Carmen: a pequena notável

     Cresci ouvindo falar sobre a cantora e atriz, Carmen Miranda (1909-1955). Nos anos 60, o ratinho de pilha estava no auge do sucesso (musical e noticiário). As canções dela eram muito executadas, entre outros artistas. Taí, por exemplo, era uma das músicas mais tocadas nas rádios.
     Em 2004, li um artigo da professora de História da Universidade Federal Fluminense - UFF, Ana Maria Mauad, sob o título "A embaixatriz dos balangandãs", publicado na revista Nossa História. Agora adquiri o LP "A nossa Carmen Miranda", de 1965, da gravadora Odeon, contendo 12 faixas, como Adeus Batucada, O Samba e o Tango, Quando eu penso na Bahia (com Sylvio Caldas), Imperador do Samba, etc.
     Na contracapa do disco Martim Pescador, faz o seguinte resumo biográfico e artístico da cantora:

     "Maria do Carmo Miranda da Cunha, artisticamente Carmen Miranda, nasceu dia 9 de fevereiro de 1909 em Marco de Canavezes, Portugal, tendo chegado ao Brasil com apenas 1 ano de idade. Logo que se tornou uma mocinha seu pai, o barbeiro José Maria Pinto da Cunha, encaminhou-a ao comércio. E Carmen, apesar de sua precoce vocação artística (coisa mal vista, naquela época) foi trabalhar  como caixeira e balconista em uma loja especializada em chapéus femininos.
     Em 1928, em um festival de caridade realizado no Instituto Nacional de Música, Josué de Barros, grande professor de violão, pai do conhecido músico e compositor Betinho, descobre a grande artista que se escondia naquela mocinha graciosa e levou-a para o rádio.  Em 1930 com a marchinha "Pra você gostar de mim" (conhecida por todo o mundo como "Taí"), de Joubert de Carvalho ( que atingiu a marca de 35 mil discos vendidos em somente um mês), Carmen inicia, verdadeiramente, sua rápida e brilhante carreira. Rápida entre nós, porque em 1939, quando se exibia no Cassino Urca, foi ouvida pelo empresário Lee Shubert que, entusiasmado, levou-a para os Estados Unidos. Com ela, e a seu pedido, seguiram os rapazes do Bando da Lua. Graças ao seu tipo exótico, às vestimentas características e seu jeito diferente de cantar, Carmen conquista amplamente o exigente público norte-amricano. Depois é a cantora que é conquistada, mas por Hollywood. Participa de "Serenata Tropical", "Se eu fôsse feliz", "Uma noite no Rio", "Aconteceu em Havana", "Copacabana", "O Príncipe Encantado", "Romance Carioca" e "Morrendo de medo", seu último filme, feito com a dupla Dean Mantin-Jerry Lewis.  
     Carmen, professora de samba e de amizade, como tão bem a definiu a Revista da Música Popular, foi a primeira cantora brasileira a assinar um contrato com uma emissora de rádio (Rádio Mayrink Veiga). Foi também uma das artistas (em 1945) mais bem paga nos Estados Unidos. O famosíssimo "Chinese Theatre", tem, em sua calçada, as impressões das mãos e dos pés de Carmen, consagração dada somente aos grandes nomes do cinema. 
     Após sua partida para os States, Carmen esteve três vezes no Brasil. Em 1940, para assistir o carnaval carioca (quando gravou, entre outras, "Recenseamento" e "Voltei pro Morro", músicas que constam dêste LP). Voltou em 1954 para tratamento de saúde, já então abalada. Em 5 de agôsto de 1955 um colapso cardíaco levou-a para sempre. E Carmen voltou ao Brasil, desta vez para ficar, tendo sido sepultada no Cemitério de São João Batista (?) 1.
     Neste "A nossa Carmen Miranda", a ODEON reuniu gravações originais feitas entre 1935 e 1941. Num tempo em que a música brasileira dava denominações pitorescas às suas criações. Por exemplo: samba-tango, por O samba e o tango; samba-revista em Uva de caminhão; chôro-receita para Casquinha de tricot (tricô) e  samba-jongo em Quando eu penso na Bahia. 
     Que, juntamente com Adeus batucada, Recenseamento, Escrevi um bilhetinho, Cabaré no morro, Polichinelo e Imperador do samba dão para traçar, mesmo em rápidas linhas, quem foi a "Pequena Notável'".
