Emílio Santiago: o intérprete magnífico

     O ano era 1983. Final de tarde de um final de semana pacato da cidadezinha de Lábrea (distante 700 km da capital Manaus-AM). Do "estúdio do Sutherland" - um alto-falante situado na pequena praça - ouvia-se uma canção num voz belíssima, cujos primeiros versos eram estes:

                                         "Lá vem meu amigo de Nova Iorque 
                                                     Ele mora no gueto
                                                    Ele mora no Harlen 
                                           É do subterrâneo, é do mundo negro". (1)

     Gostei do que acaba de ouvir. Procurei então o "radialista" e fiquei sabendo que se tratava de O Amigo de Nova Iork ( Macau - Durval Ferreira), na voz de Emílio Santiago. Seu novo trabalho.
     A partir daí, ou seja, nestes 35 anos adquiri 16 discos de vinil, entre eles os 7 de "Aquarela Brasileira"; 13 CDs, entre eles a caixa "Três Tons" com 3 unidades, remasterizadas de vinil para CD; e 1 DVD, O Melhor das Aquarelas. Além de algumas participações do cantor com outros artistas. Parece pouco material, se comparado a sua vasta discografia. Mas foi tudo o que consegui até hoje.

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Emílio Santiago. Fonte: Dario Zalis, VEJA
     Emílio Vitalino Santiago, nasceu em 6 de dezembro de 1946, na cidade do Rio de Janeiro. Nos anos 70 ingressou no curso de Direito e logo começou a cantar nos festivais universitários. Num deles, da própria faculdade, interpretou três canções. Duas foram classificadas em 2º e 3º lugares. Os temidos jurados eram: Marlene, José Messias, Taiguara, Marcos Valle e Mariozinho Rocha. Participou  de programa de TV, e foi crooner da orquestra de Ed Lincoln, "além de muitas apresentações em boates e casas de espetáculos noturnas". (2)
     Em 1973 lançou sei 1º trabalho. Um compacto simples com Transa de Amor e Saravá Nega. Em 1975 chega às lojas seu 1º LP, com letras de Ivan Lins, Nelson Cavaquinho, Guilherme de Brito, etc. No ano seguinte foi para a Philips/PolyGram, onde ficou até 1984 e gravou 10 discos.
     Considerado detentor de uma das vozes mais completas entre os artistas brasileiros. Mas, foi em 85 que realmente provou ser um grande cantor, quando participou do Festival dos Festivais, da Rede Globo, sendo considerado o melhor intérprete com a canção Elis, Elis, de Estevan Natolo Jr e Marcelo Simões.
     "O sucesso veio na verdade em 1988, quando lançou o LP Aquarela Brasileira pela SomLivre, um projeto especial de sete volumes, dedicado exclusivamente ao repertório de música brasileira; o projeto ultrapassou a marca de quatro milhões de cópias vendidas" (2). Direção e produção de Roberto Menescal. O último volume foi lançado em 1995.
      Na contracapa do disco "Personalidade, de 1990, Diana Aragão, faz esse registro:
      "O carioca Emílio Santiago é, sem dúvida, um grande cantor. E ele é fruto de uma escola que já nos legou grandes nomes, bastando citar os ativos Cauby Peixoto e Nelson Gonçalves, mas que estranhamente, não revelou novos talentos, ao contrário da enxurrada de cantoras surgidas no final  da década de 70, principalmente. Não é à toa, portanto, que Emílio Santiago construiu e vem solidificando uma bela carreira calcada numa voz muito bem colocada e cheia de sentimento.
     Mas o sucesso de hoje não caiu do céu, pois o cantor percorreu muitos estúdios de rádios e televisões até ser notado. E foi exatamente no programa de Flávio Cavalcanti, no quadro Mercado Internacional do Talento, que o cantor teve sua primeira chance real ao tirar o terceiro lugar na interpretação de Chiclete com Banana, de Gordurinha.
     A partir daí, depois de ter sido crooner dos conjuntos de Ed Lincoln, Anselmo Mazzoni e do Maestro Formiga, o artista começou a gravar, lançando seu primeiro LP em 1975. Cantor de estilo variado com graves que passam pelo samba e pelas canções românticas. Emílio Santiago tem nessa versatilidade o seu maior fruto. Escorado em sua ótima voz, claro, e uma boa seleção de repertório. E são os graves dessa voz que marcam canções tão diferentes como Detalhes e Além do Horizonte de Roberto e Erasmo Carlos, quanto As Rosas não Falam, do Cartola. Passando por Dores de Amores, de Luiz Melodia e Ensaios de Amor, de Marina e Ana Terra. Mas sempre tendo como ponto em comum - fazendo  essa ligação que só um intérprete do seu quilate alcança - os seus belos timbres" (4).
