O "Mundo Melhor", de Beth Carvalho

Vinil de Beth Carvalho - Acervo Pessoal
       No último dia 5 deste mês, Elizabeth Santos Leal de Carvalho, ou melhor, a cantora carioca Beth Carvalho completou 72 anos de idade. Em 26 de outubro de 2016, o Facetas homenageou essa maravilhosa sambista, com o artigo: "Chorei por ti, Argentina" por causa da participação de Mercedes Sosa no disco "Beth".
    Agora, o comentário sob o título "Beth Carvalho, como o nome indica", vem de um grande compositor e, também cantor, feito quando a "menina" completou 30 anos de vida. Senão, leiamos na íntegra, a seguir:

  "Repito: Beth Carvalho. Pra bom entendedor, duas palavras bastam. Só podia ser nome de moça carioca, meiga e bonita, e cheia de bossa pra cantar samba.
     Não deu outra coisa. Beth Carvalho é um encanto de pessoa, e sua vocação para o samba é absolutamente visceral. Estudou piano e violão, é claro, e praticou balé, arte na qual é amarrada e de que sofre frequentes recaídas. 
     Poderia ter dado uma boa bailarina moderna, se quisesse, - e não  houvesse no meio do seu caminho não a pedra de Carlos Drummond, mas uma maravilhosa pedra-90, esta doce figura de sambista e ser humano que se chama Nelson Cavaquinho. Porque Beth e Nelson Cavaquinho são como unha com carne. Ela não faz nada onde ele não esteja representando.
     Embora só considere realmente profissionalizada de uns quatro anos para cá, Beth começou bem mais cedo, já no final da bossa nova, que muito curtiu e cantou. Mas sua ligação mais forte era com bons crioulos do samba, aqueles que botam pra gemer mas quadras das Escolas, aqueles que são os seus mais autênticos criadores porque mais próximos de suas raízes; aqueles que fazem a música que movimenta o grande desfile de Carnaval - hoje em dia unanimemente considerado o melhor espetáculo do mundo. 
     Depois de seu lançamento em compacto pela RCA, no ano de 65, Beth Carvalho começou logo a fazer shows: o primeiro com Zé Kéti, em 1966, chamado "A Hora e Vez do Samba", no Teatro de Arena. Aí vieram as sextas-feiras no Teatro Jovem, com a moçada do samba rasgado em generosa tentativa de fazê-lo reencontrar o seu lugar à Lua. O movimento Música Nossa levado a efeito em 1967, no Teatro Santa Rosa, contou também com o desempenho entusiasta da garota da Gamboa, que se sentia cada vez mais ligada ao samba de morro, ao samba como o praticaram Ismael Silva e Heitor dos Prazeres; como o concebem Cartola e Nelson Cavaquinho; como o cantam e dizem-no-pé as pastoras na Avenida, naquele agudo acima da pauta, que forma aquela linda trama estelar de vozes amigas que caminham juntas.
     E logo veio o LP "Música Nossa", ao lado de outros cantores, onde havia "Viola Enluarada",  dos irmãos Valle, e "Contraste", de Edmundo Souto e Arnoldo Medeiros. E em seguida os Festivais: de início o Universitário, em 68, onde Bethânia defendeu "Meu Tamborim", de Cesar Costa Filho e Ronaldo Monteiro de Souza, e depois o 3º Internacional, onde apresentou "Andança", de Edmundo Souto, Danilo Caymmi e Paulinho Tapajoz  (com z). Que deu nome, aliás, ao seu primeiro LP gravado na Odeon, e onde havia, entre outros, "Sentinela", de Milton Nascimento e "Carnaval", de Carlos Elias, da Portela. 
     Em 1969 partiu para Atenas, onde defendeu a canção "Rumo Sul", de Edmundo Souto e Paulinho Tapajoz, alcançando um horroroso 4º lugar. Na volta fez shows com Marcos Valle e Milton Nascimento, no Teatro Toneleros, a que se seguiram vários outros. - "Mas tudo era feito com um espírito meio amador" - confessou-me ela de olhos baixos, com aquele ar meio encafifado que tem quando fala de si mesma. 
     E aí veio a gravação de "Só Quero Ver", também de Edmundo Souto e Paulinho Tapajoz. O samba emplacou pra valer e ao vê-la cantando nas rodas-de-samba de Salgueiro e Mangueira - Beth é mangueirense doente - sentiu ela mais do que nunca ser aquele o seu verdadeiro gênero: o samba tal como é praticado nas Escolas, sem apelações nem muita frescura nos arranjos. Sem subterfúgios. Aquele que entre pelos ouvidos e sai pelos pés, com trânsito em alta-voltagem nas cadeiras, tal uma corrente elétrica que vai aumentando de intensidade até que se descarrega.   
     Em 1971 Beth Carvalho gravou um samba-enredo da Unidas de São Carlos, chamado "Rio Grande do Sul na Festa de Prêto Fôrro", já contratada pela Odeon. Em 1973 fez seu segundo LP, "Canto por um Novo Dia". No terceiro, chamado "Pra seu Governo", havia "Mil e Oitocentas Colinas" e "Tesoura Cega". A este seguiu-se "Pandeiro e Viola". Neste ano de 76 Beth voltou para a RCA onde gravou o presente LP, com produção de Rildo Hora, e a que deu o título de um samba do meu muito amado Pixinga, com letra minha: "Mundo Melhor". Mundo, aliás, como Beth gostaria que fosse. Bem melhor que este em que vivemos, onde as pessoas se amassem e entendessem, e que fosse também socialmente mais justo. 
     Canta ela doze sambas, todos de gabarito, com instrumentação bem simples, onde ressalta o trabalho do cavaquinho  de Alceu Maia com apoio dos violões barra-pesada de Rosinha de Valença, Manoel da Conceição e Dino "Sete-Cordas". Comparece, é claro, toda a turma da Fina Flor do Samba, ou seja: Juca, Ovídio, Ruy, Joel, além do já citado Alceu. No trombone está Zé da Velha, que pela primeira vez pisa num estúdio de gravação. É a boa gente que se reúne no "Sovaco da Cobra", na Penha, para curtir e tomar umas-e-outras enquanto Seu Lobo não vem.
     Quer dizer, não paga dez, não é, Bethinha?
     Vinicius de Moraes, Rio, julho de 1976".

     De lá para cá, nessas 4 décadas, Beth gravou muitos LPs e CDs, contagiando fãs e admiradores com sua música. Atualmente a artista enfrenta problemas de saúde, mas, breve estará restabelecida. É o que todos esperam. Afinal, tem Carvalho no seu nome. 
     E que, as palavras do Poetinha (1913-1980), sejam um mandamento, segundo o qual, as pessoas possam viver num mundo mais justo, mais amável, mais compreensível, onde possa reinar o entendimento humano entre aqueles que acreditam ser a esperança a última que morre.

     Pesquisa, texto e arte de Francisco e Winnie Gomes

     Fonte
     1. LP "Mundo Melhor" (capa e contracapa), Beth Carvalho, RCA, São Paulo, 1976.
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