O rastro da emoção de Gonzaguinha

    Você sabe quem foi Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior? Foi ele mesmo, o Gonzaguinha. Cantor e compositor carioca. Nascido em 22 de setembro de 1945, no bairro de São Carlos, no Estácio, onde morava com os pais de criação, Henrique Xavier (mais conhecido por Baiano do Violão) e Dina.
    Quando moleque, Luizinho, seu apelido, aprontava muito. Por exemplo, por três vezes furou o olho esquerdo. Por conta disso, perdeu 80% da visão desse olho, o que o obrigava a olhar as pessoas meio de lado. Um olhar duro, que paralisava, incomodava.
     À medida que crescia, se amargurava com os fatos da infância sofrida que passou. Tornava-se seco. Pirracento. "Mas, também, atencioso, detalhista, veemente, firme, ético e, principalmente, solidário. Solidário com os sofrimentos e com os problemas das parcelas mais pobres da população."
    Do pai, Luiz Gonzaga, de quem herdou o nome na certidão de nascimento, recebei algum dinheiro para pagar os estudos e algumas raras visitas. Aos 16 anos, com os estudos até então, completos, deixa o morro e vai morar com o pai biológico. Não dei certo. Helena, a madrasta, era uma pernambucana mandona, e o garoto não aceitava essa dominadora da vida familiar. Sem muita opção, ele resolveu completar os estudos como interno em um colégio.
    Em 1967, aos 22 anos, ingressou na Faculdade de Ciências Econômicas Cândido Mendes, no Rio de Janeiro. Nessa época passou a frequentar as rodas de violão na casa do psiquiatra Aluísio Porto Carreiro, pai de Ângela, sua primeira esposa. Nesse meio, ficou amigo de Ivan Lins, César Costa Filho, Aldir Blanc e Dominguinhos.  
    Logo começaria a participar dos Festivais Universitários de Música e, já em 1968, seria um dos finalistas, com Pobreza por Pobreza. Com letras herméticas, de conteúdo extremamente político (á época, conhecida como "música de protesto") e nem sempre de fácil, entendimento, o compositor começava a aparecer no cenário da MPB. Mas, para quem espera sê-lo um seguidor  do Rei do Baião, a decepção foi grande. O jovem mostrou-se um letrista muito urbano, com temas que retratavam  os problemas sociais das grandes cidades, e de ritmos variados, que iam do samba de breque ao bolero.

    "A obra de Gonzaguinha é ao mesmo tempo, seu ato de fé, sua sublimação e sua expiação. Para ele, tudo virava música. Era um compositor que andava pelas ruas, via pelo que as pessoas passavam, se revoltava, queria gritar. Mas também era o artista que vagava pelo mais íntimo de seu próprio ser, desvendando os becos escuros que outros prefeririam ignorar. Quando compunha, traduzia no papel sentimentos que muitas vezes estavam fora de sua compreensão. Suas canções clamavam, riam, choravam, sangravam. Mergulhavam fundo nas sensações. Queria compreender o sentido da vida. Era coletivo e ao mesmo tempo individual". 

    O  apresentador de televisão e produtor cultural, Serginho Groisman, cuja ligação profissional com 
Gonzaga Jr. data da década de 1970, sentenciou com muita propriedade, estas palavras:

    "GONZAGUINHA AMAVA A VIDA.
      CANTOU POLITICAMENTE
      E AMOU UNIVERSALMENTE".

    Dentro da obra desse artista, Serginho destaca a sua canção preferida: SANGRANDO
    Quando eu soltar a minha voz, por favor entenda
    que, palavra por palavra, eis aqui uma pessoa se entregando.
    Coração na boca, peito aberto, vou sangrando,
    são as lutas dessa nossa vida que eu estou cantando.
    Quando eu abrir minha garganta, essa força tanta, 
    tudo que você ouvir, esteja certa, que estarei vivendo
    veja o brilho dos meus olhos e o tremor nas minhas mãos
    e o meu corpo tão suado, transbordando  toda raça e emoção.
    E se eu chorar e o sal molhar o meu sorriso, 
    não se espante, cante, que o teu canto é minha força pra cantar. 
    quando eu soltar a minha voz, por favor entenda,
    é apenas o meu jeito de viver o que é o amor. 

