Xantipa, a viúva

    Sócrates  (469-399) a. C.) era ateniense. Seu pai, Sefrònio, era escultor. Sua mãe, Fenareta, era parteira. "Na juventude, foi discípulo do filósofo Arquelau e, a partir daí, passou a praticar a filosofia sem jamais ter feito qualquer registro de suas ideias. Nada cobrava pelas aulas, e assim vivia na pobreza, não se importara  com bens materiais. Andava com a mesma roupa (uma túnica velha), sempre sujo e maltrapilho".  
    Quando faleceu (e até hoje as circunstâncias de sua morte são contestadas por aqueles que defendem os princípios da Justiça), aos 70 anos, era casado e pai de três  filhos. A esposa, Xantipa, era conhecida pelo seu temperamento rabugento. Ele ficava parte do seu tempo nos lugares públicos conversando com amigos, os quais apreciavam sua sabedoria e senso de humor.
     No entanto, poucos admiravam sua figura. De baixa estatura, barbudo e careca, como um sátiro ou um grotesco. E para piorar, seu andar era desengonçado, daí, a semelhança de um caranguejo. Nariz achatado, lábios grossos e um par de sobrancelhas desgrenhadas encimava os olhos esbugalhados. Mas, na cabeça, um cérebro de capacidade filosófica magistral.  
     "Mas a característica mais curiosa de Sócrates era seu hábito de abordar atenienses de todas as classes, idades e ocupações  e pedir-lhes, sem qualquer rodeio ou sem se preocupar se o julgariam excêntrico ou impertinente, que explicassem em detalhes precisos o porquê de adotarem determinadas crenças do senso comum e indagar-lhes sobre o significado da existência".     
     A cidade de Atenas tinha tudo de bom, tanto o clima mediterrâneo quanto o planejamento urbanístico possibilitavam conversas informais ao ar livre ao cair da tarde e, os ensaios à noite. O convívio social dos atenienses era agradabilíssimo. Sua população, cerca de 240 mil habitantes. Em apenas uma hora era possível percorrer o trajeto que ligava um extremo da cidade ao outro.    
     O filósofo, sempre descalço, levantava várias questões para determinar se o que era popular fazia ou não sentido. Para muitos, essas indagações  eram exasperantes. Alguns o ridicularizaram. Alguns ainda, nutriam por ele um ódio mortal. Tudo, porque ele "se recusava a aceitar o senso comum sem antes investigar sua lógica a um grau insolente".  Estava sempre em volta a pensamentos táo importantes que não tinha tempo de se preocupar com o asseio corporal ou executar qualquer tarefa doméstica.    
    Refletia sobre questões existenciais de maior relevância, ao contrário daqueles que nunca se aventuraram a analisar os fatos de uma maneira sistemática. Isso incomodava, e muito. Daí,  começaram a surgir acusações contra o pensador.
     Porém, Sócrates não se abate. E, ainda, nos encoraja a não deixarmos abater pelo ar confiante das pessoas. Ele nos ajuda a compreender que os outros podem estar errados como também nos oferece um método simples por meio do qual podemos, por nós mesmos, determinar o que é certo.
     "O método socrático de raciocínio nos prometia uma maneira de desenvolver opiniões nas quais poderíamos, mesmo diante diante de uma tempestade, sentir uma confiança legitima". Por exemplo, "E possível ter dinheiro e ser vigarista. E possível ser pobre e virtuoso".
    Aos 70 anos, Sócrates viu-se em meio a um furação. Três atenienses - o poeta Melito, o político Anito e o orador Lincon - concluíram que o pensador era um homem estranho e pernicioso. "Afirmaram que não adora os deuses, havia corrompido a estrutura social de Atenas e instigado a juventude a se rebelar contra seus pais. Na opinião dos acusadores, a atitude correta seria silenciá-lo e até matá-lo."          
    Sócrates tentou rebater as acusações e jamais sustentara qualquer teoria sobre as divindades; não era herege; não corrompera a juventude de Atenas. Tudo em vão. Contra si já estava sendo preparado seu julgamento no Tribunal de Helieia. 
    tudo começaria com um discurso de acusação, seguido de outro, proferido pela defesa. Em seguida, o júri, composto por um número de 200 a 2.500 pessoas, que deveria indicar onde estava a verdade, marcando o veredicto em cédula ou votando com as mãos. Para a cidade, a opinião da maioria equiparava-se à verdade.
    No dia do julgamento do filósofo havia 500 cidadãos no júri, todos do sexo masculino. A acusação pediu-lhes que considerassem Sócrates, ali presente, um homem desonesto, por causa das suas investigações relativas às entranhas da Terra e assuntos celestiais. Além de herege e pernicioso, sua retórica continha recursos evasivos. 
    O acusado negou tudo. Explicou cada ponto da sua discordância. Ele admitiu, porém, ter levado uma vida que poderia perecer excêntrico:
     "Negligenciei assuntos que interessam à maioria das pessoas - ganhar dinheiro, gerenciar propriedades, receber honrarias civis e militares, exercer cargos influentes ao tomar parte em associações e partidos políticos que se formaram em nossa cidade".
    No entanto, afirmou que "seu compromisso com a filosofia era tal, que o tornava incapaz de abrir mão de seu ofício, mesmo se o júri considerasse ser essa s condição essencial de sua absolvição". Sem perder o tom de voz humilde, completou: "Agirei assim com todos que encontrar, velho ou moço, forasteiro ou concidadão." Era tarde demais. 
    "Era chegada a hora de o júri dos Quinhentos tomar uma decisão. Depois de uma breve deliberação, 220 jurados decidiram que Sócrates não era culpado; 280 optaram em votar o contrário. Um tanto surpreso, o filósofo retrucou: "Não imaginava que a margem seria tão estreita". Sem hesitação ou alarme,  estava confiante na sua absolvição. Acreditava no seu projeto filosófico, apesar de 56% dos seus ouvintes, rejeitarem as suas ideias. 
     Acontece que os jurados que ocupavam os bancos do Tribunal que julgou e condenou Sócrates não eram especialistas. Entre eles, muitos eram velhos e aleijados de guerra, os quais queriam trabalhar para conseguir uma renda extra,  principalmente para aqueles com 63 anos de idade ou mais. Os requisitos - para ser jurado - eram: cidadania, sanidade mental e ausência de dívida. Quanto a eficácia deles para a função, sabe-se: membros sonolentos, inexperientes, desorientados e sem saber "com o chegar a um veredicto".
    Por exemplo, o júri encarregado de julgar Sócrates era movido por violentos preconceitos. Todos achavam que as ideias dele eram desastrosas para os atenienses. O homem da túnica suja que vagava pelas ruas inquirindo pessoas sobre o óbvio parecia ser uma explicação plausível  para o que ocorria negativamente na cidade. Era ele uma espécie de influência do mal.  

