Charles Baudelaire: "o poeta pecador"

   
Retrato de Baudelarie por Goupil Studio
Natural de Paris, Charles-Pierre Baudelaire, nasceu a 9 de abril de 1821 e lá morreu a 31 de agosto de 1867, aos 46 anos. Ainda menino ficou órgão de pai. Sua mãe casou-se novamente, desta vez, com um oficial do exército, que chegou à patente de general. 
     Foi essa figura autoritária que internou o jovem no Collège Royal, e depois no Collège Louis-Le-Grand, em Paris, do qual foi expulso em 1839, aos 18 anos, por indisciplina. Os dois anos seguintes viveu de forma dissoluta, gastando parte da herança paterna. Vindo a acumular dívidas. Preocupada, a família transferiu o restante do dinheiro para as mãos de um administrador, reduzindo os gastos do dono a níveis mais moderados.
     Nesse período de boemia parisiense, Baudelaire passa a fazer parte do mundo artístico e literário. Porém, ele não percebia que "no meio do caminho" estavam duas grandes pedras como obstáculos à sua futura carreira literária: uma, a total incompatibilidade de gênios que nutria pelo padrasto desde a infância; a outra, da própria família, que repudiava sua precoce vocação pelas letras. Por isso, em 1841, aos 20 anos, foi mandado para a Índia, supondo-se que dessa forma seriam frustradas suas pretensões. Erro total. No ano seguinte, o rapaz retornou à França decidido, definitivamente, por se entregar à carreira artística. 
     Assim o fez. Escreveu uma série de poemas que posteriormente fariam parte da coletânea As flores do mal, cuja obra atrairia a atenção do público e a censura das autoridades ao ser publicada em 1857. Nessa época o autor já era respeitado como crítico e ensaísta e, também, por seu único romance concluído, A Fanfarlo (1847), bem como pelas brilhantes traduções dos trabalhos de Edgar Allan Poe e Thomas De Quincey.


Ilustração de Charles Maurin sobre as Flores de Mal (1981)
     "Recusando-se a aderir ao movimento romântico, procurou se manifestar artisticamente através de uma poesia interpretativa isenta de figuras e pensamento institucionalizados, porém rica em símbolos e prenhe de rebeldia formal. Seu questionamento de Deus não possui o mínimo resquício de crenças religiosas: sua cruzada em busca do verdadeiro significado da realidade detinha-se em toda a manifestação vital, desde o colorido de uma flor até os trejeitos de uma prostituta" (1). 
     Grande parte dos poemas que compõem As flores do mal foi inspirada "em sua paixão pela mulata Jeanne Duval". Mas, isso custou caro ao criador: "Processado por haver veiculado blasfêmias e obscenidades", atentando assim, contra aos bons costumes. A condenação por um tribunal, foi-lhe inevitável, com o pagamento de uma multa de 300 francos (isso há 160 anos), e de seis poemas suprimidos do livro, por serem malditos - Lesbos, Les damnés, Le lethé, À celle qui est trop gaie, Les Bijoux, Les métamorphoses du vampire.  
     Tem mais: "Por muito tempo 'esse blasfemador' foi considerado o símbolo de devassidão e pecado". No entanto, Baudelaire continua "sempre atual". E um detalhe curioso, mas real: "Mais do que qualquer outro poeta de sua geração, tornou-se o intérprete maior da civilização industrial moderna, que se iniciava com o século XIX" (1).
     "Em sua maturidade", ou seja, aos 40 anos de uma vida, ora sossegada, ora atribulada, O SENHOR DAS NOITES, volta a  comportar-se erroneamente como querendo completar o que deixara inacabado quando tinha 20 anos. Agora, novamente, passa a lutar com terríveis dificuldades financeiras, consumindo o resto da herança que herdara com bebidas, narcóticos e mulheres. Por falar em narcóticos, é dele o estudo Les paradis artificiels (1860), que trata dos "efeitos do haxixi e do ópio sobre a mente humana" (1). 
     Por que "poemas indecentes"? "A coletânea de poemas de Baudelaire, As flores do mal, é, para muitos, sinônimo de escândalo. O tratamento audacioso do sexo e da morte logo despertou a atenção das autoridades. (...) Ele usa o modo lírico para explicar o gosto pelo vício e pelo pecado, o sentido exasperado de conflitos existenciais, a depravação da vida parisiense, bem como seus anseios românticos e carnais. Na busca poética pelo ideal, nas tentativas visionárias de atingir o transcendental, Baudelaire antecipou muito do que estava por vir em o movimento simbolista" (2). 
     Após sua morte, foi publicada a segunda edição de As flores do mal, à qual foram acrescentados 24 poemas, entre eles estão Oração de um pagão, O imprevisto, O rebelde, O repuxo, O abismo, entre outros. Leiamos, a seguir, fragmentos de três deles:

