Saudade, eu já lhe conheço

     Quando ouvi pela primeira vez, em 1985, Milton Nascimento cantar Encontros e Despedidas, de autoria dele e Fernando Brant, pensei: "Eis aí a canção que faltava para justificar essa palavrinha que todos nós sentimos: saudade".
      São dessa composição estes versos: "Todos os dias/É um um vai e vem/A vida se repete/Na estação/Tem gente que chega/Para ficar/Tem gente que vai/Para nunca mais/Tem gente que vem/E quer voltar/Tem gente que vai/E quer ficar/Tem gente que veio/Só olhar/Tem gente a sorrir/E a chorar".1
     " SAUDADE, s. f. Recordação ao mesmo tempo triste e suave de pessoas ou coisas distintas ou extintas, acompanhada do desejo de tornar a vê-las ou possuí-las; pesar pela ausência de alguém que nos é querido; nostalgia". 2
     Com base nesse conceito, pergunte a si mesmo (a) o que é saudade. Consulte um filósofo, um filólogo. Peça alguém para explicar o que é saudade. Todos ficarão encabulados. Por quê? Porque é um sentimento tão nobre, tão subjetivo, que somente quem por ela está tomado, será capaz de dizer o que sente, o quanto ela dura, e como fica em cada um por muito tempo.
     Tem mais: a saudade é cheia de disfarces: ora a pessoa saudosista está contagiante, alegre como um palhaço diante das crianças; ora melancólica, sem conversa aparente; ora, bucólica, contemplativa, vendo o pôr do sol, no lusco-fusco do entardecer, ou esperando os primeiros raios, no amanhecer; ora, ainda, reclusa. Tudo, por causa da saudade de..., saudade do..., saudade da... O bom desses momentos é que no final das contas, tudo acaba dando certo.  
     Há muito tempo, li em algum lugar, que no idioma espanhol não há nenhum verbete que se iguale a palavra saudade, tal qual a da língua portuguesa. Pelo menos no sentido etimológico, lato sensu. Por aqui, essa palavra foi classificada pela Filologia como uma das dez mais belas palavras entre milhares de outras, assim como cristal, mãe, mar, etc.
     Tanto na escrita como na conversação, um assunto, sempre, traz outro consigo. Eis aqui um: Lá pelos idos dos anos 80, meu professor de Literatura costumava entrar na sala de aula declamando alguns versos. Depois, perguntava: "De quem são estas palavras?" Geralmente eram de Drummond, Gullar, Bandeira, Cora, Pessoa, Bilac, Camões, entre outros.        
     Certo dia chegou mudo. Pegou o giz e escreveu estes versos:
                                     Como te enganas! meu amor é chama
                                     Que se alimenta no voraz segredo,
                                     E se te fujo é que te adoro louco...
                                     És bela - eu moço; tens amor - eu medo!...  
   
