Corram, os ratos estão chegando!

      Os maiores fabulistas da História Universal, La Fontaine e Esopo, tratam em suas obras, dos ratos. "O rato da cidade e o rato do campo" e "Os ratos e as doninhas", respectivamente. Cá entre nós, o genial Millôr Fernandes também abordou o tema sobre esses "bichinhos". Porém, foi Dyonélio Machado quem deu ênfase sobre o tema, com a sua maior obra, "Os ratos". E é sobre este livro da nossa literatura que escrevo o artigo de hoje, o qual está dividido em três partes: quem é o autor, qual seu estilo literário e em que consiste a obra em destaque.

     QUEM FOI? Dyonélio Jubino Machado nasceu a 21 de agosto de 1895, em Quaraí (RS). Em1929, formou-se em Medicina, especializando-se em Psiquiatria, cuja profissão de psiquiatra exerceu por mais de 50 anos. Enquanto era acadêmico praticava o jornalismo. Em1923, após reunir alguns dos seus artigos, publicou Política contemporânea. Em 1927, estreou na literatura com seu primeiro livro de contos: Um pobre homem, dando início a carreira de escritor.
     Apesar de formado, dedicava-se paralelamente ao jornalismo e à militância política, chegando a ser eleito deputado estadual pelo PCB. Com a Revolução de 1930 e a ascensão de Getúlio Vargas ao poder, o Partido foi cassado e o deputado Dyonélio preso. Outras prisões se repetiram durante o Estado Novo. No intervalo entre uma e outra, Érico Veríssimo - Os ratos é dedicado à sua pessoa -, lhe sugeriu escrever um romance para um concurso de repercussão nacional. Em menos de um mês o texto ficou pronto, mas foi no cárcere (novamente) que o autor soube que o romance recebeu o prêmio Machado de Assis de 1934.
     A publicação no ano seguinte, trouxe notoriedade ao autor que mesmo assim permaneceu preso até 1941, quando abandonou a política militante. Em 1942 publicou O louco do Cati, outra grande obra sua. Por sinal, nesse livro o autor relata suas experiências de prisioneiro. Somente para ilustrar aqui: Vargas, como qualquer ditador, mandava prender (e até matar) quem dele discordasse. Foi assim com Graciliano Ramos, com Luis Carlos Prestes, Olga Benário , entre outros. 
      Ainda nos anos 40 publicou outros livros, mas infelizmente pouco se deu destaque às suas qualidades literárias. Somente Mário de Andrade e Sérgio Milliet divulgaram o talento do companheiro. Apenas em 1979, o escritor recebeu o devido reconhecimento quando as suas obras despertarem o interesse da crítica, do público e das editoras. Dyonélio Machado morreu em Porto Alegre, onde residia,  no dia 19 de junho de 1985, quando faltava um pouco mais de dois meses para  completar 90 anos de vida.

      QUAL SEU ESTILO LITERÁRIO? Antes de mais nada, impressiona na leitura desse autor a secura de seu estilo: a frase concisa, econômica, substantiva, onde não transparece nenhuma empolgação. O narrador só mostra as ações dos personagens, pelo discurso direto ou indireto, livre para revelar o que lhes vai na mente. Através de hábil artifício linguístico, a "voz" do narrador parece silenciar e o leitor aparentemente "assiste" ao desenrolar dos fatos, como se eles fossem projetados numa tela de cinema. 
     Se o narrador se "ausenta", ao mesmo tempo também inexistem heróis: os personagens são mesquinhamente humanos, vivendo um dia a dia cinzento e medíocre, enclausurados numa realidade triste e miserável. Assim, o leitor percebe que o grau da mesquinhez aludida é maior do que a princípio, aparentava, a ponto de desumanizar os personagens, que se transformam em animais ou coisas (o que ocorre, por exemplo, em Os ratos, em O louco do Cati, em Endiabrados).
     Quanto às causas de transformação não é difícil encontrá-las na sociedade em que os personagens transitam. O autor disseca criticamente a existência alienada do homem no capitalismo, mas seu texto não chegar a ser panfletário ou ideológico com a pretensão de denunciar a deformação provocada no homem (geralmente pobre) por um sistema social que o explora.  
     Ao contrário, o caráter social da obra em análise revela-se na profunda pesquisa que o seu criador faz do individual, saindo da parte para chegar ao todo: é sobre gestos pequenos ou mínimos que incide a todo momento o foco narrativo. O protagonista manuseia a nota de dinheiro que conseguiu colocar no bolso, não sabe se deve ou não olhar para o outro que está ao seu lado no ponto do bonde, analisa cuidadosamente a frase que precisas dirigir a um superior. 
     Psiquiatra, o autor absorveu as lições de Freud, e sua discrição microscópica  de gestos, ideias, pensamentos, impulsos não é um recurso que visa a ampliar o realismo cru de sua narrativa. Ele sabe que é por meio destes pequenos vestígios, que se iluminam os verdadeiros motivos de atitudes, ações, comportamentos do ser humano, num estágio de sua história, onde os valores se dissolvem e perdem o sentido.
     Reunindo fragmentos, compõem-se a totalidade, aproxima-se consciente e inconscientemente, indivíduo e sociedade. Trata-se de uma leitura complexa, mas não por isso um pouco menos fascinante: trilhando os vestígios que o narrador semeia, o leitor se converte em investigador, como ocorre nos romances de mistério (Freud, aliás, comparou o trabalho do psicanalista ao do detetive). Mas do que isto, porém, ao penetrarmos na complexidade dos mistérios expostos na obra de Dyonélio, percebemos que penetramos em nossa própria complexidade: É a nossa história que está sendo contada.   

