Lira dos vinte anos

     Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1831-1852), nasceu na cidade de São Paulo. Ainda criança foi morar no Rio de Janeiro com a família, onde cursou o primário e o ginásio, já demonstrando grande interesse pelas letras. Com 17 anos retornou a São Paulo, onde iniciou o curso de Direito.
     O ano era l848, na capital paulista, não se sabe ao certo como viveu. Há quem diga que viveu uma intensa e turbulenta vida boêmia. Outros falam que sua vida foi calma e serena.  O que se sabe ao certo é que entre 1848 e 1850, sua produção poética foi muito grande.
     A partir de 1851, passa a ter fixação pela ideia da morte. Em 1852, antes de completar 21 anos de idade, morreu vítima de tuberculose e de um tumor na fossa ilíaca, devido a um acidente a cavalo. Por isso não concluiu o estudo das letras jurídicas. Deixou uma obra relativamente extensa para quem viveu tão pouco, publicada postumamente: Noite na taverna, contos; Macário, peça de teatro; e Lira dos vinte anos, poemas. 
     Representante brasileiro legítimo do mal do século, influenciado por Byron, Musset e outros. Sua poesia é marcada pelo subjetivismo, melancolia e um forte sarcasmo. Os temas mais comuns são o desejo de amor, procura pela vida boêmia, o vício, a morte, a palidez, a noite, a mulher... O amor é sempre idealizado, povoado por viagens misteriosas que nunca se transformam em realidade, causando assim a dor e a frustração, que são acalmadas pela presença da mãe e da irmã - as cartas enviadas às duas, dizem isso.  

     "Lira dos vinte anos, é um composto de que há de melhor e mais autêntico na produção desse poeta. Feitas de palavras pecuniárias, a obra expressa com fidelidade a essência do seu criador, que busca incessantemente pelo amor e encontrou na boemia um caminho para fugir da realidade" (1).

     O livro foi escrito na segunda metade da geração da poesia romântica brasileira. Inaugurando assim, uma nova linha poética, ou seja, uma nova escola de poesia, se opondo, de certa forma à escola portuguesa. Essa atitude o manteve meio isolado do círculo das letras nacionais. 
     O Brasil vivia a fase conhecida como ultrarromantismo. Isso justifica a divisão da obra em três partes: Na primeira, o autor se apresenta como um poeta sonhador, em cujos poemas, uma série de viagens místicas desfila pelas páginas do livro, atribuindo a ele um clima fantástica e suavemente sensual. 
     Já no segundo trecho o autor apresenta outra face, e adverte o leitor de que seus poemas tomarão um rumo diferente. Segue-se então uma poesia mais sombria, povoada de cadáveres, vultos e festas boêmias, onde o poeta revela estar próximo da morte, deixando "A vida como quem deixa o tédio/Do deserto, o poente caminheiro".
     Enfim, na última parte, ele retorna a mesma fantasia poética e sonhadora do primeiro trecho.
     Embora tenha morrido aos 20 anos, Álvares produziu uma poesia de altíssimo nível, deixando registrada a sua incapacidade de adaptação ao mundo real e o seu potencial. de elevar-se a outras esferas, utilizando-se do sonho e da fantasia. Embebedando-se na dúvida dos poetas da geração do mal du siécle, herdou deles o pendor do desregramento, para a vida boêmia e para o tédio. Contrabalança a influência de Byron com os devaneios de Musset, Hoffmann, entre outros. 
     No entanto, sua rebeldia em opor-se a poesia vinda de Portugal, foi positiva porque consolidou o lirismo brasileiro, adotado mais tarde por muitos outros poetas. Isso é palpável no sucesso verificado em Lira dos vinte anos, editado em 1853 e descortinou uma nova linha para a nossa poesia. 
     Passados mais de 160 anos de sua morte, tanto o nome como a obra de Álvares de Azevedo, fazem parte da lista dos poetas e escritores mais citados (e cobrados) nas salas de aula, nos cursos de letras e pedagogia, nos b]vestibulares, etc.
     Recentemente foi presenteado com um exemplar de Lira dos vinte anos, pelo amigo Áureo Sérgio Pinheiro, edição 2008. Nela a editora inseriu umas notas - sobre o autor e sua obra - interessantes. Resumidas acima, por mim. Quando, geralmente, outras editoras se limitam apenas a obra em si.
     Li o livro. Já o conhecia da adolescência. Quando já tinha interesse pela literatura. Os tempos eram outros. Apesar de termos excelentes professores, a nossa "compreensão poética", era pequena, limitada. As informações não eram tão fartas como agora. Porém, tudo era muito legal, era show.
     Hoje, passados tantos anos daquele ginásio (Santo Agostinho), daquelas turmas, das leituras, dos recreios cantantes, etc, a gente abre um livro numa página qualquer e tem a certeza de que os grandes mestres da prosa e da poesia ainda estão bem presentes, assim como deverão estar (penso e espero) disponíveis às muitas gerações que estão por vir. 
     A poesia não morre. Jamais, jamais, jamais morrerá! Apesar dos avanços informacionais. Ela permanecerá viva e será cada vez mais criativa, independente de qual seja a modalidade apresentada por seus criadores (estilo literário). Releia um poema de Castro Alves, de Olavo Bilac, de Fernando Pessoa e muitos outros, e você terá a convicção de que tudo é novo. Novo no sentido da perpetuidade poética. Todo está bem aqui... como lá estivera no século XIX. Há 40 anos você leu:

