"A Amazônia está aqui!"

     Livros Raros": Bibliografia/Amazônia, com títulos de 210 obras. Adquiri esse levantamento em outubro daquele ano no Museu do Homem do Norte, que funcionava na Av. 7 de Setembro, no centro de Manaus.
Amazônida e a famosa seringueira. Fonte: Revista Visão
Em 1984, a Superintendência Cultural do Amazonas (hoje Secretaria de Cultura), por meio da Biblioteca Pública do Estado, lançou "
     O estudo é criterioso e muito original. Nele estão contidos dados de obras como: Álbum do Amazonas (1901-1902). Coleção de fotos do Amazonas antigo, publicado no governo Silvério Nery; A Amazônia em 1893, de Luiz R. Cavalcanti, contendo mapas sobre a navegação regular no Amazonas. Os trabalhos foram organizados em 1870 e concluído em 1893; Amazônia, de Onofre de Andrade. Trata-se de um esboço histórico de Geografia Física e Humana e a Etnografia do rio Juruá, de 1897; O vale do Amazonas e o problema da borracha, de Manuel Lobato, publicado em Nova Iorque, em 1912; Canção de fé e esperança, de  Álvaro Botelho Maia, de 1923. Trata-se de um discurso emocionante do "príncipe dos poetas amazonenses"; Le pays des Amazones, de F. J.de Santa-Anna Nery, de 1885. Histórico e de valor inestimável. Obra original em papel Japão Imperial; Inverno Verde, de Alberto Rangel, de 1927. Retrata cenas e cenários do Estado do  Amazonas; História do Rio Amazonas, de A. Santa Rosa, de 1926, entre outros.
     Até o final da década de 1980, eu frequentava aquela Biblioteca, para fazer pesquisas universitários ou simplesmente para leituras de livros antigos. Certa vez quis saber o porquê de A Selva, não constar entre as 210 obras do levantamento de 84. A resposta foi embaraçosa: O livro encontrava-se  no acervo bibliotecário da Universidade do Porto (ou de Coimbra), em Portugal. Durante muito tempo  perguntava a mm mesmo: "Como é possível: os professores recomendam a leitura desse livro, e você não encontra, sequer, um exemplar disponível?" 
     Passados vários anos daquela resposta da bibliotecária (que pelo menos soube dizer onde fora parar o livro), encontrei um excelente estudo de Humberto de Campos sobre A Selva. Por sinal, é desse crítico que extrai várias citações para este artigo, inclusive o título.
     A Selva, é de autoria de Ferreira de Castro, escritor português, editado pela primeira vez, em 1930, pela Livraria Civilização - Porto, Portugal. Classificado por Humberto de Campos de "um romance amazônico". E o mais significativo, até então sobre o tema abordado.
     Aquele membro da ABL, inicia assim, as suas avaliações literárias: "A selva é, porém, para os gritos, o que é o mata-borrão para a tinta: bebe-os, apaga-os, fazendo desaparecer na porosidade do seu silêncio as vozes de socorro dos condenados", ou seja, a luta do homem contra a natureza, do seringueiro, principalmente. 
     "Que temos nós, efetivamente, nos domínios literários, sobre a ilíada amazônica? O bastante, apenas, para não dizermos que não temos nada: 130 páginas de impressões de Euclides da Cunha, em À margem da História; os contos d'O Inferno Verde, do sr. Alberto Rangel; O Paraoara, do sr. Rodolfo Teófilo; Os desherdados, de Carlos de Vasconcelos; Na planície amazônica, do sr. Raimundo Morais; A Amazônia misteriosa e A Amazônia que eu vi, do sr. Gastão Cruls; e trabalhos esparsos de escritores regionais, a que podem ser adicionados alguns poemetos em que fixei as impressões da minha vida selvagem. Nenhum de nós escreveu, porém, a obra reclamada e necessária. O que interessa na Amazônia, à literatura é o homem, e, particularmente, o seringueiro e a sua tragédia".
     Humberto admite, que por pouco ter escrito sobre a Amazônia - uma dezena de sonetos descritivos, além do poema A morte do seringueiro -, falta-lhe "competência de crítico, julgador das excelências das obras literárias sobre a vida heroica   do homem nos seringais amazônicos, sobra-me em compensação, a de personagem obscuro no drama formidável". Apesar disso, diz ter lido A Selva, e "chegado ao fim do livro", podendo exclamar: "A Amazônia está aqui!"
     Diz ainda o crítico, ser o sr. Ferreira de Castro "o mais perfeito romancista estrangeiro das nossas tragédias obscuras, e o revelador literário do caudal de sofrimento que rola,  soturno e misterioso, por baixo da camada de ouro fluido, pela qual se afere a nossa prosperidade econômica".
     O romancista luso, por meio da escrita,contribuiu muito para desiludir o europeu que partia para cá à procura de "fortuna fácil". É o próprio Ferreira que garante que seu romance tem "uma causa mais forte, uma razão maior: a da humanidade".

