"1968: O ano das transformações"

     Há alguns anos li no Caderno Cultura, da Folha de São Paulo, uma longa reportagem com o título: "68-O Ano Que Não Terminou", numa referência ao livro do jornalista Zuenir Ventura. Foi um ano em que o mundo viveu pelo avesso. A sensação que se tinha era a de que todos reclamavam, quebravam, reivindicavam, inventavam, revolucionavam, transformavam tudo, em todo lugar. 
     Na América do Sul o cenário político-ideológico não era diferente de outros países. O Brasil, por exemplo, apesar de "deitado em berço esplêndido", vivia o quinto ano da ditadura militar, iniciada no primeiro semestre de 64. Vivia-se a era de chumbo. Quem ousasse discordar dos senhores generais, estava pondo a própria vida em perigo. 
     Quem nasceu naquele 68 e vivo permanece, hoje tem 50 anos de idade. Mas, aprendeu por meio de livros, filmes, teatro, jornais, revistas, TV, música, sala de aula e outros meios de comunicação (informação e formação) muita coisa de então.
     Passados 40 anos, ou seja, em janeiro de de 2008, o jornalista Amauri Segalla, publicou na revista Época uma excelente reportagem sob o sugestivo título: "1968: o ano das transformações". Por sinal, desse autor emprestei sua criação para titular este artigo. 
     Segundo Amauri, outras datas deixaram fatos marcantes, como 1789 (Revolução Francesa); 1945 (fim da Segunda Guerra Mundial); 1989 (a queda do Muro de Berlim), etc. "No entanto, nenhum deles possui a aura de magia que acompanha 1968. Quarenta anos depois, 68 continua enigmático, estranho e ambíguo como um adolescente em crise existencial. Ele foi o ano da livre experimentação de drogas. Das garotas de minissaia. Do sexo sem culpa. Da pílula anticoncepcional. Do psicodelismo. Do movimento feminista. Da defesa dos direitos dos homossexuais. Do assassinato de Martin Luther King. Dos protestos contra a Guerra do Vietnã. Da Revolução dos estudantes em Paris. Da primavera de Praga. Da radicalização da luta estudantil e do recrudescimento da ditadura no Brasil. Da Tropicália e do cinema marginal brasileiro. Foi, em suma, o ano do "êxtase da História", para citar uma frase do sociólogo francês Edgar Morin, um dos pensadores mais importantes do século XX. Foi um ano que, por seus excessos, marcou a humanidade. As utopias criadas em 68 podem não ter se realizado. Mas mudaram para sempre a forma como encaramos a vida" (1).
     Sem perder a coerência, Segalla assegura que boa parte daquelas reivindicações, hoje, não tem mais sentido (só para exemplificar: o esfacelamento da URSS), por um lado. Por outro,o mundo ficou mais rico; surgiram novos países; e a globalização que à época causava temor, "tornou-se um fenômeno irresistível". Isso significa, portanto, que nenhum desses acontecimentos teve raiz nos protestos e reivindicações daquele ano.
     Porém, "1968 deixou duas heranças: a aversão a toda forma de poder autoritário e a defesa dos direitos civis", seja na Europa, na América do Norte ou na América Latina.
     Mesmo que a juventude brasileira diretamente não tivesse consciência de como seguia o mundo "lá fora", precisava lutar contra o cerceamento artístico, opina a atriz Marília Pêra, que chegou a ser presa por duas vezes pelo regime. Ela quis dizer que algo precisava ser feito em prol da "liberdade comportamental".
      Pelas mulheres, surge a irreverente atriz Leila Diniz, aos 23 anos. Ela mesma que teve dedicado a si o poema "Leila, para sempre Diniz", do poeta Carlos Drummond de Andrade. Dois anos antes, em 1966, ela ganhou notoriedade com o filme Todas as Mulheres do Mundo. Contudo, sua trajetória foi efêmera: no auge, Leila morreu aos 27 anos, em 1972, num acidente de avião na Índia.  
     Ainda "lá fora", a maior banda da música mundial, The Beatles - tudo o que fazia ou dizia, virava mania, virava modismo para milhões de jovens que a  idolatrava, numa desenfreada busca de novos caminhos -, formada pelos quatro cabeludos de Liverpool, os quais resolvem fazer uma visita "ao guru indiano Maharishi Mahesh Yogi levando o Ocidente descobrir a espiritualidade".
