Nobel: o cientista autodidata

   
       No mundo inteiro, poucos nomes suecos são tão conhecidos quanto o de Alfred Barnhard Nobel (1833-1896). Porém, o grande público quase nada conhece a respeito do homem por ele designado. Ás vezes, sabe-se apenas "que foi um grande inventor, mas fica-se em termos vagos quando se procura precisar o que inventou a fora a dinamite".
Imagem: Livro
     Por estranho que possa parecer, Alfred, "praticamente nunca foi à escola", embora tenha iniciado os estudos aos oito anos de idade, mas só ficou na escola por um ano. A família rumou para São Petersburgo. E, tanto ele como seus irmãos, passaram a receber instrução (reforço escolar, como se diz por aqui) de um preceptor particular. Em  razão desse sobressalto, "jamais frequentou qualquer Universidade, nem obteve diploma".
     Contudo, o menino estava muito à frente de outros estudantes, "tanto pelos conhecimentos como pela maturidade de espírito. Era, então, um químico de formação científica, notável linguista conhecedor do alemão, inglês, francês, além do sueco e russo. Interessava-se seriamente pela literatura, especialmente pela literatura inglesa; de modo geral, tinha uma visão clara das ideias diretoras de sua filosofia pessoal da vida. As cartas que escreve nessa idade (16 anos) dão a impressão de um adolescente precocemente desenvolvido, de inteligência excepcional, mas doentio, sonhador, habilitado à introspecção e apaixonado pela soledade".  
     Com a ajuda financeira do pai, o jovem viajou ao estrangeiro por dois anos. Conheceu a América, mas precisamente os EUA. No entanto, as temporadas mais longas foi em Paris, onde prosseguiu em vários laboratórios seus estudos em Química. Ao fim dessa temporada, em 1852, foi trabalhar na fábrica paterna, onde ficou até a falência da mesma em 1859. Como precisava ganhar a vida, "começou suas experiências com nitroglicerina, descoberta em 1847 pelo sábio italiano Ascanio Sobrera".
     A primeira explosão realizada pelo jovem cientista ocorreu em 1862. No ano seguinte patenteou na Suécia, sua invenção: um detonador de percussão chamado "processo Nobel". Em Helensburgo, perto de Estocolmo, implantou uma pequena empresa para a fabricação de nitroglicerina. Mal começara a produção quando em setembro de 1864, a fábrica explodiu, matando várias pessoas, entre elas Emil, o irmão caçula do dono. Naturalmente que a família ficou deveras abalada. Contudo, o entusiasta pesquisador "jamais perdeu a coragem. Em um mês, organizou uma companhia sueca pra a fabricação de uma nitroglicerina menos perigosa, e, logo depois, uma companhia norueguesa". 
     O negócio cresceu. A produção aumentou. Foram obtidas outras patentes. Surgira, novas Sociedades de ações. Mas, para tanto, grandes obstáculos tiveram de ser vencidos. Até que a fabricação de nitroglicerina se converteu em indústria mundial. 
     "Além desse trabalho de organização que o forçava (o inventor) a deslocar-se continuamente para a França, Inglaterra e América, prosseguiu em suas pesquisas científicas, vindo a encontrar um novo explosivo mais aperfeiçoado, a dinamite, que patenteou em 1867, quando era um jovem senhor de apenas 34 anos de idade. Depois disso, uma descoberta seguia-se a outra".
     A partir daí, materialmente, tornou-se um homem muito rico. "Nunca, porém, alcançou a felicidade, e amiúde conheceu decepções no trato com outrem". São deles estas palavras        

      "Fala-me de meus numerosos amigos, mas onde estão eles? No fundo lodoso das ilusões perdidas, ou demasiado ocupados em escutar o retinir do metal somente de suas economias? Creia-me, só fazemos numerosos amigos entre os cães que nutrimos com a carne alheia, ou entre os vermes que alimentamos com a nossa própria substância. Os estômagos saciados e os corações reconhecidos são irmãos gêmeos ". 

