Conheci a cidade de Graciliano Ramos

Semana passada estive em Palmeira dos índios, Alagoas, e descobri que Graciliano Ramos morou e foi até a prefeito da cidade. Infelizmente, minha passagem foi rápida pela cidade, e não tive oportunidade de conhecer a casa de Graciliano Ramos porque estava em reforma. Mas, tirei foto do lago da cidade, que é um dos pontos turísticos (reparem na imagem da serra. Como é lindo!). Mas, fiquei muito feliz em passar por essa cidade em que Graciliano, um dos mestres da nossa literatura, viveu parte de sua vida. Então, decidi escrever um pouco sobre ele.




Charge de Graciliano. Fonte: Livro,
 Literatura Comentada, 1982
Graciliano Ramos de Oliveira, nasceu em Quebrangulo (Alagoas), 27 de outubro de 1892. Passou parte de sua infância transitando pelo Nordeste, como Buíque (Pernambuco), Viçosa (Rio Grande do Norte) e Maceió (Capital de Alagoas).
Finalizou os estudos em Maceió e foi morar no Rio de Janeiro, onde trabalhou como jornalista. Aos 23 anos (1915) retorna ao nordeste e decide morar em Palmeira dos Índios (Alagoas), onde seu pai era comerciante. Neste mesmo ano, casa-se com Augusta de Barros.
Em 1927 foi eleito prefeito de Palmeira dos Índios, e ficou no cargo por dois anos, renunciando em 1930. Depois disso, Graciliano seguiu para Maceió, morou entre 1930 e 1936, e foi diretor da Imprensa Oficial do Estado de Alagoas e ligou-se ao comunismo.
As obras de Graciliano são de cunho regionalista, ou seja, descreve a paisagem do Nordeste e analisa as dificuldades do sertanejo nordestino. Seu primeiro romance, Caetés (1933), é ambientando em Palmeira de Índios, e relata o amor proibido de Luísa e João Valério.
No ano seguinte, publica São Bernardo (1934), e conta a história de Paulo Honório, em que luta para conseguir a posse da Fazenda São Bernardo, e faz uma autoanálise existencial sobre seu esforço.
Dois anos depois do segundo romance, Graciliano publica Angústia (1936) conta a história de Luís da Silva, Marina e Julião Tavares. Luís, um jovem marginalizado socialmente, propõe casamento a Luísa, uma moça superficial. Julião Tavares, rival de Luís, surge nos preparativos do casamento, e Luís planeja assassiná-lo. Os dois personagens representam, simbolicamente, uma sociedade defeituosa.
Em 1938, publicou Vidas Secas. Mais do que uma obra literária, Graciliano denuncia os problemas da seca do Nordeste. Nesse universo, a história conta a história dos retirantes, Fabiano, Sinhá, Vitória, dois meninos e a cachorra Baleia, que se recolhem a uma fazenda cujos donos estão ausentes. Em 1963 a obra foi narrada nos cinemas.
 Além dos romances, Graciliano deixou-nos literatura infantil, correspondências, crônicas, memórias e livros de viagens:

v  A terras dos meninos pelados (1939)
v  Histórias de Alexandre (1944)
v  Infância (1945)
v  Histórias incompletas (1944)
v  Insônia (1947)
v  Memórias do cárcere (1953 – obra póstuma)
v  Viagem (1954 – obra póstuma)
v  Alexandre e outros heróis (1962 – obra póstuma)
v  Linhas tortas (1962 – obra póstuma)
v  Viventes das Alagoas (1962 – obra póstuma)
v  Cartas (1980 - obra póstuma)
v  O estribo de prata (1984 - obra póstuma)
v  Cartas de amor à Heloísa (1992 - obra póstuma)
v  Garranchos (2012 - obra póstuma)

É importante destacar que a obra Memórias do Cárcere (1953) relata a vivência com envolvimento com a política e prisão (filiou-se ao Partido Comunista em 1946). A obra ganhou vida cinematográfica em 1984.
Em 1952, adoeceu e foi internado no ano seguinte, mas faleceu vítima de câncer de pulmão, aos 60 anos. 
Meu pai, decidiu compartilha com vocês, suas experiências com as obras de Graciliano:

“No final dos anos 70, li um conto – por indicação do meu professor de língua portuguesa -, acho que ‘Ladrão’, e fiquei deveras fascinado. A narrativa era uma coisa impressionante.
O ladrão vem chegando de mansinho, na total escuridão ao meio da noite; um gato corre; a mente do leitor, corre; o ladrão corre mais ainda. As pessoas da casa que iam ser ‘visitada’ acordam e querem saber o que ocorre lá fora.
A partir de então passei a ler os livros desse grande mestre da nossa literatura, o velho Graça, como era chamado. Primeiro foi Vidas Secas, depois: Viventes das Alagoas; Caetés; Viagem; Linhas Tortas; Insônia; Angústia. Por fim, Memórias do Cárcere (volumes 1 e 2).
Li em algum lugar que, quando era prefeito de Palmeira dos Índios, seus ofícios, cartas, relatórios, eram tão bem redigidos, que se tornaram objetos de estudo da nossa língua.
Perseguido pelo regime de Getúlio Vargas, foi preso. Na prisão escreveu ‘Memórias do Cárcere’.
‘Insônia’ marca o leitor, mas Vidas Secas, é simplesmente magistral”.

         Algumas fotos das obras que temos em nosso acervo particular:



           Quando soube que Graciliano Ramos morou em Palmeira dos Índios, pensei: “Minha nossa, não conhecemos nada sobre o nosso Brasil”. A verdade é que não conhecemos nossa história, nem escritores, nem cientistas... Vivemos sempre em busca de personalidades estrangeiras, enquanto deixamos de valorizar o que é nosso, genuinamente brasileiro.
Por que, nós, brasileiros, temos esse sentimento de inferioridade? Entendo que nosso país falha em muitos aspectos, mas não podemos deixar de aprender e conhecer nossa riqueza cultural e literária. Durante minha passagem por Palmeira, conheci um professor de geografia que ficou encantado com as histórias sobre o nosso Amazonas, ele queria aprender sobre nossa região, e eu curiosa para aprender mais sobre o Nordeste. Vejam, o pouco que aprendemos sobre o nosso Brasil.
            Lembro que estudei Graciliano Ramos na época da escola, e ainda li Vidas Secas, mas aprendemos de forma tão superficial, não aprendemos a conciliar a história de vida do autor, seus ideais, seus pensamentos, como reflexo de suas obras. Não aprendemos a pensar de forma crítica para analisar todo o contexto histórico e social de uma determinada obra. Hoje, retomando a leitura sobre o escritor só me bate a sensação de que preciso retomar urgentemente leitura de nossos mestres escritores brasileiros.


Texto e pesquisa: Winnie Gomes e Francisco Gomes


PS.: Quem for conhecer Palmeira dos Índios (Alagoas), não deixem de conhecer o restaurante Pavana. Um ambiente lindo, com decoração no estilo nordestino com ar rústico. Tem um cardápio regional maravilhoso.


Fontes:

Literatura Comentada, Abril Educação, 1982.
Literatura Brasileira. 2ª ed. 1977