     E resume: "Este livro é um curto capítulo que há de registrar o sofrimento dos humildes através dos séculos, em busca de pão e de justiça. As gentes do Ceará e do Maranhão que trocam a sua terra pela Amazônia não são menos desgraçadas que os nossos camponeses, que trocam Portugal pelo Brasil. A sua luta é uma epopeia assombrosa, de que não ajuíza quem no resto do mundo se deixa conduzir, veloz e economicamente, num automóvel com rodas de borracha - da borra que esses homens tiram à selva, misteriosa e implacável". 

Preparação da borracha. Fonte: História do Amazonas (Livro)
     Em outras palavras  o lusitano expõe "sob os nossos próprios olhos um dos aspectos mais tristes, e mais verdadeiros, da organização ou, antes da desorganização do trabalho longe dos centros policiados, lá onde não chega a proteção do Estado com vigilância da autoridade", conclui Campos.

     O casamento das palavras acima - tanto as do autor como as do observador - justifica ser a trama de A Selva, nem imaginosa nem complicada, mas humana. Alberto, estudante de Direto na Universidade de Lisboa, filho único de um general português já falecido, da Espanha parte para o Brasil e desembarca no Ceará, a procura de emprego. É recebido pelo "mulato Balbino" que promete enviá-lo a um seringal no rio Madeira (AM). "Já a bordo do navio que o transportou até Belém, começa a compreender a ilusão das promessas feitas, e a extensão do logro de que fora vítima".
     No interior do Amazonas, onde a borracha extraída do látex era produzida, Alberto encontra famílias de seringueiros vindos do Ceará, da Paraíba, do Rio Grande Norte, do Piauí e do Maranhão - todas aprisionadas pelos patrões, assim como se fossem moscas retidas numa teia de aranha.
     Num diálogo entre os homens da selva, o ex-universitário e sonhador com dias melhores na Amazônia, ouve a seguinte frase:  "- Eu é que sei o que é ser escravo!" Era tarde demais para o jovem Alberto voltar para a terra natal. Ele percebeu que por aqui "predomina o arbítrio, cujas leis são reguladas pela vontade do mais forte".
     Aos poucos Ferreira vai expondo o mapa real e regional. Muito diferente daquele de "quem se habilitou a ver a Amazônia com os óculos de ouro dos escritores ou com a lente dos naturalistas estrangeiros", que a visitam ou acham que estão bem hospedados.
     O livro é interessante do início ao fim. Mas impressionante mesmo é o capítulo onde o autor descreve a prisão e o castigo dos seringueiros fugitivos. Verdadeiro."regime penal". "Os donos de seringal são, nos rios que ocupam, senhores absolutos (...). O homem rico é a árvore que vive à custa da vegetação circunjacente, de que rouba  e que priva dos benefícios do sol. É sobre essa lei econômica, de origem natural, que assente como ninguém ignora, a opulência da civilização norte-americana. A diferença entre a Amazônia e os grandes centros dos Estados Unidos é esta: o conforto  relativo do trabalhador que contribui para a fortuna do privilegiado, fenômeno impossível numa região semi-bárbara, em que, ademais, a retribuição está na razão direta da contribuição. O nosso dono de seringal, grosseiro e brutal como os desbravadores que rumaram para o oeste americano na segunda metade do século passado (XIX), era como aquele apuizeiro de que nos fala Euclides da Cunha, e de que o sr. Ferreira de Castro nos fornece interessante descrição: mata a árvore que lhe dá vida. Obedece à lei suprema da natureza, que consiste, sempre, na vitória do mais forte".

     E, depois de 41 páginas de sua magistral ( e respeitosa) análise voltada sobre A Selva, o imortal Humberto de Campos, conclui com as palavras seguintes: "A Amazônia, em cujo seio húmido (com "h") repousam para sempre mais de meio milha de nordestinos nela sepultados vivos, pagou caro a sua improvidência. Sobre as ruínas de Jerusalém, surda às ameaças de Isaías, tombaram a pobreza e a solidão. E sobre os seus escombros vai-se erguendo, agora, aos poucos, a nova cidade dos homens, baseada, desta vez, nas tristezas da experiência, e, mais do que isso, nos princípios cristãos da solidariedade humana".

     Que relatos amigos leitores! Isto aqui exposto é apenas  o resumo do resumo. Leiam A Selva por inteiro. A literatura é fascinante. Faz a nossa imaginação viajar para bem longe como fez Julio Verne, em A volta ao mundo em 80 dias. Pergunte a si mesmo (a): se essa obra tem quase 100 ano que retratou a Amazônia de ontem, como ela está hoje? E do Amazonas de ontem, da borracha. Para o de hoje, da economia globalizante, o que mudou?

     Pesquisa, texto e arte: Francisco e Winnie Gomes

     Fontes
     1. Livros Raros, apostila da Biblioteca Pública do Amazonas, Manaus, 1984.
     2. CAMPOS, Humberto de. Crítica, editora brasileira, SP, 1933, seg. série, 1958. pp. 426/467
    3. Imagens: Revista Visão, 31.08.88, p.28; História do Amazonas, de F. Jorge dos Santos, 2010,           p.202.
     
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