Um Nobel para o Brasil!

     No dia 9 deste mês, o Facetas fez um esboço biográfico sobre Alfred Nobel (1833-1896), sob o título: "Nobel: o cientista autodidata". Hoje, o relato está voltado para a Função Nobel, principalmente, com observações do engenheiro Ragnar Sohlman.
     Inteligente (e persistente), trabalhando suas pesquisas continuamente, já homem maduro, Alfred acumulou, honrosamente, uma fortuna material, mas sem perder de vista o horizonte científico. "A ciência era para ele uma fonte de salvação, especialmente as ciências naturais, pois no seu parecer é de seu progresso que depende a felicidade das gerações futuras".
     Acreditava ser possível existir a PAZ entre os homens, entre as nações, entre os povos. Por essas e outras convicções, um ano antes de sua morte, a qual ocorreu a 10 de dezembro de 1896, ele redigiu seu testamento. O teor do documento é magnífico, e foi traduzido para o português, por Elias Davidovich, cujo teor, na íntegra, é este: 

     "Todo o resto da fortuna realizável por mim deixada ao morrer será empregado da maneira   seguinte: o capital, colocado por meus executores testamentários em valores móveis seguros, constituirá um fundo, cuja renda será distribuída, cada ano, a título de recompensa, às pessoas que, no decorrer do ano precedente, tenham protestado os maiores serviços à humanidade. Essa renda será dividida em cinco partes iguais. A primeira será atribuída ao autor da descoberta ou invenção mais importante no domínio da Física; a segunda, ao autor da descoberta ou invenção mais importante em Química; a terceira, ao autor da descoberta mais importante em Fisiologia ou em Medicina; a quarta, ao autor da mais notável obra literária de inspiração idealista; a quinta, à personalidade que mais ou melhor tenha contribuído para aproximação dos povos, para a supressão ou redução aos exércitos permanentes, para a reunião ou propagação dos congressos pacíficos. Os prêmios serão assim conferidos: o de Física e o de Química, pela Academia Sueca de Ciência; o de Fisiologia e Medicina, pelo Instituto Carolino de Estocolmo; o de Literatura, pela Academia de Estocolmo, e o de Defesa da Paz, por uma comissão de cinco membros eleitos pelo Storting (Parlamento) norueguês. Desejo expressamente que os prêmios sejam conferidos sem qualquer consideração de nacionalidade, de modo a serem atribuídos aos mais dignos, sejam ou não escandinavos. 
                                                                                                             Paris, 27 de novembro de 1895,
                                                                                                             Alfred Bernhard Nobel". 

    

