Martinho da Vila: nem todo crioulo é doido

    Eu tinha um professor universitário, da área  da Sociologia - excelente profissional e continua na UFAM, prefiro não citar o seu seu nome, apesar de não ser crítica alguma - quando ministrava a Disciplina CULTURA BRASILEIRA, ao fazer referências à política, à economia e outros temas brasileiros, costuma dizer: isso ou aquilo parecem "samba do crioulo doido!"
    Confesso que ficava encabulado com aquela expressão. Nosso grupo (mais dois ou três colegas) gostava muito de pesquisas e, entendíamos a mensagem do mestre. Só não aceitávamos aquela coisa do "crioulo doido". Estávamos em meados de 1980. Se fosse hoje, é possível que tudo poderia ficar muito complicado. O Brasil tenta esconder o seu lado racista e preconceituoso editando leis "rigorosas", para punir o agente da discriminação racial, mesmo que seja uma "brincadeira" aparentemente inofensiva. Como fazia aquele sociólogo.
    No entanto, eu não sabia que alguns anos antes dessa constatação em sala de aula, em 1978, o cantor Martinho da Vila havia lançado um disco (LP) chamado: "Nem todo crioulo é doido".
    Recentemente adquiri essa obra num sebo e nem preciso dizer aos seguidores do Facetas, o quanto fiquei fascinado. "Martinho da Vila e seus convidados", é, sem dúvida, um dos trabalhos mais originais trabalho desse artista em seis décadas de carreira. Seus "convidados" são Darcy da Mangueira, Zuzuca, Antonio Grande, Amália, etc. 
    Na contracapa, o próprio autor escreveu estes memoráveis parágrafos. Falo assim em nome daqueles que são apaixonados por este gênero da música brasileira.

    "Papo firme:
      Com SAMBA DE CRIOULO o morro desce colorido todo ano e vai pra Cidade alegrar o povo. Digo alegrar o povo, porque o ritmo contagiante do samba toma o lugar das tristezas da população  no período de momo, e, pra sambista verdadeiro, desfile oficial é compromisso sério. Ele desce o morro em fevereiro como se fosse para uma guerra, soo que a sua luta é de cores, de beleza, de arte e de cultura, pois - O sambista é um soldado/Que defende as suas cores/Como amor no coração/Cada ala é uma tropa/Bateria é a banda/e a Escola é um batalhão/Sua farda é a fantasia/A Avenida é o campo de batalha/Seus tanques são as alegorias/E o samba é a sua metralha/É uma guerra de beleza/Da qual se participa com satisfação/Quem perde fica com muita tristeza/Mas quem ganha também chora de emoção. 
    Luto pelo samba desde menino. Vi nascer os Aprendizes da Boca do Mato, Que é a melhor Escola de Samba do mundo, apesar de atualmente estar desfilando na Praça Onze. Na Boca eu fui ritmista, passista e diretor de harmonia; lá eu aprendi a ser partideiro  e foi lá que eu fiz os meus melhores Sambas de Terreiro e quase montei uma História do Brasil, particular, soo na base do Samba-enredo: "CARLOS GOMES - TAMANDARÉ - MACHADO DE ASSIS - RUI BARBOSA - VULTOS DA INDEPENDÊNCIA. - FONTES DE RIQUEZA E CONSTRUTORES DO PROGRESSO".
    Vila Isabel, que agora é a minha Escola de coração, também desceu colorida com a minha música nos dois últimos anos: "CARNAVAL de ILUSÕES' (de parceria com o Gemeu) e  QUATRO SÉCULOS DE MODAS E COSTUMES".
    Ouvir o meu sambam catado na Avenida, no domingo de carnaval, me dá uma emoção tão grande que eu fico "desligado", "rindo à toa", mas não dá pra ser chamado de "crioulo doido", pois a higiene mental é feita nos terreiros de ensaios, onde se ouve samba puro, independente dos esquemas dos enredos, como os incluídos neste LP que soo tem SAMBA DE CRIOULO, gravado na base da viola (Darcy da Mangueira), cavaquinho (J. Araújo) e ritmo (Conjunto Brasil Ritmo 67, com Beterlau no agogô, Nenen na cuíca, Pelado no pandeiro, Orvalho no tamborim, Baldo no surdo e Arthur na tambora), além do meu amigo José Garcia que deu uma força no tamborim e no pandeiro.
    A minha mana está sendo lançada aqui com sua voz diferente (ainda vai ser a maior cantora do Brasil) e o coro foi improvisado pelos próprios compositores, reforçado pelas vozes das minhas meninas (Nélia e Erenice). 
    O único defeito deste disco é soo ter 12 faixas, pois por falta de espaço, grandes cobras do sambão ficaram de fora: Mano Décio, Anescarzinho, Bidi, Joao Laurindo, Pelado, Osório, Leléo, Paulo Brazão  e muitos outros.
    É um disco feito pra sambista, pra quem frequenta os terreiros das Escolas e pra quem gosta de SAMBA DE CRIOULO. Martinho da vila."
    Algumas das músicas do disco são Deixa Serenar (Sidney da Conceição/Castelo), Se Eu Errei (Tolito), Só Deus (Walter Rosa/Jorginho), Nem Todo Crioulo ene Doido é(Cabana), Sou de Opinião (Darcy da Mangueira), Quem Lhe Disse (Antonio Grande), Berço do Samba (Silas de Oliveira/Edgard Cardoso), entre outras. 
    Se em pleno anos 70, Martinho já era um artista tão original, hoje, então, meio século depois daquele (e outros) discos, ele "é o resultado de um modo de vida brasileiro. Seu talento o elevou a condição de porta-voz de uma raça, criador de uma poesia que ginga".
    A vitalidade artística e física (chegado aos 80 anos de vida) desse bamba, nos enchem de alegria, de contentamento. Falo por mim e por milhões de brasileiros ou que somos seus admiradores. Tenho colegas como Antonio Carlos Lacerda, Fernando Santana, Helilton Melo, entre tantos outros, que nem precisam de subterfúgios para ouvirem as canções de Martinho (independente de quem seja o intérprete), verem seus shows ou assistirem as suas entrevistas.  Tudo é gratificante!
    Tenho um trabalho quase pronto sobre a biografia de Martinho da Vila, oportunamente ser publicada aqui no Facetas.
    Na última página do aderno Coleção MPB Compositores, volume 9, estão estas palavras:

    "Martinho da Vila é símbolo de uma reunião. Mas sua música não fez concessões. Ao contrario, ela desceu do morro e ganhou espaço no asfalto. Martinho promoveu uma integração pela sedução. Sua ginga, sua gíria e seus olhos abriram caminho no meio da mídia e dos meios de comunicação e estão aí, nos lembrando de sonhos comuns e nos trazendo a certeza de que a cultura brasileira é mesmo multicor".
    E, seguindo este mesmo raciocínio do editor, o sambista Zeca Pagodinho, finaliza:

                                                      "MARTINHO É DA VILA,
                                                        DO RIO,
                                                        DO BRASIL
                                                        E DA COMISSÃO DE FRENTE DO SAMBA".

    Em Tempo: Por problemas  técnicos, deixo de apresenta a resolução dos cálculos de Malba Tahan, da semana passada como fora prometido. Possivelmente na próxima semana.

    Referências
    1. LP "Nem todo crioulo é doido", de Martinho da Vila e seus convidados, gravadora ÔBA/Cid, Rio de Janeiro, 1978.
     2. Caderno da Coleção MPB Compositores, vol. 9, Martinho da Vila, Editora Globo, 1984, pp. 01, 02 e 22.
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