     AMOR 
     Amemos! Quero de amor
     Viver no teu coração! 

      MEU DESEJO
      Meu desejo? Era ser a voz da terra
      Que da estrela do céu ouvisse amor 

      Ou ainda,
      LEMBRANÇA DOS QUINZE ANOS
      Não me fales de amor... um teu suspiro
      Tantos sonhos no peito me desperta!...
      Sinto-me reviver e como outrora
      Beijo tremendo uma visão incerta....

      No entanto, estes poemas dos quais extrai alguns fragmentos, já estão encantando leitores (e amores) há mais de 120 anos.
     São versos que habitam em nós; palavras, do bem, que pulsam em nós; sentimentos de ontem quando "...E éramos todos jovens". São versos de hoje, dos cabeças brancas; serão os de amanhã, dos nossos descendentes, dos amantes da prosa e da poesia e do livro, essencialmente.  
     Finalizo com este magnífico poema de Henrique Heine, com tradução de Álvares de Azevedo:
   
     RELÓGIOS E BEIJOS
     Quem os relógios inventou? Decerto
     Algum homem sombrio e friorento
     Numa noite de inverno tristemente
     Sentado na lareira ele cismava,
     Ouvindo os ratos a roer na alcova
     E o palpitar monótono do pulso.

                                                        Quem o beijo inventou? Foi lábio ardente,
                                                        Foi boca venturosa, que vivia
                                                        Sem um cuidado mais que dar beijinhos.
                                                        Era no mês de maio. As flores cândidas
                                                        A mil abrirem sobre a terra verde.
                                                        O sol brilhou mais vivo em céu d'esmalte 
                                                        E cantaram mais doce os passarinhos.

    Portanto, aos nossos valiosos leitores deste Facetas, nossas recomendações são: registrem as vossas liras, seja aos vinte, aos quarenta, aos sessenta, aos oitenta, aos cem anos de vida
Sigam este mandamento do poeta Wando: "Cometam o amor!".
      Descobri, entre amigos, que a bela e dedicada jovem Ana Kelly X. de Souza, é leitora assídua do Facetas. Nós, os autores, estamos gratos e lisonjeados por ela e por todos os demais leitores que nos prestigiam semanalmente.

    Texto: Francisco Gomes

    Referências
    1. Álvares, de Azevedo. Lira dos vinte anos. - São Paulo, Escala, 2008
    2. DBU - Dicionário Brasileiro Universal Três, vol. 1. São Paulo, Editora Tres, 1984, p.55.

    

      
     
     
Tecnologia do Blogger.