O palco iluminado de Sílvio Caldas

    Sílvio Narciso de Figueiredo Caldas, cantor e compositor carioca, nascido no bairro de São Cristovão, a 23 de maio de 1908 e falecido a 03 de fevereiro de 1998, aos 89 anos, em Atibaia, SP. Seu pai, Antonio Narciso Caldas, era afinador de pianos. Também era conhecido pelos apelidos de Caboclinho ou Titio. Foi um dos artistas mais populares de sua época. Atuou em rádio, teatro, televisão e participou de vários filmes. Autor de dezenas de canções, mas Chão de Estrelas, em parceria com Orestes Barbosa, é um dos seus maiores sucessos.
    Desde criança tinha vocação para a música. Por isso estava sempre entre os adultos nas festas e serenatas que ocorriam no seu bairro. Aos 10 anos já trabalhava em oficina mecânica, onde ficava parte do tempo cantando e tocando violão. Ao seu modo, é claro. Pois tratava-se de uma criança.
    Em 1924, aos 16 anos de idade, foi morar na cidade de São Paulo, continuando a profissão de mecânico. Aos 19 anos, retorna ao Rio de Janeiro e logo consegue apresentar-se no rádio, por intermédio do cantor de tangos, "Milonguita". Mas, somente em 1929, efetivamente inicia sua carreira artística. No ano seguinte, grava seu primeiro disco, no qual está o samba Amoroso.
    Aos 23 anos, em 1931, passou a fazer parte do elenco da revista Brasil do Amor, de Ari Barroso e Marques Porto, no teatro Recreio, onde fez grande sucesso com Faceira, composta por Ari. Em 1934, juntou-se a Orestes Barbosa, vindo a lançar dezenas de composições da melhor qualidade. Chão de Estrelas é dessa época. Considerada uma das obras-primas do cancioneiro brasileiro.
    Em 1935, ingressou na Rádio Mairink Veiga, depois na Rádio Gazeta e mais tarde na TV Record. Produziu Show e trabalhou em várias boates, logrando grande fama.  Também participou dos filmes como Favelas dos Meus Amores; Carioca Maravilhosa e Luz de Meus Olhos.
    Gravou algumas dezenas de músicas, entre elas Arranha-Céu; As Pastorinhas; Meus 20 Anos; Modinha; Meu Limão, Meu Limoeiro; Até Quando; Da Cor do Pecado; Deusa da Minha Rua; Não Chores Assim; Suburbana, etc. Sílvio não limitou-se, apenas, ao gênero da marchinha e da valsa. Buscou outros ritmos. Seus principais parceiros são Zé Renato, Francisco Alves, Elizeth Cardoso, Orlando Silva e, principalmente, Orestes Barbosa.
    Em 1971, a gravadora Copacabana dois LPs (separados: volume 1 e volume 2): "Elizeth Cardoso e Sílvio Caldas." O volume 1, por exemplo, contém 8 músicas. Oito? Por que, se a média é 12? Explico: a faixa 1 é um Pot-pourri: Serenata, Apelo, Arrependimento, Canção de Amor, Quase Que Eu Disse, Nossos Momentos, Inquietação, Consolação e Meus Vinte Anos. As demais faixas são: Chão de Estrelas, Mente ao Meu Coração. Serra da Boa Esperança, Andorinha, O Amor É Assim, Tristeza Não Pagam Dívida e Modinha. 
    O disco traz um  comentário de Emílio Vitale, então diretor geral de produção daquela Gravadora, é óbvio, no qual justifica o porquê do lançamento do disco com dois grandes nomes da música brasileira. Desse comentário, extraí alguns tópicos diretos ou adaptados.