    "Sócrates percebeu que não tinha nenhuma chance", e disse: "Estou convencido de que nunca ofendi ninguém intencionalmente, mas não posso convencê-los disso, porque temos tão pouco tempo para discutir o assunto. Se, como acontece em outras nações, fosse adotada aqui a prática de se dedicar não apenas um dia mais vários aos interrogatórios necessários a um processo de importância capital, acredito que os senhores pudessem ser persuadidos da minha inocência".

    Apesar da autoconfiança de um homem racional, Sócrates percebe que seus inimigos não estavam interessados em refletir de maneira adequada, verdadeira, sobre ele. A desaprovação das suas ideias poderia levá-lo à  morte, mas não necessariamente provava sua culpa. E, se tivesse renunciado à sua filosofia, teria salvado a própria vida da pena de morte?  Sim. Mas não buscou esse recurso. Fez um discurso, cujo final é emocionante. Assim:

    "Se os jurados me condenarem à morte, não encontrarão com facilidade alguém capaz de me substituir. O fato é que, se é que posso me expressar de uma maneira um tanto cômica, fui literalmente ligado por Deus à nossa cidade, como se ela fosse uma enorme égua puro-sangue que, devido ao seu tamanho, apresentasse uma propensão à preguiça e precisasse do estímulo de um mosquito (...). Se os senhores seguirem meu conselho, poupar-me-ão a vida. No entanto, suspeito de que dentro em breve irão despertar do torpor em que se encontram e, aborrecidos, seguirão o conselho de Ânito e desfecharão sobre mim o golpe final; em seguida, voltarão a dormir".

    Ele não estava enganado. Quando o juiz convocou uma segunda votação para o veredicto final, 360 membros do júri votaram a favor da pena de morte. Os jurados foram para suas casas; o condenado foi escoltado à prisão. Porém, só não foi morto imediatamente porque a sentença saiu no dia dos festejos de uma solenidade anual em Delos. E pela tradição, ninguém podia ser executada nesse período. A boa índole do preso atraiu a simpatia do carcereiro, o qual permitiu-lhe a visita de amigos. Entre eles Fédon, Críton, Apolodoro, Euclides, Terpsion. Todos estavam incrédulos ao ver Sócrates como um criminoso, só por ter manifestado seu pensamento filosófico.
    "Quando o dia marcado chegou, Sócrates era o único a manter a calma. Sua mulher e os três filhos foram levados à sua presença, mas o pranto de Xantipa era tão histérico que o marido pediu que ela fosse afastada. Os amigos estavam mais tranquilos, embora não menos chorosos". O carcereiro, também. 
    Em seguida, chegou o carrasco, trazendo uma taça de cicuta.  Ao vê-lo, o sentenciado disse: "Tu, meu amigo, diga-me como proceder?"
    - Basta beber e caminhar de um lado para outro até sentir um peso nas pernas. Deite-se, então, e o veneno agirá.
     " Ele bebeu tudo na mais perfeita calma. Até aquele momento muitos de nós haviam conseguido conter as lágrimas. A partir desse instante, descontrolamo-nos completamente (narração de Fédon)". Contudo, Sócrates os zombou dizendo: "Que comportamento mais estranho, meus amigos!"
    Em seguida levantou-se e começou a caminhar pela cela, aguardando a ação do líquido mortal. Depois de instantes, deitou-se de costas. Quando a cicuta atingiu seu coração, ele perdeu gradualmente a consciência. A respiração ficou lenta. Sua vida chegara ao fim. Quando viu os olhos de seu melhor amigo vidrarem-se, Críton aproximou-se daquele corpo inerte e os cerrou.

    "E foi assim (...) o fim do nosso companheiro, a quem posso chamar, sem medo de errar, de o mais corajoso, o mais sábio e o mais íntegro de todos que conheci (palavras de Fédon)".


    Referência
    1. De Botton, Alain. As consolações da filosofia, tradução de Eneida Santos. - Porto Alegre, RS: L&PM, Rio de Janeiro: Rocco, 2016, pp. 9 a 52.



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