     Tua chama não se apague;
     O meu coração aviva,
     Volúpia, da alma o azorrague!
     Supplicem exaudi! Diva! (*)
     (*) ("Escuta o suplicante, deusa!)

     Volúpia de glória cheia!
     Toma forma de sereia
     Feita de carne e veludo.
            (Oração de um pagão)

                         Teus olhos são lassos,** amante!
                         Olhos em sono a se perder,
                         Nesta posição tão distante
                         Pôde surpreender-te o prazer.
                         E pelo pátio o jorro de água
                         Não cala nunca o seu rumor,
                         E entretém a extasiada mágoa
                         Em que pôde atirar-me o amor.
                          ** assim mesmo ( do latim lassu)
                                         ( O repuxo)
    
                                            Este é o amor!
                                            E bem antes que seja apática
                                            Tua alma, a Deus acende a tua crença extática;***
                                            Esta é a volúpia ideal, 
                                            A que jamais se trunca!
                                             *** assim mesmo (do grego ekstátikós)
                                                        ( O rebelde)

     Não foram apenas o comportamento errante, os poemas e a ousadia desse poeta que fizeram as autoridades conservadoras francesas recolherem seu livro e aplicar-lhe uma multa. Ele incomodava (e muito) a classe dominante parisiense. Daí, ser considerado como o "poeta da má consciência da burguesia. Baudelaire expiou as covardias e os compromissos da época e previu o processo de decomposição de seu mundo". (3)
     No posfácio de As flores do mal, o tradutor Jamil Almansur Haddad, em sete páginas, faz uma excelente exposição sobre a vida e a obra do "poeta pecador". Segundo esse mestre, "com Baudelaire, a poesia começa a ser outra coisa", ou seja, o ponto de partida da poesia moderno. Antes dele, a poesia era inspirada, depois dele, ficou sendo inspiradora (surge, então, o conceito de "poesia pura")
. Embora o processo tenha sido traumático em sua vida, "nosso poeta não deixa de colocar no tapete da discussão problemas de ordem puramente ética", conclui Almansur.

     "No início da década de 1860, Baudelaire concentrou boa parte de suas energias na escrita de prosa. Foi também nessa época que sua saúde física e mental ficaram em condições bem precárias, principalmente em razão da incidência da sífilis que o havia afligido na juventude. Depois de dois anos fracassados na Bélgica, foi vítima de um tombo muito sério que o deixou incapaz de ler e escrever. Passou o último ano (1867) de sua vida em um sanatório parisiense" (2).
     Por aqui, na nossa plaga tupiniquim, quem foi (ou quem é) nosso Charles-Pierre Baudelaire?

     Pesquisa e texto: Francisco e Winnie Gomes

     Fontes
     1. As flores do mal, Charles Baudelaire, Trad. e pósfácio, Jamil Almansur Haddad, Círculo do Livro, São Paulo, 1980.
      2. 501 grandes escritores, Sextante, Rio de Janeiro, 2009, páginas 180/181.
      3. Baudelaire: pequenos e grandes poemas, Correio Amazonense (caderno Aplauso), 10.03.2006.
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