"Três anéis", de Boccaccio

     O escritor e poeta italiano Giovanni Boccaccio (1313-1375), é considerado por muitos críticos como o criador da prosa italiana. É de sua autoria Decameron, um dos livros mais lidos e conhecidos do mundo, em diferentes idiomas, é óbvio.
     Filho ilegítimo de um rico florentino com uma francesa, ainda adolescente foi para Nápoles, onde fez curso de comércio, atendendo a vontade do pai. Mas, logo decidiu abandonar esse ramo. Passando, então, a estudar Direito e Línguas Clássicas, iniciando sua produção literária.
     Aos 28 anos escreveu a sua primeira obra: Fiammentta (chamazinha), fruto de uma paixão avassaladora. "Boccaccio voltou os olhos e o coração para o amor material de Maria". Filha do rei Roberto e casada.  Nessa época tornou-se amigo do poeta Francesco Petrarca e admirador incondicional da obra de outro conterrâneo, Dante Alighieri. Cujo estudo o fez a assumir uma cadeira na Universidade para explicar a obra do seu ídolo. 
     Durante quase 15 anos, vive entre Nápoles e Florença. Radicando-se, por fim, nesta última, onde permaneceu até 1363, quando mudou-se para Certaldo, aldeia da Toscana, onde permaneceu até 1375, vinda a falecer em dezembro daquele ano, 18 meses depois de Petrarca.
     Chamavam-no, o Tranquilo, devido a sua capacidade de manter o bom humor diante das adversidades. Foi agraciado com o condão de contagiar a todos com a sua alegria. "Boccaccio é o poeta laureado do riso. É incapaz de retratar a tristeza porque é incapaz de causá-la".
     Estudioso nato, o jovem adquiriu uma cultura literária superior a da maioria dos estudiosos da sua época. Sua importância na literatura ocidental, não se limita apenas como incentivador do humanismo, mas como criador de um modelo de prosa que deu origem ao romance moderno.
     O conjunto de sua produção é um dos exemplos mais representativos do choque e da síntese de valores morais e sociais ocorridos no final da Idade Média, por isso está repleta de "duras críticas das autoridades religiosas e toda espécie de censura". Convenhamos, ele "é um satírico, mas não um cínico". Sempre conduziu a sua obra com muita idoneidade.
     A maioria das histórias do Decameron (em grego, quer dizer, "dez dias") são muito curtas. Retratam uma situação em poucas palavras e depois chegam abruptamente ao final com um súbito golpe de surpresa.
     Os contos contidos nesse livro são curtos, mas surpreendentes, repito. Um dos melhores exemplos é a história de Abraão, o judeu. Abraão era tão íntegro que seu amigo, Jeannot Chivigni, queria convertê-lo ao cristianismo. O judeu, contudo, desconversa. "Sustenta que não acha nenhuma religião tão boa como a sua, que nela nasceu e que nela pretende viver e morrer".  Porém, não resistiu a teimosia de Jeannot e disse que aceitava ser cristão, mas com uma condição: ir a Roma ver o papa para melhor compreender o clero, e por fim, a religião do seu amigo. Caso contrário, continuaria judeu.
     Ao ouvir isso, Jeannot, ficou deveras perturbado. "Pois, se Abraão for a Roma e vir tudo a perversidade do clero, não só se recusará a converter-se, mas, se fosse cristão, insistiria em fazer-se judeu".
     E, assim, tentou dissuadir seu amigo da ideia. Sem sucesso. Ele foi a Roma. E, quando de lá voltou, estava escandalizado com tudo que viu. O clero era dado "a toda sorte de baixeza". Aquilo tudo era demais forte para uma "pessoa sóbria e modesta" como ele. E logo regressou à sua casa.
     Essa parecia a conclusão lógica da história. Mas Boccaccio, apresenta uma surpresa final que transforma uma história apenas boa numa obra-prima. Qual? Abraão diz ao amigo que resolveu tornar-se cristão apesar de tudo.
     Seu argumento: "Se o clero está tentando tão arduamente pôr fim à religião cristã, e se ela continua a crescer tão rapidamente apesar dos esforços feitos por desacreditá-la, posso facilmente compreender que o espírito de Deus a protege como a mais verdadeira e mais sagrada de todas as religiões".
     Contudo, Decameron não para por aí. Umas das coisas mais belas do seu texto, ou melhor, uma das mais puras gemas de toda a literatura é a história dos Três anéis. Esses três anéis simbolizam três religiões: a judaica, a cristã e a maometana:

      Era uma vez um homem muito poderoso e muito rico que possuía um anel de inexplicável beleza e valor.  Desejoso de que esse anel continuasse para sempre em poder da família, declarou em seu testamento que o filho ao qual fosse legado o anel,  seria designado seu herdeiro e respeitado como chefe de família. A seu tempo o rico morreu e seu filho herdou o precioso anel. Durante muitas gerações seguintes o objeto passou de pai para filho até que, finalmente, ficou de posse dele um homem que tinha três filhos, todos virtuosos e cumpridores de seus deveres para com o pai de todos por ele igualmente amados. O pai, ansioso por legar a cada um deles um presente por igual valor, pediu secretamente a um joalheiro que fizesse dois outros anéis iguais do original. Quando foi lhe entregue os bens, percebeu que eram tão semelhantes no valor e na beleza que nem o seu possuidor era capaz de distinguir o original das cópias. Ao morrer deu um a cada um filho. Estes começaram a brigar, cada qual reclamando para si a posse do verdadeiro anel. Recorreram, então, à lei para resolver a pendência e o caso continua até hoje sem solução.

     "E assim - conclui Boccaccio-, tem acontecido com as três grandes religiões que nos foram legadas por Deus, nosso Pai... Cada qual se julga o verdadeiro herdeiro de Deus... Mas, como no caso dos anéis, não há certeza sobre qual de nós pode estar certo da preferência exclusiva de Deus".
     Esse autor "se salienta como um homem sem preconceitos nem malevolência de qualquer espécie. Raça, classe, credo, nacionalidade - essas palavras tinham para ele apenas um significado: uma pequena minoria de homens na mais ampla fraternidade do gênero humano".
     O mesmo digo eu: o fato de ter abordado este tema, não tem qualquer juízo de valor da minha parte sobre religião. Até porque a nossa Constituição Federal assegura, veementemente, o direito de crede, religião a todo o cidadão. Fiz esse comentário, para mostrar aos nossos leitores, o quanto é bela a literatura. Qualquer que seja o assunto, o tema, pode ser por ela absorvido. Independente do estilo adotado por cada autor. Isso é fantástico!


                   Texto: Francisco Gomes

     Referências
     1. Vidas de grandes romancistas.  Henry Thomas e Dana Lee Thomas. Tradução de James Amado. RJ, Globo, 1987.
     2. DBU - Dic. Biográfico Universal Três, SP. TrÇes Livros e Fascículos, vol. 2, 1984.
     3. Nova Barsa, SP, Brittannica do Brasil, vol. 3 pp. 14 e 14.
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