      Por sua vez, a mestra Mauad aprofunda o estudo sobre o tema, ou melhor, sobre a carreira da cantora em evidência, onde conclui que a imagem de Carmen, criada por Hollywood no contexto da Política da Boa Vizinhança do presidente Franklin Delano Roosevelt, refletiu os preconceitos dos EUA em relação à América Latina. 
      "No jogo de aproximação entre o Brasil e os Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial, entraram em cena importantes elementos simbólicos para a construção de uma geografia cultural que enfatizasse o poder norte-americano abaixo do equador. O caminho. entre as Américas deveria ser uma avenida de mão dupla: os brasileiros tinham de ser convencidos de que o American way of life  (jeito americano de viver)  era o ideal da democracia, e os americanos acreditavam nos brasileiros como inofensivos amantes do samba e das mulatas" 2.  
     Por esse prisma, "para o bem e para o mal", essa cantora foi um ícone marcante do período, não cabe questionamento. O talento da Pequena Notável - apelido cunhado pelo locutor César Ladeira - era inegável. 
     O convite da ida de Carmen para aquele país, foi prontamente aceito. Com a ajuda, é claro, do ministro das Relações Exteriores de Getúlio Vargas - em pleno Estado Novo -, Oswaldo Aranha, e, para lá rumaram, ela e seus inseparáveis músicos, que formavam o Bando da Lua. 
     A Política de Roosevelt "busca uma solidariedade hemisférica, definida no contexto da Segunda Guerra Mundial e nos termos dos interesses norte-americanos. Visava garantir a posição estratégica dos aliados no Cone Sul, a partir do avanço das forças do eixo nazi-fascista no Pacífico. No Brasil, tinha o respaldo da embaixada norte-americana e de grandes firmas americanas, como a General Eletric e a General Motors. Afirmavam-se, assim,os símbolos de uma cultura que se internacionaliza, contando-se ´, para tal com todos os recursos da mídia disponíveis na época - cinema, imprensa e publicidade -, no seu papel de divulgar valores e criar modas".
     Para Carmen, ser a "embaixatriz" dessa relação amigável era ter uma grande responsabilidade. Mas, assumiu esse papel com um certo glamour. Em seu favor, elementos indispensáveis para a receita do sucesso: simpatia e talento pessoais, boa vontade da plateia e investimento empresarial, fundamentais para tornar Miss Miranda completamente fashion.
     "No Brasil, porém, Carmen Miranda foi considerada por muitos um emblema da americanização, sendo foco de represálias, como se constata no incidente ocorrido no dia 15 de julho de 1940. Ao saudar a plateia do Cassino da Urca com um "good night, people!" ("boa noite, gente!") a cantora recebeu como resposta um constrangedor silêncio. Dois meses depois, a Pequena deu a resposta com Disseram que eu voltei americanizada, samba de Vicente Paiva e Luiz Peixoto:

                                           Disseram que eu voltei americanizada
                                                     com o burro do dinheiro
                                                        que estou muito rica 
                                        que não suporto mais o breque do pandeiro
                                              e fico arrepiada ouvindo uma cuíca.

     A pesquisadora termina seu belíssimo e autêntico artigo assim: "Uma Carmen sem balangandãs era a redenção de um país que se imaginava alegre, mas também elegante, social e distinto".  

     E você, leitor, acha que Carmen foi "usada"?. Que, a nossa música no exterior, surgiu pela sua originalidade e beleza, ou por "acordos" escusos? Hoje, como você avalia o cenário da música brasileira, aqui e lá fora?

      Texto de Francisco Gomes

       Fontes
       1. LP "A nossa Carmen Miranda", ODEON, 1965
       2. Revista Nossa História, ano 1, n. 6, abril de 2004, páginas 56/61.
        

        
                             
     




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