Brasil: "Nada é impossível de mudar"

     Estou aproveitando as férias escolares, para intensificar ainda mais as minhas leituras (livros, revistas, jornais, etc). Por isso, leio ao mesmo tempo 4 livros: Lava jato, de Wladimir Netto, Guia de leitura: 100 autores que você precisa ler, de Léa Masina, Os bens que os políticos fazem, de Chico de Gois e Corrupção: mostra a sua cara, de Marco Morel. Três deles tratam do mesmo tema que assola o Brasil: CORRUPÇÃO.
     Sobre a última obra, conclui que a leitura é realmente um dos ramos do conhecimento, cujo aprendizado é contínuo,  é óbvio. Não é novidade nenhuma para pessoas esclarecidas. Essa afirmação também não é nova. Já foi dita e repetida por milhares de estudiosos em todo mundo.
     Na linguagem popular, isto quer dizer: uma coisa puxa outra, ou seja, os fatos, por pequenos que sejam alguns deles, vão constituindo a História do Homem. Isso me faz lembrar uma frase de um escritor esquimó, escrita numa revistinha de palavras cruzadas, lida há muitos anos: "Um homem sem passado, é um desenho sem relevo no tecido da vida". 
     Li, na década de 80, A revolta da chibata, de Edmar Morel, um dos livros mais importantes da historiografia brasileira. Nesse livro duas coisas me cativaram: a narrativa sobre fato real, ocorrido em 1910 e o jornalismo imaculado, combatente, adotado pelo autor.
     Na década de 90, li algo assinado por Mário Morel. Agora, Marco Morel. Quis saber: "São, os três, da mesma família?" Sim. Edmar era pai de Mário e avô de Marco. Gerações de homens geniais: escritores, pesquisadores, professores, jornalistas, etc. Corajosos e comprometidos com a verdade e sempre lutaram contra a corrupção. Agora é chegada a hora de Marco, exigir que a corrupção e seus adeptos mostrem suas caras ("a palidez desse pessoal", Zé Ramalho). Digam seus nomes e o que de nocivo fazem contra a res publica.
     O historiador crítico, foi definido por Carlos Drummond de Andrade, no poema Historiador, assim:
                       Veio para ressuscitar o tempo e escalpelar os mortos,
                                 as condecorações, as liturgias, as espadas,
                                    o espectro das fazendas submergidas,
                                o muro de pedra entre membros da família,
                      o ardido queixume das solteironas, os negócios de trapaças,
                                as ilusões jamais confirmadas nem desfeitas.

                         Veio para contar o que não faz jus a ser glorificado
                          e se deposita, grânulo, no poço vazio da memória.
                    É importuno, sabe-se importuno e insiste, rancoroso, fiel  (1).