      Isto retrata, naturalmente, o quanto Alfred, era um homem melancólico e um sonhador, "una espécie de eremita". Poe exemplo, tinha por hábito desaparecer, sem que ninguém soubesse do seu paradeiro. Segundo o próprio, ele agia dessa maneira para "viver entre as árvores e os taludes, esses amigos silenciosos que respeitam o estado de meus nervo, e fujo tão logo posso, tanto das grandes cidades como dos desertos".
     Percebe-se seus conflitos: agitação interna (cidade); vazio interno (deserto). Mas ali estava um Nobel (não Nóbel, como insistem alguns). Ali estava Alfred. Por sinal o termo Nobel é uma abreviatura de Nobelius, por ter o menino nascido na paróquia de Nobbelov.Ali estava um demolidor de obstáculos. E, apesar de poliglota nato, "o melhor de seu tempo, passava-o no laboratório, tão absorto nas pesquisas, que se esquecia de comer. Em compensação, não era escravo do trabalho, e quando, porventura, encontrava uma alma chegada à sua, mostrava-se cortês, cheio de inspiração, perfeito homem do mundo". Apesar da sua aversão pela consagração, pela fama. Isso explica a vida de recluso que levava. Queria viver em paz. longe de badalação.
     Poucas foram as honrarias que as recebeu em público. Uma delas a Ordem Brasileira da Rosa, haja vista, ter sido casualmente apresentado ao Imperador Dom Pedro. "Era um homem solitário. E, por sua natureza sensível, sofreu enormemente a desdita de não possuir um lar", propriamente dito. Sueco, sim. Mas desde os nove anos deixara de morar na terra natal. Aliás, nunca se fixou em parte alguma. "Morava" mesmo nos laboratórios. Isso não quer dizer que ao longo da vida, deixou de ser um verdadeiro sueco. Apenas "ficava" nos lugares onde esteve, fora de Estocolmo.
     Em 1975, adquiriu uma casa em Paris, na Avenida Malakoff, mas quando achou pequeno o laboratório, construiu outro em Sévran, subúrbio parisiense. Lá, também, não ficou. Em 1890, partiu para San Remo, Itália, onde comprou a vila Mio Nido. Nela faleceu em 10 de dezembro de 1896, aos 63 anos. 
     Ninguém foi mais respeitoso e devoto aos pais, à família. Tinha adoração pela mãe. A qual ficara rica por intermédio do filho. Mas sua riqueza era utilizada para fazer caridade sem dificuldade alguma. Quando morreu, esse filho recusou a herança por ela deixada. Transformando-a em doações feitas em sua memória, ou em presentes a parentes e amigos.
     Não se sabe de alguém que tenha sido mais munificente do que Nobel. Suas liberalidades ultrapassavam, os limites de seus de rendimentos. A sua generosidade tinha origem em sua crença religiosa. "Para ele, a religião só tinha valor, se se exprimia pelo amor à humanidade (muitos o acusaram de ser ateu, adversário de toda fé religiosa). Mas seu pretenso ateísmo era de uma espécie particular".
     Contudo, o notável professor da Universidade de Upsália, Henrik schuck, de quem extrai praticamente todas as citações neste artigo ilustradas, se manifesta dessa forma, sobre o tema religião: "Em suma, Nobel era tão pouco inimigo da religião, que provavelmente mui poucas pessoas apreciaram mais que ele os valores espirituais da vida".
     "Da mesma forma, suas convicções políticas não eram tão radicais quanto se disse. Sem dúvida alguma, impressionara-se com o niilismo russo, que tinha grande expressão na época de sua juventude; e era inimigo declarado do despotismo   ditatorial do Czar. Contudo, nada tinha de anarquista, muito ao contrário", declara o mestre acima citado.
     Após a sua morte foi encontrado "um princípio de romance, em que um dos heróis, com significativo nome Senhor Futuro", onde narra todo o seu próprio programa político. É Futuro que declara, só existir "no mundo três espécies de governo: a autocracia hereditária, a monarquia constitucional e o governo republicano. Todas elas são igualmente más".


Túmulo de Nobel, em Estocolmo (Imagem: Livro)

     Nesse contexto, teria nascido no cientista, o interesse pela PAZ entre as nações, entre os homens. Em 1895, um pouco mais de um ano antes de sua morte, redigiu seu último testamento. "É um documento precioso, no  mesmo define seu programa pessoal em favor da Paz". Para tal, destinava parte relevante de sua fortuna para premiar o homem ou a mulher que tenha persuadido a Europa a dar o primeiro passo no rumo de uma PAZ GERAL.
     É tudo tão real, tão interessante, que o Facetas se compromete com os seus seguidores, que ainda neste mês, será publicado um artigo sobre o testamento de Nobel, a Fundação Nobel, as cinco modalidades (categorias) de premiação que vendo feita há quase 120 anos, os países com mais laureados, etc. Aguardem. Imperdível!

     Pesquisa e texto: Francisco e Winnie Gomes
  
     Fonte
     1. Nobel: o homem e seus prêmios., trad. Elias Davidovich, Opera Mundi, RJ, 1975. Esboço biográfico, prof, Henrik Schuck.
                  
Tecnologia do Blogger.