Carta escrita a mão por Nobel
     
        A 20 de junho de 1900, quase 4 anos após a morte do pesquisador, o governo sueco publicou um decreto reconhecendo oficialmente, o estatuto e os regulamentos da Fundação. Também especificava as obrigações do do júri sueco no exercício de sua função. Assim, estavam superados os trâmites burocráticos e judiciários.   
     Então, ficou nessa ordem: enquanto à Suécia cabe o direito de escolher os laureados de Física, Química, Medicina e Literatura, cuja premiação ocorre anualmente a 10 de dezembro - data da morte do cientista -, à Noruega é dado o direito de conferir ao vencedor o Nobel da Paz, como rezava o testamento. 
     O primeiro gestor da Fundação Nobel, foi o jovem engenheiro Ragnar Sohlman, amigo, colaborador e executor do testamento de Aldred. Por sinal, o acompanhou, quase diariamente, nos três últimos anos de sua vida. Porém, Ragnar só ficou sabendo da decisão do autor após ser aberto o documento.
     Desde então (1901), as premiações vêm ocorrendo rigorosamente todos os anos. Naquele ano inicial o quadro dos vencedores foi este: Literatura, o francês Sully Prodhomme; Física, o alemão W. C. Roentgen; Química, o holandês J. H. van't Hoff; Medicina, o alemão E. A. von Behring; e o da Paz, o suíço J. H. Dunant e  o francês F. Passy. 
     Os laureados dos Prêmios Nobel de 33 países e Instituições como a Cruz Vermelha, totalizam 405, entre 1901 a 1970. Nessas 7 décadas, em primeiro lugar, os EUA, com 104 títulos. Sendo 39 deles de Medicina; em segundo lugar, a Grã-Bretanha, com 62, sendo 18 de Química; em terceiro lugar, a Alemanha, com 55, sendo 22 de Química; em quarto lugar, a França, com 41, sendo 11 de Literatura - imbatível! Quem se aproxima com 6 prêmios cada, são os EUA, a Alemanha e a Grã-Bretanha. Em 33º lugar - o último até aí -, a União Sul-Africana com 2, um de Medicina e um da Paz.
     Hoje, 117 anos de atividade (ainda não foi divulgada a lista dos contemplados de 2018), os 10 países como maior número  de laureados da história daquela Fundação, são: 10º, Itália com 20; 9º, Canadá com 23; 8º, Japão com 25; 7º, Suíça com 26; 6º, Rússia com 27; 5º, Suécia com 31; 4º, França com 67; 3º Alemanha com 105; 2º, Reino Unido com 120; e 1º, EUA com 355 (3). 
     Completando o esboço biográfico, publicado há duas semanas, a seguir alguns traços sobre o homem e o profissional Alfred. As considerações mais apropriadas foram escritas pelo seu fiel colaborador Sohlman, que são: "Nobel morreu tão só como vivera".
     Nos círculos industriais e financeiros, suas atividades eram, sem dúvida, muito conhecidas e respeitadas. Porém, sua aversão em aparecer publicamente e a repulsa por divulgação à sua imagem, foram suficiente para mantê-lo desconhecido do grande público, dentro e fora do seu país.
     No entanto, com a morte de sua mãe e a saúde começar a declinar, sentiu a necessidade em ter algum amigo. "Essa contradição interior entre sua vida afetiva e a vida intelectual não era a única. Na verdade, seu caráter estava cheio de outras oposições, que várias vezes puseram em conflito suas ideias e seus atos" (1).
     No política, considerava-se um social-democrata. Na prática, suas ações estavam muito distante dos dogmas da social-democracia. Pelo menos, não era democrata no sentido lato do termo. Por exemplo, nas suas fábricas, mantinha deliberadamente uma barreira entre sua pessoa e os operários.
     Contudo, com seus domésticos era um amo generoso, mas sem deixar de exigir deles rigoroso respeito à etiqueta, ou seja, "jamais lhes permitindo a menor familiaridade, e guardando as distâncias mesmo quando estava doente".
     Sobre essa questão, a escritora austríaca Bertha von Suttner (1843-1914), relata seu primeiro encontro com o senhor Nobel: "Tinha apenas 43 anos, era relativamente baixo e usa barba negra; as feições não eram feias nem belas, a expressão sombria era todavia iluminada pela benevolência dos olhos azuis. O tom de voz era melancólico, ora irônico".
     Como já frisei, a premiação ocorre anualmente em dezembro. Só para lembrar, em 2010, o escritor peruano Mario Vargas Llosa, foi o contemplado com o Nobel de Literatura. "O Brasil nunca ganhou um Nobel. Entre os latino-americanos, além de Peru, Colômbia e Costa Rica já ganharam uma vez. Guatemala, Chile ganharam duas vezes. México recebeu o Nobel 3 vezes. E a Argentina já tem 5 prêmios Nobel. Dois de Medicina, um de Química, um da Paz e um de Literatura" (2).
     O motivo que nos distancia dos demais, "É fácil percebê-lo. Falta de educação. Sem educação não há futuro para o Brasil" (2).
    "Aqui, a educação se pauta pela mediocridade. O ensino fundamental mal alfabetizado e não ensina a raciocinar, a pensar. O ensino superior é tão fraquinho que a licenciatura, o bacharelado, não bastam. Foi preciso criar pós-graduações. Que são fracos a ponto de estarem a exigir pós-doutorados"(2).
     Li, há alguns anos, uma reportagem numa revista (sem referência), que Carlos Chagas (1879-1934), renomado médico mineiro, incansável pesquisador e cientista brilhante, descobridor do protozoário Tripanossoma cruzi (nome em homenagem ao amigo, o também médico Oswaldo Cruz) e da Tripanossomíase Americana, conhecida como Doença de Chagas. Segundo o estudo, seu currículo, preenchia todos os requisitos acadêmicos para ser laureado com o Nobel de Medicina. Mas, foi ele vítima de uma campanha destrutiva, quando seu nome circulou nos meios de comunicação do Rio de Janeiro, como candidato ao Instituto Carolino de Estocolmo. Quer saber de quem partiu esse boicote? De parcela da própria classe médica brasileira.
     Leia a biografia de qualquer um laureado com um Nobel, e ficará sabendo que o candidato teve seu nome apoiado por considerável parcela da sociedade do seu país: governo, comunidade científica e literária, imprensa, etc. com o intuito em "forçar" o Comitê de Premiações  eleger aquele candidato. Aqui no Brasil, foi o oposto. O objetivo maior era derrotar um homem que tanto fez pela Ciência, pelo país, pela humanidade, enfim.
     Isso tem nome. Chana-se 'Brasil que não consegue se firmar como nação', ou ainda, "um país sem personalidade", como costumava dizer o saudoso Doutor em Direito Administrativo, Mário Jorge Góes Lopes. "Só que educação medíocre não engana o futuro" (2).
     Mas, como nem tudo está perdido, fiquemos com esta observação do antropólogo mineiro Darcy Ribeiro (1922-1997):

                             "Sempre há o que aprender servindo,
                                                 vivendo e, 
                                      sobretudo trabalhando.
                               Mas só aprende quem se dispõe
                                      a rever suas certezas". 


     Fontes
   1. Nobel: O homem e seus prêmios. trad. de Elias Davidovich; "Fundação Nobel", por Ragnar Sohlman, Opera Mundi, RJ, 1975.
     2. Zero Nobel. Alexandre Garcia, Amazonas em Tempo, 12.10.2010.
     3. www. top10mais.org.
     
       
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