    O ano era 1958, numa reunião de diretoria, seu irmão Vicente Vitale, então diretor artístico, disse: "Desejo realizar um LP que será o Disco de Ouro da Copacabana - ELIZETH CARDOSO e SÍLVIO CALDAS, juntos! Todos o aplaudiram!". Porém, o projeto não foi concretizado. Anos depois, Emílio assume o cargo deixado pelo irmão e faz a proposta a Sílvio que disse logo: "Com Elizeth eu topo, porque ela é autêntica, como eu. Vivemos sempre com as mesmas ideias sobre arte musica e sobre a música brasileira pura".
    Vejam bem, a manifestação desse entusiasmo numa época em que imperavam - no Brasil e no mundo - a música jovem, guitarras elétricas, etc. Enquanto que "serestas, valsas, modinhas, o próprio samba, estavam, praticamente, ausentes das programações das Emissoras, Canais der TV, inclusive das gravadoras", observa Emílio.
    Quando, então, foi feito o contato com Elizeth, ela disse: "Isso, Emílio, seria formidável porque Sílvio tem permanecido no tempo como eu: um puro sangue; pura música nossa. Estou à sua disposição! O difícil é encontrar Sílvio para nos reunirmos e depois por o plano em execução. Mar terá que ser um disco bem cuidado". Sim. vocês terão "à disposição tudo o que for necessário, não poupando esforços para que o LP se constitua num lançamento histórico", completou o diretor.
    O tempo passava. Os dois excursionavam distintamente. Mas, a ideia do disco continuava. O sucesso desses artistas só aumentava os tornando cada vez mais populares. Isso era favorável para todos, inclusive a gravadora. O número de casas de shows que executava a musica eminentemente brasileira, era cada vez mais maior, tanto no Rio de Janeiro com em São Paulo.     
    "Assim, se um LP tivesse sido lançado alguns anos atrás, não teria sido tão oportuno nem tampouco expressivo como o é hoje (início dos anos 70) já que Silvio e Elizeth resistiram ao tempo, à transformação da música e aos ritmos mencionados (samba e sambões, valsa, serestas, modinhas, etc), permanecendo intangíveis a tudo, consagrando-se cada vez mais, definitivamente, no cenário artístico-musical popular".   
    Agora são 12 anos sem solução. "Falei com muita gente", desabafa Emílio. Até que o Silvio foi  fazer um show na Ilha dos Pescadores e a equipe da gravadora lá se instalou. Assim estava definitivamente selada a realização do disco.    
    "Coloquei à  disposição de Sílvio e de Elizeth todo o nosso setor artístico do Rio e de São Paulo. Foram convidados todos os maestros, regentes, músicos, técnicos, lay-autistas, enfim todos os elementos que ambos exigiram, a fim de que se realizasse a contento a tão esperada produção. E aí está ela. O entusiasmo foi tão grande que Elizeth e Sílvio foram gravando, gravando, e o resultado final final foi que pela grande número de gravações realizadas foi preciso lançar dois álbuns", ou seja, dois álbuns de ouro, para compensar o tempo de espera. 
    Antes de finalizar sua Nota, ou melhor, seu autêntico comentário, Emílio agradece a todos que se dedicaram para a realização do projeto. E ao dedicar os dois LPs aos fãs dos dois consagrados artistas, disse que os mesmos são tratados "como joias de inestimável valor".
    Quanto à gravadora, o diretor diz que a mesma quis "fazer desta produção uma obra viva, um repertório destinado a glorificar a nossa música e não apenas mais dois discos para ficarem simplesmente nas discotecas". Finalmente, agradece aos dois cantores dizendo que o sonho artísticos de todos, foi realizado.

    Passados 46 anos do lançamento desses dois álbuns, os considero discos raros. As gravações são realmente inestimáveis. O som, as vozes, sem comparação. São impecáveis. Recomendo aos colecionadores que possuem essa obra, que voltem a ouvi-los. Os que não os têm, mas que gostam desses artistas, que os adquiram.
    Meu deseje era ilustrar aqui cada composição dos discos, pela beleza das obras. Mas, como seria muito extenso e oneroso, escolhi ficar com Chão de Estrelas (Orestes Barbosa e Sílvio Caldas). Soa bem em qualquer que seja o intérprete, em qualquer arranjo. Seus versos são poderosos e impecavelmente belos.

                       CHÃO  DE  ESTRELAS 

Minha vida era um palco iluminado
Eu vivia vestido de doirado 
Palhaço das perdidas ilusões...
cheio dos guizos falsos da alegria
Andei cantando a minha fantasia,
Entre as palmas febris dos corações!
Meu barração do morro do Salgueiro,
Tinha o cantar alegre de um viveiro
Foste a solenidade que acabou...
E hoje, quando do sol, a claridade 
Forra meu barracão sinto saudade
Da mulher pomba-rola que voou...
            Nossas roupas comuns, dependuradas
            Na corda, qual badeiras agitadas
            Pareciam um estranho festival
            Festa dos nossos trapos coloridos 
            A mostrar que nos morros mal vestidos 
            É sempre feriado nacional! 
            A porta do barraco era sem trinco,
            Mas a lua furando o nosso zinco,
            Salpicava de estrelas o nosso chão...
            Tu pisavas nos astros, distraída, 
            Sem saber que a ventura desta vida,
            É a cabrocha, o luar, o violão...

    É isso aí, amigo leitor. É o seresteiro cantando o que cada um de nós deveria cantar (e repetir). Que a nossa vida seja "um palco iluminado". Que o nosso chão seja "doirado"pelas estrelas. Que os raios do sol da vida façam brilhar o zinco do nosso coração.

    EM TEMPO - Na semana passada comentei sobre as suspeitas, as acusações, o julgamento, a condenação e morte - por envenenamento - do filósofo Sócrates. Propositalmente deixei de fazer a conclusão, a espera de que alguém a fizesse. Então veio, de forma categórica, o senhor leitor Francisco Soares, e a fez, dizendo que provado está que "a história não muda". E não muda mesmo. Parabéns! Amigo leitor. As injustiças seguem varando o tempo e o espaço da humanidade.
    A História, repete, isso sim, seus erros, sempre! De Sócrates para cá, já se foram 2400 anos. E depois da maior injustiça de todos os tempos que ceifou sua vida, chegamos ao século XXI achando que tudo é moderno, tudo é justo, que tudo mudo. 
    Quantos milhões de Sócrates - por não serem compreendidos - já perderam a vida? Quem ainda lembra de Graciliano Ramos, de Nelson Mandela, de Olga Benário, e tantos mais, que foram injustiçados por exteriorizarem suas ideias?
    Injustiça e justiça são irmãs?
    Quem se sobrepõe a quem?
    Diria Brecht: "São tantas perguntas...?"


    Referências
    1. LP "Elizeth Cardoso e Sílvio Caldas", vol. 1, com Nota de Emílio Vitale, Copacabana, 1971. 
     2. DBU-Dic. Biográfico Universal Três.-SP: Três Livros e Fascículos, vol. 2.,1984, pp.273, 274   
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