     Quando Diana Aragão atesta que o cantor tinha incrível "versatilidade" na entonação, na interpretação e em outros atributos musicais, não exagerou. É uma constatação. Leia a seguir três  comentários contidos no encarte do CD "Perdido de Amor", de 1995, onde podem ser encontradas Copacabana, Tereza da Praia, Sempre Teu, Esquece, entre outras:
     1º PELO PRÓPRIO CANTOR - esse disco "reúne canções ricas em harmonias e melodias, e letras precisas, lançadas e eternizadas por Dick Farney, um cantor chic, um pianista sofisticado e de um gosto impecável no que cantava (...). Estou muito feliz de poder cantar essas canções. Quero que ao ouvi-las vocês amem bastante! De coração."
     2º POR CESAR CAMARGO MARIANO - assegura que apesar de já ter realizado vários sonhos profissionais, eis aqui dois que ainda restavam: um com Dick e o outro com Santiago. Por sinal, "o Emílio que sempre foi, para mim, a melhor voz masculina desde país.
     3º POR MAZZOLA - "sempre admirei a voz do Emílio, como uma das vozes mais bonitas que conheço (...). Enfim, muito obrigado às pessoas envolvidas que me ajudaram e Deus por dar-me a oportunidade de realizar esse projeto com você Emílio! Tenha certeza que ficará eterno".
     Em "Três Tons", cuja foto (capa) está aqui postada por Winnie Gomes, cada CD traz um pequeno histórico: Comigo É Assim (77), é o terceiro disco da carreira do cantor. A faixa-título foi extraída de um samba-choro originalmente gravada em 1945 de forma instrumental pelo coautor José Menezes; em 1952, pelos Os Cariocas. O sambão Nega, que puxou o LP, foi trilha sonora da novela "O Astro", da Globo. Domingo, levado ao carnaval daquele ano pela União da Ilha, virou um samba mais lento na voz de Emílio, etc. O Canto Crescente ... (79), é considerado o seu melhor disco. Tanto pelos arranjos de primeira, como algumas das melhores letras produzidas no Brasil dos anos 70. "O repertório deste disco foi muito bem escolhido em comum acordo com o (produtor) Sérgio Carvalho, sendo um álbum muito comentado até hoje". (8), diz o cantor. São 12 letras como: Trocando em Miúdo (Francis Hime-C. Buarque), Outra Vez (Isolda), Recado (Gonzaguinha), As Rosas Não Falam (Cartola), Dores de Amores (Luiz Melodia), Amigo é Pra Essas Coisas (Silvio da Silva Jr.-Aldir Blanc), entre outros clássicos. Guerreiro Coração (80-ao vivo) - Seu 6º álbum, mas o 1º gravado ao vivo, no Teatro da Galeria, no Flamengo, entre 3 e 7 de setembro de 1980. São 14 faixas de um repertório impecável, entre elas estão: Falsa Lucidez (Leci Brandão), sob o recém-composto tema do filme Bye, Bye, Brasil; A Noite (Ivan Lins-Vitor Maartins); Perdão (Tunai-Sérgio Natureza); De Repente (Sílvio César).

Caixa com CDS (2014). Acervo pessoal.
     Ainda sobre "Três Tons", esse imperdível trabalho, que foi lançado em 2014, e pela primeira vez em CD, o produtor musical, jornalista e  crítico de música Rodrigo Faour, garante que nos 3 discos "o cantor nos brinda com algumas das melhores canções de várias fases da MPB, com destaque para os autores de sua geração como João Nogueira, Gonzaguinha, Chico Buarque, Ivan Lins, Dominguinhos e tantos outros (...). Na cozinha instrumental, ele está sempre acompanhado de músicos e arranjadores do quilate de João Donato, Menescal, Meirelles, Antonio Adolfo e outras feras. Três álbuns obrigatórios",
     Em 2000 Emílio assinou contrato com a Sony Music, estreando com o CD "Bossa Nova", com 15 canções, como Corcovado (Tom Jobim), Insensatez (Tom-Vinicius), Faixa de Cetim (Ary Barroso), Chuva (Durval Ferreira-Pedro Camargo), entre outras. O resultado foi tão bom que virou DVD. Em 2001 foi lançado o CD em homenagem a Gonzaguinha, e em 2003, a João Donato.
     Seus últimos trabalhos em CD e/ou DVD - "O melhor das Aquarelas" - datam de 2005. Em 2007, foi a vez do CD "De Um Jeito Diferente". Em 2010 foi lançado o CD "Só Danço Samba", ao vivo. Em 2011, o DVD homônimo (o 2º ao vivo), assim como o 2º CD, ao longo de mais de 4 décadas de carreira artística. 
     Extrair alguns versos de canções que foram imortalizadas pela divina interpretação desse cantor não foi tarefa fácil. Confira a  seguir:

