A alma encantadora de João do Rio

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Imagem: Wikipédia
     A minha filha mais velha, quando ainda era adolescente - atualmente doutoranda em Psicologia da Educação -, costumava dizer: "Pai, João do Rio, era genial. Ele costumava retratar em suas crônicas, hábitos e costumes de sua época, da cidade do Rio de Janeiro, imperceptíveis por outros jornalistas e escritores". 
     Em 1996, uns 6 ou 7 anos anos da jovem fazer essa observação, eu havia lido um comentário de Ivan Lessa, in Veja, sobre João do Rio, uma biografia, de João Carlos Rodrigues. Nem o crítico nem o autor veem com bons olhos o trabalho literário deixado por João do Rio.
     Lessa chega a ser irônico - para não dizer malicioso - quando tasca: "João do Rio: obra extensa apesar da morte aos 39 ano, e insinuações sobre sua vida sexual". Em outro ponto ele garante que o cronista tinha "algo mais que o interesse (...) pela obra de Oscar Wilde, de quem traduziu O Retrato de Dorian Gray".
     "Se tudo que João do Rio escreveu, traduziu, plagiou, decalcou, publicou ou levou à cena em seus 39 anos de vida fosse copiado numa letra muito redondinha em papel almaço, dava para ir e voltar pelo menos duas vezes à Lua, esta silente irmã dos poetas e dos bêbados. Ora, pelo menos 0,01% de tudo na vida não é de se jogar fora. João do Rio escrevia bem e com grande facilidade desde muito cedo, o que nem sempre é tão desejável quanto possa parecer" (1).
     Percebe-se onde o crítico quer chegar.Tem mais: "João do Rio cultivou o flanar desocupado por ruelas da cidade, não deixando nunca de bater ponto nas repartições extra-oficiais do poder. Isso lhe valeu posse com fardão em academia de letras, jogada com sociedade de nossos irmãos lusos" (1).
     Lessa não para por aí. Segue fazendo juízo de valor sobre a pessoa do cronista, e não sobre a obra a que se dispõe a analisar. Leia mais esta: "Vivo estivesse, não é de todo impossível que, hoje, João do Rio, depois de entregar mais dez capítulos da novela das 8, não passasse por outro estúdio da emissora para comandar mesa-redonda em programa de televisão, no qual defenderia adjetivosamente a tese de tronco e 25 chibatadas no lombo para jornalista que desobedecesse à diretriz baixada por governo de ocasião" (1).
     Lessa deixa de seguir este mandamento do mestre Rousseau (1712-1778): "Posso não concordar com nenhuma das tuas palavras, mas as defenderei até a morte o direito que você tem de dize-las".
     A seguir, as considerações majestosamente equilibradas do doutor em Letras, Raúl Antelo, que organizou a obra de João do Rio, A alma encantadora das ruas, de 405 páginas e assim dividida: 1. A rua. 2. O que se vê na rua. 3. Três aspectos da miséria. 4. Onde às vezes termina a rua e 5. A musa das ruas. A introdução (páginas 9/26), é muito bem elaborada - daquelas nas quais os traços biográficos e bibliográficos são entrelaçados de maneira tão sutil que deixam o leitor à vontade.
     Para Raúl, João foi o precursor da vanguarda e da literatura homoerótica. Fez da crônica jornalística uma janela através da qual contemplava as glórias e as misérias do Brasil republicano. Em A alma encantadora das ruas (reunião de textos publicados na imprensa carioca entre 1904-1907), o autor percorre as ruas do RJ para reter a "cosmópolis caleidoscópio".
     A cidade - que não é simples espaço ou cenário -, vivia um processo de transformação acelerado. É a ambiciosa capital federal. Palco das perambulações do cronista, o dândi para quem o hábito de flanar define um modo de ser e um estilo de vida. "Flanar é a distinção de perambular com inteligência. Nada como o inútil para ser artístico. Daí o desocupado flânaur ter sempre na mente dez mil coisas necessárias, imprescindíveis, que podem ficar eternamente adiadas (...). Quando o flânaur deduz, ei-lo a concluir uma lei magnífica por ser para seu uso exclusivo, ei-lo a psicologar, ei-lo a pintar os pensamentos, a fisionomia, a alma das ruas. E é então que haveis de pensar da futilidade do mundo e da inconcebível futilidade dos pedestres da poesia de observação...", conclui João do Rio. 
      "Ao se expressar na literatura, entretanto, esse dantismo substitui o passo leviano pelo desejo de "trazer uma contribuição de análise à época contemporânea, suscitando um pouco do interesse histórico sob o mais curioso período da nossa vida social que é o da transformação atual de usos, vícios e das aspirações resulta a fisionomia característica de um povo'". (2).
     "A alma encantadora das ruas revela um autor que aprendia a psicologia urbana e o espírito da época com a mesma obsessão dos colecionadores. João do Rio saturava seus textos de reminiscências decadentistas, mas o olhar que fixava no presente era o de um observador que se abria para os tempos modernos" (2).
     O escritor Paulo Barreto, ou seja, João Paulo Alberto Coelho Barreto, nasceu no dia 5 de agosto de 1881. Seu pai era o Dr. Alfredo Coelho Barreto, positivista de carteirinha e professor de mecânica e astronomia. Sua mãe era D. Florência Cristóvão dos Santos Barreto,do tipo egocêntrica, porém remediada. "Já o cronista João do Rio,que não é filho deles mas de Oscar Wilde, nasceu, entretanto, quando Paulo Barreto tinha 22 anos, a 26 de novembro de 1903, na página 1 da Gazeta de Notícias (...). A certidão de nascimento de João do Rio é portanto "O Brasil lê", um elogio resulta em um ato de escritura aparentemente banal" (2).

