A Praga, de Kafka

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Fonte: Wikipédia
     Veio de Praga o "mais moderno dos escritores nascidos no século passado (XIX). Ninguém soube captar tão bem o esmagamento, o sentido de aniquilação do ser humano desenraizado em sua terra." Fala-se de Franz Kafka.
     De família judia remediada, ele nasceu em 3 de julho de 1883 na cidade de Praga (rua Maislova), que anos depois se tornaria capital da Tchecoslováquia, então pertencente ao império Austro-húngaro, que viria ser, mais tarde,   uma das repúblicas que formaram a URSS.
     Até a adolescência, teve a vida marcada pela figura dominadora do pai, comerciante próspero, para quem apenas o sucesso material que contava na vida das pessoas. O resto, era supérfluo.
     Mesmo assim, os estudos era uma prioridade para o garoto. Prova disso é que entre 1901 e 1906 cursou Direito pela Universidade de Praga. Esse meio solidificou sua formação intelectual que contou com nomes como Flaubert, Pascal, entre outros. Ainda como estudante, conheceu aquele que se tornaria seu maior amigo (e posteriormente biógrafo), Max Brod.
     Praga era o centro cultural é político da província da Boêmia. Ali fervia o caldeirão do idioma e da identidade nacionais. No entanto, foi em alemão, e não em tcheco, que o jovem fez todos os seus estudos e escreveu suas obras.   
     "Assim, entremeados na sua vida e em seus livros, a expressão germânica, o sangue judeu e o sentimento tcheco fizeram dele um estranho no ninho, um dilacerado da forma moderna da desesperança" (1).
     Dois anos depois de formado, aos 25 anos, empregou-se numa companhia de seguros, situada no edifício do Instituto de Seguros Gerais (local em que teria servido de inspiração na descrição do modesto funcionário Joseph K, personagem principal do O processo), onde era admirado por todos os colegas, pela exemplar competência como empregado. Por assim dizer, permaneceu nesse emprego até 1922, quando definitivamente saiu, afligido pela tuberculose.
     Apesar disso, sempre se sentiu insatisfeito por não puder dedicar-se inteiramente à atividade literária, haja vista que os seus primeiros escritos foram feitos aos 13 anos.
     Por outro lado, sua "vida emocional foi bastante conturbada, com noivados e amores infelizes. Tais circunstâncias acentuaram o sentimento de solidão e desamparo que nunca o abandonaram" (2). Por sinal, aqui ou ali ele manifesta sua própria realidade existencial em alguns de seus livros. 
     Curiosamente, em todos os seus escritos, "em nenhum momento Praga é mencionada, mas, a cidade, objeto de amor e ódio ao mesmo tempo, revela-se em suas esquinas e becos, suas altas torres, sua paisagem sem nome em quase todos os textos" (1).
     Passados quase 100 anos de sua morte, a Praga de Kafka está lá, praticamente intacta como antes, com suas "construções seculares", banhada pelo rio Moldau, e, como Roma, situada entre sete colinas, com mais de 1000 anos de existência. "Conhecida como a cidade das cem torres, por toda parte se elevam as altas flechas de suas muitas igrejas" (1)
     "A obra de Franz Kafka chegou à posteridade graças à fiel admiração de Max Brod, que não lhe respeitou o desejo de queimar todos os escritos. Além da obra de ficção, ele nos legou de seus amores as Cartas a Felice, judia alemã de quem esteve noivo de 1912 a 1917, e ainda, as Cartas a Milena, uma jovem bonita, inteligente, mas já casada e que nunca se decidiu a abandonar o marido pelo jovem Kafka (...). Sua última noiva é também judia alemã, Dora Dyamant. Com ela Kafka se afasta um pouco de Praga, vai a Berlim, onde vivem juntos. Mas é por pouco tempo" (2).
     No inverno de 1923, a tuberculose que o acometera havia seis anos, agrava-se. O escritor, então, passa os primeiros meses de 1924 internado num sanatório, em Kierling, perto de Viena. Ali vem a morrer a 3 de junho do mesmo ano, quando faltava apenas um mês para completar 41 anos de idade. Seu corpo foi translada a Praga, onde seus restos mortais repousam no Novo Cemitério Judeu. Lá, um velho judeu zela o túmulo (1986), ou seja, a última morada do senhor das letras.
     "Kafka é o homem a quem a sorte reservou o destino que a voz popular confere aos gênios: serem reconhecidos apenas após a morte física (...). Talvez devido à sua grande timidez, talvez devido ao período conturbado em que viveu e as condições particulares de sua vida deve-se o fato de que o genial escritor passa ignorado dos seus contemporâneos" (4).