     "Mais um ano se passou/E nem sequer ouvi falar seu nome/A lua e eu.
       Caminhando pela estrada/Eu olho em volta e só vejo pegadas/Mas não são as suas, eu sei.
       O vento faz eu lembrar você/As folhas caem, mortas como eu".
                                              (A Lua e Eu, Cassiano-Paulo Zdanowski)  

     "Das lembranças que eu/trago da vida
       Você é a saudade que eu/gosto de ter
       Só assim sinto você bem/perto de mim
       outra vez".
                                              (Outra Vez, Isolda)

     "Senta, se acomoda à vontade
       Tá em casa, toma um copo, dá um tempo
       Que a tristeza vai passar
       Deixa pra amanhã, tem muito tempo
       O que vale é o sentimento
       E o amor que a gente tem no coração".
                                              (Verdade Chinesa, Gilson-Carlos Colla)

     "Eu sei que vocês vão dizer
      Cantar, mas me digam pra quê?
      O que vou sonhar
      Só querendo escapar a dor
      Quem pode querer ser feliz
      Se não for por amor".
                                             (Desenho de Giz, João Bosco-Abel Silva).

     Há ainda mais emoção. Independente em ser ouvinte e fã do artista, do intérprete, da pessoa que foi Emílio. Por exemplo, Amigo é Pra Essas Coisas (Sílvio da Silva Jr-Aldir Blanc). Trata-se de um emocionante duo com o sambista João Nogueira (1979). "Fiz questão de chamar o João porque foi o primeiro compositor a acreditar no meu trabalho e a me dar uma música inédita dele para eu gravar". Esse depoimento de Santiago é inédito e estava guardado, esperanto a reedição de "Três Tons". 
     No dia 7 de março de 2013, o cantor estava sozinho em casa quando sofreu um AVC isquêmico. Ao ser encontrado pela secretária, foi levado para o Hospital Samaritano, em Botafogo, na zona sul do Rio de Janeiro. Porém, na quarta-feira, dia 20 do mesmo mês, o coração de Emílio Vitalino Santiago, parou aos 66 anos de vida. No dia seguinte, seu corpo foi sepultado ao lado do túmulo da mãe, Ercília, no Cemitério Memorial do Carmo, na zona portuária da cidade do Rio de Janeiro.
     Fisicamente seu cérebro parou; seu coração também. Mas a sua voz continua (e continuará) cantando o bem, o belo e afastando o mal para bem longe da gente. Continuará na mente dos seus fãs e admiradores, assim, como a sua arte  há de perdurar vivamente  por muitas décadas. Afinal, "na morte a gente esquece/Mas no amor a gente fica em paz/(...) O apreço não tem preço/(...) Amigo é pra essas coisas.
     No encarte do CD "Emílio Santiago - Mega Hits", de 2015, consta esta frase em letras destacadas: "A TRILHA SONORA DA SUA VIDA ESTÁ AQUI", destaque, de Winnie. A nossa também, para ouvi-lo. Pois, são "Tantas palavras, Meias palavras".


CD Mega Hits (2015). Acervo pessoal.

      Pesquisa, texto e arte: Francisco e Winnie Gomes
    
      Fontes
      1. www. letras.mus.br
      2. www. mensagenscomamor. com
      2. LP "Festival dos Festivais", SomLivre, Rede Globo, 1985
      4. LP "Personalidade Emílio Santiago", Philips/PolyGram, 1990
      5. CD "Emílio Santiago", Sony Music, 2000
      6. Dicionário MPB (Cravo Albin).com.br
      7. CD "Perdido de Amor", de Emílio Santiago, SomLivre, 1995
      8. "Três Tons", de Emílio Santiago, cx, c/3 CDs, Universal, 2014
      9. Jornal Dez Minutos (grupo A Crítica), Manaus-AM, 21.03.2013

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