     "No Brasil, grandes transformações na área cultural vieram no embalo da contracultura. A principal delas foi o tropicalismo, que ainda hoje reverbera especialmente na música popular brasileira. O movimento liderado por Caetano Veloso, Nara Leão e Gilberto Gil, entre outros artistas, propunha mudanças tão radicais que se revelaram inspiradoras para todas as gerações seguintes".
     Apenas algumas características desse movimento musical: "incorporou o uso da guitarra eletrônica e de gêneros como o bolero e as músicas de raiz". Isso foi o suficiente para provocar a revolta de alguns setores mais radicais da música, como um todo. "O tropicalismo só aconteceu porque vivia-se uma época que se experimentava de tudo", garante Segalla. Os Beatles, como já afirmei, representavam o maior conjunto de rock do mundo. Por falar em rock, ontem (13), foi, mais uma vez, comemorado mundialmente o DIA DO ROCK. Quando todos os fãs -  velhos e novos - mandaram seu recado, pelas rádios, pelos jornais ou pelas redes sociais. Foi muito legal!
     Continuemos, então, sobre 68. No final do mês de agosto daquele ano, foi lançado pela Philips o LP Tropicália - Panis et Circencis, com Caetano, Gil, Os Mutantes, Gal, Nara e Tom Zé. Esse disco contém 12 faixas, algumas como: Miserere nobis, Coração materno, Geleia geral, Baby, Hino do Senhor do Bonfim, entre outras. Esse trabalho é considerado o ponto de partida do movimento tropicalista (2).
     Um mês depois do lançamento, ou seja, no dia 28 de setembro, "ovos arremessados pela plateia impedem que Caetano Veloso cante "É Proibido Proibir" no Teatro da Universidade Católica, em São Paulo. Caetano grita: "vocês não estão entendendo  nada'".
     No teatro, a ousada peça marginal Roda Viva, de Chico Buarque, com Marília Pêra e dirigida por José Celso Martinez, irritou (e muito) os militares, por ser um marco da contracultura na época. Inclusive são de Pêra estas palavras: "Aquela geração tirou a máscara da hipocrisia. As pessoas se deram conta de que precisavam viver o aqui e o agora".
     Também, naquele 68, ocorreram os Grandes Festivais de Música.. Foi num deles, que surgiu a mais contundentes canções de protestos dos 21 anos da ditadura militar: Pra não Dizer que não Falei das Flores, de Geraldo Vandré, e por ele interpretada, a princípio. 
     Ao finalizar a reportagem, Amauri diz: "A geração de 68 atingiu, sim, seu ideal de transformar o mundo", isto é, onde quer que tenha ocorrido manifestações contra o que havia e precisava ser mudado.
     Em 1983, quando o regime militar já cambaleava por aqui, o qual veio a cair dois anos depois, em 85, o consagrado compositor Antonio Jorge Portugal, escreveu "Maio 68", cuja canção foi interpreta pelo excelente cantor e compositor baiano Raimundo Sodré. Na segunda estrofe está escrito:

                                Havia vestígios de hippies e Cohn Bendis
                                Os punhos cerrados violando o ar
                                Tropicaetanos, excelsos, travessos, gizs
                                 Em cada cabeça um mundo a mudar
                                 Se somos a soma  de tantas subtrações
                                 Outras gerações vão nos multiplicar
                                 O saldo é a semente plantada nos corações, ações
                                 Outras cabeças que possam sonhar (3).

     Espero que os nossos valiosos leitores gostem. Aos mais jovens, fica a lição do aprendizado sobre um pouquinho de 68; aos mais experientes, cabem relembrar de algo que viveu há 50 anos (meio século de vida). "E a cabeça gira...", como escreveu o poeta Gonzaguinha, ou melhor, a pergunta é: Como você acha que será lembrado 2018, daqui a 50 anos?

     Pesquisa e texto: Francisco Gomes

     Fontes
     1. 1968: O ano das transformações.Revista Época, n. 503, 7 de janeiro de 2008, pp. 60 a 69.
     2. CD Tropicalia - ou Panis et Circencis, Philips/Universal, originalmente, de 1968.
     3. Beijo Moreno, LP de Raimundo Sodré, PolyGram, 1983.