     "Quem é o autor, turma?" "Sobre quem fala o poema?" Sobre a primeira pergunta, silêncio total. Sobre a segunda, euforia geral. Todos queriam opinar sobre a:  namorada,  infância, tristeza, professora, etc. "Nada disso", disse o mestre. "É uma estrofe do poema "Amor e Medo" de Casimiro de Abreu, 'o poeta da saudade', cujas palavras fazem referências sobre a vida", concluiu.      
     Agora, passados tantos anos daquela aula, encontrei estas considerações da mestra da USP em Literatura Brasileira e Teoria Literária, Ilka Laurita:
     "A poesia de Casimiro de Abreu é marcada pela espontaneidade, presente na singeleza dos versos e temas. Traz, com musicalidade, os instantes simples de uma convivência provinciana, as preocupações e anseios cotidianos do homem comum, ora louvando os encantos da vida, ora lamentando os seus espinhos.
     Repleta de saudades da infância, quando era "livre filho das montanhas" e "brincava à beira mar", a lírica de Casimiro tem aí seus tons claros. A exaltação à natureza, os ingênuos amores e as canções do exílio compõem também uma atmosfera amena, mesmo que às vezes pontilhada de tristeza.  
     O conteúdo duro dos poemas de Casimiro aparece nas alusões à fugacidade da vida, à mocidade unida à morte, clichê romântico byroniano. Mas, embora sejam esses os poemas "negros", o trágico nunca chega a extremos, é abrandado por imagens suaves, como a que retrata a morte como uma ceifeira de flores". 3
     Casimiro José Marques de Abre (1839-1860), era carioca de Barra de São João, e morreu vítima de tuberculose ainda muito jovem, quando tinha apenas 21 anos de idade. Filho adotivo, foi estudar em Portugal onde iniciou as suas atividades na literatura. Apesar da sua curta carreira, escreveu dois livros de prosa, e "As Primaveras", coletânea de poemas da juventude.
     Voltemos, portanto, ao quesito saudade. Aparentemente ela está em todos os lugares: está no falar e no olhar das pessoas; está no poema, no canto, no jogral, na peça teatral, na música, enfim, está aqui pertinho e lá longe. Por exemplo, em Chega de Saudade, lá no final dos anos 50, Vinicius de Moraes grafou estas palavras:
     "Chega de saudade/A realidade é que sem ela/Não há paz, não há beleza/É só tristeza, e a melancolia/Que não sai de mim, não sai de mim./ Não sai". 4
     A   poetisa (escrevo assim) portuguesa Florbela Espanca, também não deixou por menos e deixou este registro sobre o tema:
     "Se ele deixou beleza que conforte/Deve-nos ser sagrado como o pão!/Quantas vezes, amor, já te esqueci,/Para mais doidamente me lembrar de ti!/E quem dera que fosse sempre assim:/Quanto menos quisesses recordar/Mais a saudade andasse presa em mim!"           
    À semelhança de Casimiro, Antonio Pereira de Moraes (1891-1982), também ficou conhecido como "o poeta da saudade". Nasceu e morreu em Itapetim, Pernambuco. Violeiro e poeta popular, ele mal sabia assinar o próprio nome, e nunca fez dessa arte seu ofício, pois viveu sempre como agricultor. Porém, soube muito bem falar da saudade. 
     Participava de jornada de improviso e seus versos persistiram ao tempo porque eram decorados por seus admiradores. Em 1980, com quase 90 anos de idade, com a ajuda dos amigos, publicou seu único folheto "Minhas Saudades", uma coletânea de sua poesia. Seus repentes são simplesmente fascinantes. Eis aqui alguns deles, que nos tocam à alma:
                                Saudade tem cinco fios
                                Puxados à eletricidade,
                                Um na alma, outro no peito
                                Um amor, outro amizade,
                                O derradeiro, a lembrança
                                Dos dias da mocidade.5
     Tem mais, amigo leitor. Na trilha sonora do filme "Para Viver um Grande Amor", de 1983, consta uma das mais belas composições (melodia também) brasileiras: Tanta Saudade, de Djavan e Chico Buarque, da qual extraí alguns fragmentos:
     "Era tanta saudade/É pra matar/Eu fiquei até doente/Eu fiquei até doente, menina/Se eu não mato a saudade/É, deixa estar/A saudade mata a gente/A saudade mata a gente, menina.
                                                 (...)
     Mas voltou a saudade/É, pra ficar/Aí, eu encarei de frente/ Aí, eu encarei de frente, menina/Se eu ficar na saudade/É, deixa estar/A saudade engole a gente/A saudade engole a gente, menina".6
     Segundo Nádia Battella Gotlib, foi Lobo Soropita, que, na edição de 1595, organizou alguns sonetos de Camões. Entre eles está o de número 24, assim composto:
      " Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,/Muda-se o ser, muda-se a confiança;/Todo o Mundo é composto de mudança,/Tomando sempre novas qualidades.
      Continuamente vemos novidades,/Diferentes em tudo da esperança;/Do mal ficam as mágoas na lembrança,/E do bem, se algum houve, as saudades.
       O tempo cobre o chão de verde manto./Que já coberto foi de neve fria,/E em mim converte em choro e doce canto.
       E, afora este mudar-se cada dia,/Outra mudança faz de mor espanto,/Que não se muda já como soía (*) 7"
       * A mudança das coisas afeta até a própria mudança; ela passa já a não mudar mais como mudava antes.
     E, para finalizar, transcrevo um poema que encontrei nos meus arquivos, datado de 1981(data que copiei o poema, não da sua origem), mas de autoria desconhecida. Singelo, mas essencialmente belo,  do qual extraí o título deste artigo:
     
                                        SAUDADE, EU JÁ LHE CONHEÇO

                                        Então, a saudade veio
                                        E fez do meu peito, sua
                                        morada.
                                        Falou-me de coisas passadas
                                        Coisas mutiladas na sua 
                                        jornada.
                                        Disse-me que viu beijos perdidos,
                                        Carinhos fingidos, mil
                                        mentiras sem fim.
                                        Deixou para trás tantos amores,
                                        Tantos dissabores, saudade,
                                        disse isso pra mim.
                                        Eu sei, saudade, eu já lhe conheço.
                                        Você tem preço difícil de pagar.
                                        A mim você vem de mansinho
                                        Com muito jeitinho...
                                        Você quer me acabar.
                                        Saudade, está chegando a hora.
                                        Vê se vai embora - não posso
                                        suportar.
                                        Saudade manda outra saudade
                                        Em forma de mulher, pra ficar. 

     "Saudade a gente não explica (Gonzaguinha)". Ela fica. Não fica. "Ataca bem no coração". Cada um de nós sabe quando por ela está acometido. Ela tem vários significados, são inúmeras facetas. Uns exclamam assim: "Ai, meu Deus, que saudade da... (Amélia)"; outros: "Ah! Que saudade me dá/Do bate papo/Do disse me disse..." Há aqueles ainda, mais sentimentais: "Quando a saudade invade o coração da gente/Pega a veia onde corria um grande amor..." ou  "Saudade já tem nome de mulher/Só pra fazer do homem o que bem quer".
     Saudade, eu já lhe conheço. Portanto, entra, fica comigo, ou melhor, vem morar em mim.

     Texto de Francisco Gomes
  
     Referências
     1 LP "Encontros e Despedidas", Milton Nascimento, Gravadora Barclay, 1985.
     2 Bueno, Francisco da Silveira. Dic. Escolar da L. Portuguesa. - 11. ed. - RJ: FAE, 1985.
     3 Abreu, Casimiro de. Literatura Comentada. - SP: Abril Educação, 1980.
     4 Moraes, Vinicius de. Literatura Comentada. - São Paulo, Abril Educação,  1080.
     5 Forrobodologia. word press. com/fev/2008.
     6 LP trilha do filme "Para Viver um Grande Amor", Discos CBS, 1983.
     7 Camões, Luiz Vaz de. Literatura Comentada. - SP: Abril Educação, 1980
     
     
     
   
  
                              
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