passividade do colonizado". 

    Meio século depois da publicação de Glauber, o processo de colonialismo por aqui tem a mesma receita - a exploração dos recursos regionais. Seja em Roraima, Par´a ou Amazonas. A avaliação sociológica do autor sobre os elementos indigna e europeu que por aqui se cruzaram, impressionam pela sua veracidade. Entre os dois surge o norte americano. 
     
        
     Referencia 
     1. Jornal do Commercio (suplemento JC), de 22 de dezembro de 1985.
     





    


   
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