Malba Tahan e a ciência das grandezas

    Você sabe quem foi Júlio César de Mello e Sousa? Foi o escritor carioca que adotou o pseudônimo de Malba Tahan. Nasceu no dia 6 de maio de 1895. Sua família era humilde e numerosa. Por sinal, a humildade foi uma constante na vida desse homem que escreveu tanto sobre os árabes e nunca foi ao Oriente Médio.
    Ainda criança, Júlio já vendia composições prontas, de sua autoria, a colegas preguiçosos, no Colégio Pedro II. "Escrever, desde então, sempre foi sua especialidade: são, ao todo, 115 obras, entre livros de Matemática e de contos juvenis - O Homem que Calculava, História sem Fim, Céu de Alá, Mártires da Armênia -, que fascinaram pelo menos três gerações de adolescentes".
    Ao adotar esse pseudônimo, criou uma biografia para o "famoso escritor árabe", nascido na aldeia de Mazalit, nas proximidades da antiga cidade de Meca, e cujo nome completo era Ali Iezid Izz-Edim ibn Salim Hank Malba Tahan. Apesar de ser engenheiro civil, sempre preferiu dedicar-se ao magistério  e a literatura. Foi professor no IERJ, Instituto de Educação do Rio de Janeiro, onde criou uma nova disciplina, A ARTE DE CONTAR HISTÓRIAS, para o aperfeiçoamento dos professores, os quais repassariam para os alunos e assim sucessivamente.     
    Melo e Sousa, não foi somente escritor de livros de Matemática, mas, acima de tudo, catedrático dessa ciência do Colégio Pedro II, da Escola Nacional de Belas-Artes e da Faculdade Nacional de Arquitetura. Foi, ainda, educador no Serviço Nacional de Assistência aos Menores.
    Segundo o professor Lauro de Oliveira Lima, Malba "era o showman da pedagogia. Popularizou a Matemática em livros deliciosos, usados até hoje. Suas aulas de didáticas eram um verdadeiro espetáculo. Creio que ficará pouco de sua didática, pois sua didática era ele próprio. Acho que seu nome ficará como o contador de lindas histórias e como lembrança de um homem cheio de generosidade".    
    Depois de muitos anos esquecidos, seus livros voltaram a circular a partir de meados da década de 1980, e certamente estão encantando novos leitores, inclusive a mim, que ficava a procurar seus livros nas Bibliotecas do Estado, de Letras e de Direito da Universidade Federal do Amazonas, aqui em Manaus, entre 1987 a 1992. Por exemplo, outro mestre da nossa literatura infantojuvenil, Monteiro Lobato, era admirador incondicional de Malba.  
    O Homem que Calculava, foi traduzido para vários países de idiomas espanhol e inglês. Por sinal, essa obra foi premiada pela Academia Brasileira de Letras. "Trata-se de um livro muito original, que revela o profundo conhecedor da cultura do Islã e da ciência Matemática. Em seus livros, triunfa uma visão que faz da ciência uma aventura tão maravilhosa quanto a mais imaginosa obra de ficção".
    Apesar da obra em análise ser considerada pelo próprio autor de "lenda e fantasia", a mesma é dedicada "à memória dos sete grandes geómetras cristãos ou agnósticos: Descartes, Pascal, Newton, Leibnitz, Euler, Largrange, Comte e à memória do inesquecível matemático, astrônomo e filósofo muçulmano Buchafar Mohamed Abenmusa Al Kharismi, e também a todos que estudam, ensinam ou admiram a prodigiosa ciência das grandezas, das formas, dos números, das medidas, das funções, dos movimentos e das forças. De Bagdá, 19 da Lua de Ramadã de 1321, eu Malba Tahan". 
    No dia 18 de junho de 1974, morreu em Recife (PE), de infarte, Malba Tahan, ou melhor, Júlio César de Melo e Sousa, aos 79 anos. Sempre contido na sua humildade, certo dia, lúcido e saudável, "pediu que seu enterro fosse feito num caixão de terceira classe, sem homenagens, flores ou coroas". 
    A edição de O Homem que Calculava, por mim lida há 30 anos, agora volto a examiná-la. O livro parece ser mais fascinante que antes. As ilustrações de Sílvio Vitorino, falam per si. A obra contém 33 capítulos, ou seja, 33 histórias. Cada uma mais bela que a outra. Por isso, não foi fácil escolher uma para completar este comentário. 

    A seguir é narrada a singular aventura dos 35 camelos que deviam ser repartidos por três árabes. Beremiz Samir, o Homem que Calculava, efetua uma divisão que parecia impossível, contentando plenamente os três querelantes. O lucro inesperado que foi obtido com a transação será apresentado após os principais tópicos da narrativa, por mim extraídos. 