     Assim faz Morel. Escalpelando "personagens que fizeram história no Brasil, e ainda esnobam - com seus negócios de trapaças - da cara da nação, quando estão saqueando o erário público, de norte a sul, por um lado. Por outro, o pesquisador, com muita propriedade, listou nomes de verdadeiros brasileiros "incorruptíveis", trouxe à tona a prática criminosa dessa que desvia dinheiro da educação, da saúde, da pesquisa científica, etc, etc, etc.
      Na capa, abaixo do título, está estampada esta máxima de Luís Fernando Veríssimo: "(Brasil), esse estranho país de corruptos sem corruptores". Tem mais. Na primeira orelha, consta: "Uma história completa da corrupção no Brasil? Difícil? Não impossível! Seriam dezenas e dezenas de grandes volumes de uma obra incompleta e, infelizmente, inacabada. Corrupção: mostra a sua cara, apresenta uma compilação de histórias que envergonham o brasileiro e mostram o quanto sua prática está arraigada em nossa cultura (2)".  
     Sobre isto, ele mergulha no Brasil contemporâneo, como investigador infatigável (e imprescindível) "para ressuscitar o tempo". E cheio de coragem, ex oficio, extravasa: "A corrupção possui rostos, vozes, aparências, motivos e meios variados. (...) não dá para ignorar a dimensão social da corrupção corrosiva, que fez e faz mal a tantas vidas".    
     Ainda, segundo ele, há muita gente confundindo o público com o privado; o papel do governo com o interesse particular, seja por meio dos jeitinhos e jeitões, muito em voga no país, que, por se alastrarem como prática danosa (e criminosa), acaba virando verdade, isto é, aparentemente não há nada de errado nas entrelinhas da sociedade. Porém, nem tudo está perdido. A honestidade existe e seguida à risca por milhões e milhões de brasileiros probos.
     O prefácio, assinado pelo pelo jornalista Maurício Azêdo, da ABI, sob o título UM TEMA OPORTUNO, é direto e autêntico, onde ele garante tratar-se de uma obra - que além de contribuir para a História do Brasil - "disseca com visível rigor crítico estes tempos em que a improbidade caminha à solta, sem que a cidadania encontre o consolo de perspectivas de extinção desses hábitos e de punição de seus agentes mafiosos".
     Na apresentação da obra, o autor faz uso das palavras de Brecht, para demonstrar o que  pensa sobre o tema proposto: "Nada é impossível de ser mudado". A corrupção no Brasil não é única nem atemporal, ou seja, vem passando de pai para filho, "em corrupções diversificadas que se reinventam, ou melhor, são reinventadas a cada dia, em cada tempo histórico. Não buscamos (...) a raiz ou origem (...) da corrupção".
     O país precisa combatê-la em todos os sentidos, em todas as camadas sociais. Isso não quer dizer que extirpado esse mal, a sociedade seja mais justa, social, política e economicamente. "Se a estrutura social é baseada em injustiça, violência e desigualdade, o fim da roubalheira do dinheiro público (...) não seria suficiente para vivermos numa terra sem males. A pobreza e o mau funcionamento da administração pública não são causas, apenas, pela corrupção. Ela não é somente causa, mas também efeito e consequência da injustiça. Ambas estão interligadas. É importante combatê-las, a desigualdade e a desonestidade, juntas. O fim de uma não implica a extinção da outra". 
     A corrupção é criada e movida com muita desfaçatez. Quando não pode esconder o rosto, vai de cara limpa, e o corrupto repete com veemência: "Não sei de nada"; "Não fiz nada errado"; "Não foi apresentada prova contra mim"; "meu governo foi excelente"; "o tempo dirá que estou sendo injustiçado",  e por aí vai.
     Estes e outros subterfúgios não podem sensibilizar a nação. Repúdio à corrupção, sim. Caso contrário perdurará a pergunta: QUE PAÍS É ESTE? Até hoje a resposta é imprecisa, e a dúvida continua. Pois trata-se de um país que herdou esse comportamento maléfico desde os idos do ano de 1500. Por isso, não há resposta condizendo com a realidade, ainda.
     Morel é mesmo um combatente: Pesquisa. Narra. Expõe fatos. Cita nomes (de figurinhas e figurões do poder). Abre aspas. Mas, tudo sem falso moralismo. Faz "um mergulho nas histórias do Brasil: mares de lama, vassouras e escândalos. É a corrupção em suas entranhas antigas e atuais. Poucos como ele, pesquisaram com tanto afinco a má conduta administrativa brasileira, desde o governo de Tomé de Souza, ao mensalinho dos dias atuais.
     Contudo, soube, também, dedicar o último capítulo de sua obra a brasileiros íntegros, corretos. São esses que devem servir de modelo de honestidade, sejam pessoas anônimas ou públicas. Mesmo tendo estas - e são milhões delas - a chance de se beneficiarem, ainda surpreendem a sociedade "e revelam que a honestidade é possível em um país que precisa mudar". E mudar muito, e já!
     É um livro imperdível.  Dentre os diversos escritores, poetas, compositores, entre outros, por ele citados, extraí as seguintes expressões, onde cada um, ao seu tempo e modo, aborda a corrupção, assim: Juca Chaves e Lima Barreto, respectivamente.

                               " A situação do Brasil vai
                                           muito mal;
                                  Qualquer ladrão é patente
                                           nacional;
                                  Um policial, quase sempre,
                                           é uma ilusão.
                                  E a condução é artigo
                                           racionado.
                                  Porém, ladrão... Isso tem
                                           pra todo lado!
                                  Caixinha, obrigado! (2)

                                    
            
                                   "Tenho para mim que se deve
                                      experimentar uma tábua rasa
                                      no regime social e político que nos governa;
                                      mas mudar só de nomes
                                      de governantes nada adianta
                                      para a felicidade de todos nós (2)".

     O recado está dado. Caso, nós brasileiros não saibamos conduzir bem as nossas decisões coletivas, 2018, será o ano das banalidades nacionais, principalmente por duas acontecimentos inevitáveis: 1. Eleições (quase gerais); e 2. Copa do mundo. Na primeira, muitos candidatos tentarão nos enganar. Na segunda, nos enganaremos com o esporte, com os jogadores. Os primeiros, mentem. Os segundos fingem, mas o povo a ambos tenta ignorar  suas artimanha.  Isso seria "o ópio do povo?"
      E a resolução dos reais e graves problemas sociais, políticos e econômicos: corrupção, desemprego, saúde falida, violência urbana e rural, educação em declínio, etc, passará longe das nossas prioridades? Espero que não. Vamos às mudanças! Como Brecht insistia: "Nada é impossível de mudar". Portanto, Senhor, não nos deixe cair em tentação, mas...

      Dois lembretes valiosos: 1. O Brasil acaba de perder Carlos Heitor Cony. Porém, as suas palavras se perpetuarão no tempo. O Facetas, o homenageou em 2016; 2. Se vivo estivesse, o professor Roberto Campos estaria completando 100 anos. Suas ideias estão mais vivas do que nunca. Senão vejamos:

      "É divertidíssima a esquizofrenia de nossos artistas e intelectuais de esquerda: admiram o socialismo de Fidel Castro, mas adoram também três coisas que só o capitalismo sabe dar - bons cachês em moeda forte, ausência de censura e consumismo burguês. Sãos os filhos de Marx numa transa adúltera com a Coca-Cola".

        Essa citação para vai para "os filhos do Lula e enteados do PT", os artistas: Chico Buarque, Wagner Moura e Letícia Sabatella, a princípio.

        Pesquisa e texto: Francisco Gomes

        Fonte
        1. A Paixão Medida, de Carlos Drummund de Andrade
        2. Morel, Marco. Corrupção: mostra a sua cara. RJ.: Casa da palavra, 2012.

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