     Em Os dias passam (1912), por exemplo está esta crônica, da qual extrai alguns fragmentos. É tudo muito interessante. Leiamos: "O carioca vive à janela. Você tem razão. Não é uma classe; são todas as classes. Já em tempos tive vontade de escrever um livro notável sobre o "lugar da janela na civilização carioca". É de assustar". Nos bairros de classe média, o índice é menor, mas o hábito se repete. "Na mediana burguesia, vive-se à janela. Nos outros bairros, em qualquer é o mesmo, ou antes, é pior". A janela é ocupada desde cedo, ainda pela manhã. Todos da casa têm uma vontade: a janela. As mulheres olham a rua; os homens, nela, leem o jornal; os meninos espiam, soltam papagaios. A cena se repete a qualquer hora do dia (às 9, às 15, às 19, às 21 h). "Durante muito tempo preocupei-me. Qual o motivo dessa doença não malvista no e pelo estrangeiro? Quem faz tanta gente debruçada na rua Bonjardim, como na rua General Polydoro ou no canal do Mangue? Até hoje a causa é secreta. Mas vi ser à janela que o Rio vive". 
  
     Da janela lemos a psicologia urbana. Da janela vê-se como os dias passam. A obra ora em análise não foge à regra. Está dividida em duas forças: uma atrai ("eu amo a rua"); a outra expulsa ("rua é como cobra, Tem veneno"). Uma é a musa moderna, europeia; a outra, a musa-povo, africana, que "desfaz os fatos mais graves", em música barata, sem maiores pretensões, "porque se renova como a própria vida". 
     "Escreve neste livro que a alma das ruas só é inteiramente sensível a horas tardias. Talvez tenha sido imprescindível o declínio de narrativas de ruptura para avaliarmos que, longe de exaltar particularidades regionais ou singularidades de gender, sua obra contribuiu decisivamente a abrir janelas na modernidade brasileira", conclui Antelo.
     O conjunto da obra de Paulo Barreto, isto é, João do Rio, é vasto: 1. Nas crônicas: Vida vertiginosa; Os dias passam; No tempo de Venceslau; Que pena ser só ladrão, entre outros. 2. Nos contos: Dentro da noite; A mulher e os aparelhos; Rosário da ilusão; O bebê de Tarlantana Rosa. 3. Nos romances: A correspondência de uma estação de cura; A profissão de Jacques Pedreira.
     "A 23 de junho (faltando um pouco de 40 dias para completar 40 anos de vida), João do Rio morreu na rua, em um táxi, à altura do Catete, voltando a sua casa de Ipanema. Paulo Barreto, o acadêmico nem sequer foi lembrado por seus pares. Em sua homenagem, a sessão da Academia (Brasileira de Letras, da qual era membro), foi suspensa apenas por dez minutos". Os acadêmicos com seus fardões vindos da Europa, estavam mais preocupados era com o Centenário, haja vista que "estávamos à janela de 1922" (2). 
     Passado mais de 100 anos do lançamento de A alma encantadora das ruas, "muito antes de a televisão ser a janela por onde se vê o mundo, a janela era a moldura desse novo despótico regime visual. De olhar e ser olhado. Os que saem são vistos da janela. Mas mesmo os que ficam em casa não permanecem despercebidos (...). A cultura urbana e, em especial, a carioca, é portanto janeleira (...). A janela oferece fuga do lar sem dele precisar sair. É a circulação da rua sem seus PERIGOS. É contato, intercâmbio, economia" (2).

     Numa das ruas do Rio, por onde João andou, olhou, pesquisou, registrou, os hábitos e costumes daquela gente, seu coração parou. Mas vítima de causas naturais. Hoje, um século depois da sua alma encantadora captar aquelas cenas do cotidiano, seja na janela ou fora dela não se pode mais "ir, vir ou estar" sossegado. Pois um bando de delinquentes - que desafia as forças do Estado e liquida com a dignidade humana - ceifa vidas dentro das casas, do comércio, das escolas, dos automóveis, etc. Que tiros são esses? São aqueles decorrentes, havia tanto tempo, da falta de moralidade, de cidadania, de honestidade, de educação e de outros princípios fundamentais da vida. É a banalização da morte, como frisou, certa vez, ou especialista em segurança pública. O problema não é apenas do Rio de Janeiro, apesar de lá está a moldura da janela do crime. Outras janelas, Brasil afora, também estão manchadas de sangue. Seguiremos assim? E a esperança? É dele, João do Rio esta máxima:"Não saber, e ficar, e não ver, e continuar, é o que se chama esperança".
     A minha filha tinha razão sobre João. Ele viu, sentiu e registrou, o que para muitos, até então, era uma banalidade. Hoje, não. É a realidade do medo, mesmo que a nossa janela esteja fechada. Estamos cada vez mais reclusos.   

     Pesquisa e texto: Francisco Gomes

     Fontes
     1. Dândi fora de foco. Ivan Lessa, Veja, 26.06.96, ed. 1450, n. 26, ano 29, páginas 138/139.
     2. João do Rio, A alma encantadora das ruas, org. Raúl Antelo, Cia das Letras, SP, 1985.
  
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