    Após algumas horas de viagem, perto de um caravançará (espécie de rancho onde são acolhidas as caravanas), três homens estavam furiosos:
    - Não pode ser!
    - Isto é um roubo!
    - Não aceito! 
    Beremiz procurou informar-se do que se tratava.
    - Somos irmãos, disse o mais velho, e recebemos esses 35 camelos como herança do nosso pai. Devo receber a metade, o meu irmão do meio um terço e o mais moço, a nona parte. O problema é que não sabemos fazer a partilha de forma justa, haja vista que metade de 35 é 17 e meio e a terça parte e a nona parte também não são exatas. 
    - É muito simples - disse o Homem que Calculava. Farei com justiça essa divisão, desde que eu junte aos 35 camelos o animal no qual eu e meu amigo bagdali estávamos viajando. 
    Mas que loucura! Como seguir viagem sem o nosso camelo? Questionou bagdali. 
    Beremiz, com muita propriedade demonstrava saber a que conclusão queria chegar, e junto seus animal aos demais, para serem repartidos pelos 3 homens. 
    - Vou, meus amigos, fazer a divisão justa e exata dos camelos, como veem, em número de 36. E, dirigindo-se ao mais velho, acrescentou:
    - Deverias receber a metade de 35, agora receberás a metade de 36 e, portanto, 18. Nada tens a reclamar, pois é claro que saíste lucrando com esta divisão!
     E, dirigindo-se ao segundo herdeiro, continuou:
    - E tu, deverias receber um terço de 35, isto é, 11 e pouco, vais receber 12. Também saíste com visível lucro na transação!.
    E disse, por fim, ao mais moço:
    - Você, segundo a vontade de teu pai, deverias receber 3 e tanto animais, vais receber 4. O teu lucro foi igualmente notável! 
    E concluiu com a maior segurança e serenidade:
    - Pela vantajosa divisão feita entre os irmãos Namir - partilha em que todos os 3 saíram lucrando -, couberam 18 camelos ao primeiro, 12 ao segundo e 4 ao terceiro, o que dá um dá um resultado (18+12+4) de 34 camelos. Dos 36, sobraram, portanto, 2. Um pertence, como se sabe, ao bagdali e companheiro de viagem de Beremiz, outro toca por direito ao inteligente Homem que Calculava, por ter resolvido, a contento de todos, o complicado caso da herança!
    "- Sois inteligentes, ó Estrangeiro! - Exclamou o mais velho dos 3 irmãos. - Aceitamos a vossa partilha na certeza de que foi feita com justiça e equidade!"
    E o astucioso Beremiz - o Homem que Calculava - tomou logo posse de um dos mais belos jamales (uma das denominações que os árabes dão ao camelo) do grupo e disse ao amigo bagdali: siga no teu animal, que agora, tenho um especialmente só para mim! Assim, seguiram jornada para Bagdá.
    A análise desse curioso problema os leitores do Facetas encontrarão no apêndice do artigo do próximo sábado.   

    Só para ilustrar um outro exemplo, na história "O epitáfio de Diofante", tem uma conclusão fascinante. Nela, bagdali quer saber por que Beremiz está triste.: "Sente saudades de sua terra ou está planejando novos calculo?  
    "- Cálculos ou saudade?"
    "- A saudade  e o cálculo andam sempre entrelaçados", responde Beremiz. E continua: "Já disse um dos nossos mais inspirados poetas (Manuel Bastos Tigre, poeta pernambucano de alta inspiração):

                                    A saudade é calculada
                                    Por algarismos, também:
                                    Distância multiplicada
                                    Pelo fator querer-bem.

    "Não acredito, continua ele, porém, que a saudade, depois de reduzida a uma fórmula, seja calculável como algarismos. Quanto eu era menino ouvi, muitas vezes, minha mãe, encerrada no harém da nossa casa, cantarolar (trova de Fernandes Soares, poeta paulista uma das figuras de maior destaque na poesia moderna do Brasil):
   
                                   Saudade, velha canção
                                   Saudade, sombra de alguém
                                   Que os tempos só levarão
                                   Se me levarem também".

    Assim, o Homem que Calculava, vai fazer as devidas equações matemáticas até encontrar um resultado condizendo com os números levantados. É fantástico!. 
     Li, há alguns anos, não sei se na revista Ciência Hoje, que Malba Tahan "brincava" com os números. Fazendo com que a Matemática deixasse de ser uma ciência tenebrosa pelos educandos.  O Homem que Calculava, prova isso com muita beleza. Recomendo a leitura dessa obra para todos, em todas as idades. É apaixonante!
     Ao longo de muitos anos, como estudante, observador dos professores. A gente aprende, a reconhecer e admirar os mestres, para sempre. Tive um professor de Física e Matemática, o irmão marista Pedro Resk, que era genial. Porém, ele era  somente focado nas ciências exatas. No entanto, conheci, nos últimos anos, o professor de Matemática Francisco Edilson Soares Gonçalves, que é simplesmente magnífico. Pois, além da ciência a que se propõe a lecionar, está sempre antenado a outras ciências como a História, a Sociologia, a Filosofia, etc. A esse mestre, dedico este humilde comentário.


    Referência
    1. Tahan, Malba. O homem que Calculava. - São Paulo: Círculo do Livro, 1983.
          
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