     QUE RATOS SÃO ESSES? Primeiro romance desse autor, o livro foi escrito em menos de um mês, ao ritmo de um capítulo por dia. E a obra apresenta justamente este ritmo de acelerada tensão, ao narrar as 24 horas de nervosismo do dia de um pobre coitado que precisa, neste curto espaço de tempo, conseguir 53 mil réis - soma que ultrapassa a metade de seu ordenado - para pagar os atrasados ao leiteiro, sob pena do corte de fornecimento. É funcionário público e não tem dinheiro necessário à sobrevivência e que o salário aviltado não lhe proporciona esse direito (isso na década de 30. E hoje?). A Naziazeno - personagem principal -, em sua busca, juntam-se Alcides e Duque, este último um  especialista no circuito do crédito a juros e da penhora (não confundir com um certo Duque do esquema Petrobras).
     O foco narrativo aprofunda-se na observação dos processos psíquicos que se deflagram na mente do protagonista, sem perder de vista o meio social em que este circula, em constantes idas e voltas do individual ao social e vice-versa, da mesma maneira que a narrativa, regulada mais por um tempo psicológico, avança e recua, embora em tensão gradativa e crescente.  
     De um lado, considerando-se a época da publicação do romance (1935), o autor deve ser encarado como um precursor do romance urbano em nossa história literária, o que ocorre ousadamente na época da explosão do romance regionalista. 
     Por outro lado, há que se reconhecer o que existe de verdadeiramente revolucionário e inovador no seu estilo. Neste sentido, linguística e literariamente, Dyonélio pode ser comparado, se não em condição superior, ao menos em condições de igualdade ao Graciliano Ramos de Vidas secas, livro em que se aliam indissoluvelmente as preocupações com a forma e com o conteúdo.
     Além disto, pela inevitável atualidade (mais de 80 anos de lá para cá) e dramaticidade do tema, pela objetividade concisa de sua linguagem, pela tensão crescente do enredo, por um "suspense" característicos das obras de mistério, mas paradoxalmente original da banalidade do cotidiano, Os ratos, tornou-se para sempre uma leitura apaixonante. 

     Portanto, leitores, corram, os ratos estão chegando. Se não são os de Dyonélio, potencialmente sãos os que saquearam o erário público de norte a sul do país, principalmente nas últimas décadas. Eles são tão nocivos que impunham medo aos mafiosos sicilianos.
     Os atuais ratos brasileiros, a partir de agosto deste ano, desembarcarão em 5.570 travestidos de pessoas bem intencionadas, falando em desenvolvimento econômico, políticas sociais, governabilidade, educação de qualidade, saúde pública única, segurança e acima de tudo,  democracia. A maioria mente, é medíocre e jamais pretende mudar esse cenário cinzento que assola o Brasil, seja pela falta de ética, de moral; seja pela violência urbana e rural; seja pela corrupção que grassa todos os dias, na nossa cara. ACORDA BRASIL!

     Pesquisa e texto: Francisco Gomes

     Fontes
     1. Machado, Dyonélio. Os ratos. Círculo do Livro, SP, 1975.
     2. Os ratos, suplemento de apoio para o professor, 1987 (?)
     3. Dic. Biog. Universal 3, vol. 8, SP, p. 193

    
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