     Mas esse reconhecimento veio. Apesar de póstuma, a glória veio - o mesmo ocorreu com Vincent van Gogh -, "inalterando a memória de um homem que passou todo a sua vida se escondendo do mundo. O mundo subjetivo, do inconsciente, participando ativamente da vida normal , porém não o descreve como um espectador, mas emergindo desse mundo, com toda sua genialidade, numa tentativa sempre repetida em todos os seus trabalhos (A metamorfose, O castelo, O processo, entre outros), de desvendá-lo sem se desvendar" (4). 
     Franz, desde criança "experimentou na carne a marginalização sob todos os seus aspectos" (5), principalmente por ser judeu. Os judeus, em qualquer tempo e em qualquer lugar, sempre foram perseguidos ou sofreram desconfiança por parte dos demais segmentos populacionais. 
     "Some-se a esses aspectos culturais e históricos um aspecto psicológico pessoal: o sentimento de apartamento (no sentido de aprisionamento) que marcou o adolescente e o adulto, fato que se confirma ao serem  lidos seus Diários ou a famosa Carta ao Pai" (5).
     Se destruídos seus escritos - como foi determinado ao amigo -, o mundo não teria ao seu alcance - "um dos mais contundentes documentos sobre a modernidade, a tentativa da afirmação da racionalidade e, ao mesmo tempo, a vitória da irracionalidade" (5).
     Esse é o fascinante dom da comunicação por gestos ou por palavras entre os humanos, sendo pronunciadas ou escritas. E quando o pensamento desse ser é exteriorizado, fica completo o tripé da evolução do homem. Aí, entram em ação os gênios e seus feitos grandiosos. Muito embora, nem sempre para o bem da humanidade. Grandes líderes e perversos governantes da História Universal, também foram meticulosos, estrategistas, e por que não, geniais (mas sempre voltados para as guerras, para a destruição, para o genocídio). Não se trata do personagem ora abordado, mas, apenas para exemplificar os dois lados dos criadores das artes existentes.
     Kafka, por assim dizer, tinha uma perspicácia tão definida como escritor que foi capaz de antecipar "os sistemas de força que negariam a individualidade, como o socialismo soviético, que começava a ser então edificado, ou o nazismo, que logo depois tomaria conta da Alemanha, matizada pelo fascismo de Mussolini na Itália, etc. Kafka foi moderno porque sua literatura surpreende a inadequabilidade do ser humano ao mundo crescentemente maquinizado, coisas, instrumentos de poder, negadas em sua essência e em sua identidade" (5). 
     Imagine você, alguém pensar assim (e escrever), há mais de 1 século. Ele que viveu o século XIX, quando jovem; viveu o século XX, quando adulto e nato observador daquelas duas décadas, quando parte da Europa perpetrava a Primeira Guerra Mundial, de um lado. Do outro, a embrionária Revolução Russa, que tal qual uma guerra declarada, matou milhões de inocentes russos.
     Nesse contexto, pergunta-se: como poderia ser, então, o seu estilo literário, o gênero literário? "Kafka ficou conhecido pela descrição concisa e lúcida de situações incompreensivas, e pelos cenários em que os indivíduos são esmagados pelo Estado" (3).
     Meu ex-professor de Direito Penal, Lourenço Pereira dos Santos Braga, atual Secretário da SEDUC/AM, o qual costuma dizer nas suas prelações que todo acadêmico de Ciências Jurídicas tem obrigação em conhecer, principalmente O processo, de Kafka. Eu, humildemente foi além do grande mestre, recomendando ainda, a leitura do O castelo, Na colônia penal, A muralha da China (tradução de Torrieri Guimarães),  todos kafkianos. Também, não pode falta à nossa leitura: "Franz Kafka: vida heroica de um anti-herói", de Danilo Nunes, edições Bloch. Há uns 30 anos, quando li A metamorfose ( não lembro o nome do tradutor) fique fascinado. De lá para cá li tudo que encontrei desse autor. Ainda não conheço Carta ao Pai. Faça, o mesmo você, amigo leitor e terá uma viagem pelo mundo das letras com rotas inesgotáveis.

     Pesquisa e texto: Francisco Gomes

     Fontes
     1. Alcure, Lenira, "Praga: pelos caminhos de Franz Kafka", Rev. Geog. Universal, setembro de 1986, páginas. 43/52.
     2. Nova Barsa, vol. 8, 1996, páginas 381/382.
     3. 502 Grandes Escritores, Sextante, 2009, página 388
     4. Kafka, Franz. A Muralha da China, Exposição do Livro, São Paulo, tradução, Torrieri Guimarães, anos 60 (?)
     5. 100 Autores que você precisa ler, L e PM Pocket, 2012, "Franz Kafka", por Antonio Hohlfeldt
   
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