    O apresentador realmente tem bom gosto. O poema acima é indiscutivelmente belo, forte. Eu também tenho os meus versos preferidos, tais como: "Veja bem/É o amor agitando meu coração/Há um lado carente dizendo que sim/E essa vida da gente gritando que não (Grito de Alerta)". Ou então,
"Eu fico com a pureza/da resposta das crianças/É a vida, é bonita e é bonita (O Que é o Que é)", ou ainda, Feliz, com a cantora Leila Pinheiro, é de arrepiar, com estes versos: "Que foi, foi, foi/Foi bom e pra sempre será/Mais, mais, mais/Maravilhosamente amar".
    Seus intérpretes são tantos (e tão bons) a perder de vista. Cito apenas alguns como Agnaldo Timóteo, Vanderléia, Simone, Fagner, Joanna, Martinha, MPB-4, Nana Caymmi, Elis, etc. Porém, a intérprete que estará para sempre ligada à sua obra é Maria Bethânia. Foi a partir dela que o compositor finalmente conheceu o sucesso. Com Não Dá mais pra Segurar (Explode Coração), executada em todas as rádios do país, e a venda estrondosa de um milhão de discos, ele passou a compor mais. "Gonzaguinha foi considerado muitas vezes como o compositor que, ao lado de Chico Buarque, melhor retratou o universo feminino na canção".
    "Sob todos os aspectos, Maria Bethânia foi muito mais que uma grande intérprete da obra de Gonzaguinha. Ela significou um pilar de sua carreira. Foi quem, na verdade, abriu-lhe as portas para o sucesso e para o grande público da MPB. Ela emprestou aos boleros, às melodias românticas e às letras dramáticas uma profundidade, que já estava presente nas canções, mas que apenas se concretizou em sua voz aveludada".
    Na década de 80, esses dois tempos (pai e filho) se cruzaram e se uniram numa harmonia e numa música únicas. Saíram por aí, Brasil afora, os dois Luiz, os dois Gonzaga, o velho e o novo, para a primeira apresentação do show "Vida de Viajante". "Não foi só um encontro: foi uma síntese. Pai e filho construíram nos acordes e nos caminhos brasileiros uma história cheia de desencantos, mas que acabou harmonizada pelo som".
    Ainda naquela década, mas precisamente em 1983, um dos seus maiores amigos, seu compadre - padrinho de sua filha Mariana -, Raimundo Fagner lança o LP "Palavras de Amor", logo Guerreiro Menino (Um Homem Também Chora), torna-se um hits nacional. E lá, na quanta estrofe, Gonzaguinha solidifica muito mais as suas posições críticas às desigualdades sociais brasileiras com estes versos. Memoráveis, por sinal:
    "Um homem se humilha/Se castram seu sonho/Seu sonho é sua vida/E a vida é o trabalho/E sem o seu trabalho/Um homem não tem honra/E sem a sua honra/Se morre, se mata/Não dá pra ser feliz/Não dá pra ser feliz".
    E se fosse hoje, 34 anos depois  de publicadas estas palavras, o que diria aquele poeta diante de 13, 14 milhões de desempregados no Brasil? Seria, obviamente, mais contundente. Porque, acima de tudo, sua arte foi resultado de enorme luta contra as dificuldades objetivas da vida, como a falta de dinheiro, e contra a falta de oportunidades que marca boa parte de nossa juventude, principalmente. 
    "A estrada parecia não ter fim. Ele apertava o acelerador, mas o caminho continuava, interminável. Talvez fosse a saudade da esposa e da filha (Louise Margarete, Lelete, e Mariana, respectivamente), que o esperavam em Belo Horizonte. Talvez fosse o cansaço da excursão que chegava ao 11º dia".
    "Ele continuava acelerando. Pensava em tudo que ainda tinha pela frente. Mal notou quando a caminhonete cruzou nua sua frente. Mal percebeu quando o carro colidiu. O silêncio se abateu sobre ele. O que nem as dificuldades de uma infância pobre e nem o regime militar (censurado e perseguido) puderam fazer estava consumado. Passava pouco das 7 horas da manhã do dia 30 de abril de 1991, uma segunda-feira. O compositor estava mudo". Mudo aos 45 anos. Coisa que em vida isso jamais tinha ocorrido: calar, jamais.
    Naquele dia, eu nada sabia. Quando cheguei em casa, do trabalho. Lá havia um telegrama (sou dessa época) do meu irmão com estes dizeres: "CANTOR GONZAGUINHA MORREU ACIDENTE CARRO. Evans". A tristeza se abateu sobre mim e sobre outros milhões de brasileiros.
    Em outubro de 2001, o produtor musical, Marcelo Fróes, quando do lançamento do CD "Gonzaguinha", escreve no encarte do mesmo estas palavras: "HÁ DEZ ANOS, exatamente em 30 de abril de 1991, numa estrada próxima de Curitiba (PR) deixava-nos inesperadamente Luiz Gonzaga do Nascimento Jr - o Gonzaguinha". E, para homenageá-lo, pela primeira vez em CD, a gravadora Universal lançou as primeiras gravações desse artista desde 1969, antes lançadas apenas em compactos. Agora, de enorme valor histórico dentro da carreira de Gonzaguinha, verdadeira lenda da MPB, assim como para o cancioneiro brasileiro.
    O disco do qual fala Fróes, é ótimo. São 11 canções, algumas como: Por um Segundo, Felícia, Eu Quero, O Trem, Parada Obrigatória para Pensar, Africasiamérica, entre outras. Estas pérolas jamais tinham  sido relançadas (estavam perdidas em LPs e compactos de festivas), afirma o produtor. 
    E, para finalizar, apesar de difícil escolha, vamos, então, à íntegra de Feliz:

    Para quem bem viveu o amor/Duas vidas se abrem/Não acabam com a luz/São pequenas estrelas/que ocorrem no céu/Trajetórias opostas/Sem jamais deixar de se olhar/. É um carinho guardado/No cofre de um coração que voou/É um afeto deixado nas veias/De um coração que ficou/É a certeza da eterna presença/Da vida que foi, da vida que vai/[É saudade da boa, feliz cantar/. Que foi, foi, foi/Foi bom e pra sempre será/Mais, mais, mais/Maravilhosamente AMAR.

    Se vivo estivesse, no próximo mês, Gonzaguinha estaria completando 72 anos. No entanto, sua voz, seus versos, suas ideias, se perpetuarão entre nós, em mais de 400 composições. Seu "Grito de Alerta" estará sempre ao nosso alcance. "Suas canções surgiram, também, , como produto de uma jornada. Jornada de quem, como ele, teve a sensibilidade e a capacidade de percorrer as veredas mais profundas e, às vezes, mais ásperas que compõem as pequenas e as grandes dores de nossa existência e de nossa alma".

    Referências
    1. "Gonzaguinha", encarte e CD da Col. MPB Compositores, vol. 11, editora Globo, RJ, 1997.
    2. CD "Mais Coisas do Brasil", ao vivo, Leila Pinheiro, Universal Up, 2001. 
    3. CD "Gonzaguinha", Luiz Gonzaga Jr., Universal Music, out/2001.
    4. LP "Palavras de Amor", Fagner, CBS, RJ, 1983.



  
   
     
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