"A qualidade do amor"

             

                                                                                  "Amor é um fogo que arde sem se ver".
                                                                                                                                             Camões

 Escrevi este artigo há 20 anos, ou melhor, em julho de 1998, após a leitura de uma longa reportagem publicada em um jornal daqui de Manaus. Na época eu ministrava Filosofia para alunos do então 2º grau. Como fazer reprografia de forma reduzida era complicado, resolvi datilografar o longo texto de forma resumida (três laudas) - sem descaracterizá-lo - e trabalhar esse material com os alunos. O conteúdo é este que ora apresento aos leitores do Facetas. Interessante e atual: sempre.

     O título acima foi extraído de uma matéria publica em A Crítica, no dia 28 de junho de 1998, por Leneide Duarte, cujo subtítulo era assim: "Filósofos ensinam como identificar o verdadeiro amor, aquele que revoluciona a vida". O texto faz referências aos escritores: o francês Luc Ferry, o norte-americano Jacob Needleman e o suíço Alain de Botton, autores das obras "A sabedoria dos modernos"; "Sobre o amor"; e "Ensaios de amor", respectivamente.
     Analisando melhor as ideias de cada deles, achei por bem reproduzir - para fácil  compreensão  de vocês (alunos. Hoje, leitores) - algumas considerações sobre o tema, na avaliação de cada estudioso, em três partes:

     1. VALORIZAR A VIDA PESSOAL NÃO É INDIVIDUALISMO.
     De início, Ferry diz que as questões da nossa vida são importantes, porque as pessoas, de modo geral têm problemas iguais aos nossos. E afirma que "nossos vizinhos têm os mesmos problemas e todos eles são problemas coletivos. A política terá muito a ganhar se nos próximos anos compreender que a vida pessoal deve fazer parte de suas preocupações.
     Por sua vez, Needleman, acha que a paixão de um grande amor guarda um "segredo", e "nesse segredo pode e deve se revelar durante a vida que queremos compartilhar. Se amamos alguém e quando quisermos  romper o vínculo, por causa de um impulso forte nesse sentido, veremos que isso não traz felicidade. E no amor, temos a possibilidade de ajudar a busca mútua. Esse é o significado oculto da chama do amor, do seu ensinamento".
     O nosso terceiro filósofo estudado, Alain de Botton, diz ser o amor o centro da vida humana neste final de milênio (1998). E assegura que "todos nós temos necessidade de nos sentir compreendidos por alguém e de compreender esse alguém, de dividir nossa vida com outrem, de contar nossa vida a alguém. Se a gente não tem isso, tem-se a impressão de não existir. Se não há alguém que nos observa viver, é como se não existíssemos".
      Ele ainda questiona se o amor é oposto a tudo o que a sabedoria representa, e justifica essa indagação dizendo que "se certos" pensadores sábios aprovaram o amor, tiveram o cuidado de traçar distinções entre suas variedades", assim como "o amor rasgado de Romeu e Julieta, da adoração contemplativa de Sócrates pelo Bem", etc, é porque o amor existe e deve ser diferenciado em duas categorias: 1ª). O amor maduro, como sendo "a consciência ativa do bem e do mal dentro de cada pessoa. É o amor que resiste à idealização, é livre de ciúmes, masoquismo ou obsessão. É uma forma de amizade com uma dimensão sexual. Esse tipo de amor é agradável, pacífico e tem reciprocidade"; e 2ª). O amor imaturo, ou seja, aquele que "não tem nada a ver com a idade do sujeito apaixonado. É imaturo o amor no qual há uma disputa categórica entre idealização e decepção, um estado instável em que sentimentos de êxtase e de beatitude  se combinam com impressões de afogamento e náuseas, em que há o pressentimento de que se encontrou a resposta, vem acompanhada da sensação de estar perdido", afirma Jacob.

     2. A VIDA AMOROSA COMO SENTIDO DA VIDA.
     A vida em si mesma é um grande mistério. Pelo menos essa tem sido uma grande preocupação do homem ao longo de sua evolução. E mesmo sem querer entrar no mérito da questão, é só confirmar o pensamento vivo de Pascal, Aristóteles, Claude Bernard, e outros para se comprovar esse enigma quando se pretende definir a vida.
     Mas voltando ao tema em debate, lendo  o que diz Botton. "Na vida amorosa, há sempre a possibilidade de felicidade mas muitos obstáculos impedem essa possibilidade de se realizar. O perigo do amor é a ilusão, é imaginar que alguém é de uma forma diferente da realidade. O amor que dura é aquele em que as duas pessoas compreendem quem são e amam suas diferenças. As histórias de amor que não dão certo são as que um parceiro tem ilusões sobre o outro".
     Segundo essa mesma ótica, Needleman, afirma ser "um erro esperar que o outro (parceiro) seja estável e íntegro, na medida que reconhecemos, em nossos momentos de sinceridade, que nós mesmos não somos sempre". E prossegue garantindo que "o fato de duas pessoas cultivarem o senso da busca não é suficiente para mantê-las juntas. A questão é que, ao serem assim atraídos uma para a outra, duas pessoas têm a possibilidade, e talvez o dever, não apenas de manter essa qualidade de relacionamento, mas de ajudar mutuamente a aprofundar a busca e levá-la adiante em duas vidas".
     Nesse aspecto, sabe-se que as mulheres já dominam muitas coisas na sociedade. Assim, como os homens estão se dedicando mais à casa e aos filhos. Como diz Ferry que, "a política, a religião e a moral leiga não servem mais para o homem contemporâneo. E que, para ser feliz é preciso amar, sem que a valorização da vida pessoal signifique um retorno ao individualismo irresponsável. Por isso, as mulheres dominam a lógica da vida privada melhor que os homens. É só observar quando elas falam de amor; em maior profundidade e inteligência que superam os homens". 

     3. VIDA FAMILIAR SE SOBREPÕE A VIDA PÚBLICA.
     Segundo Ferry, atualmente tanto para o homem como para a mulher, o mais importante é o que ocorre na vida pessoal. Se um filho está doente, isso vale mais que um fenômeno político. Se ela é abandonada pela pessoa que ama, isso causa mais transtorno que a mudança de governo.  
     Coisa do tipo prova que as pessoas não nascem sabendo amar. É só observar o elevado número de divórcio em muitas partes do mundo. Na Europa do século XVI, por exemplo, ninguém se casava por amor, mas com a finalidade de "assegurar a descendência, isto é, a manutenção da linhagem, do nome, ou por motivos econômicos, para garantir a manutenção de uma pequena fazenda ou uma pequena fábrica de artesanato. Os dois pilares do casamento eram a linhagem e a economia, nunca o amor".
     Hoje, acredita-se que o casamento esteja embasado no amor e o laço conjugal tem como referência central o sentimento. E o sentimento é algo mutável. Daí o grave problema do divórcio na vida sentimental moderna. É por isso que a vida amorosa atualmente requer mais sabedoria do que em tempos idos. 
     Confirma Botton dizendo que a explicação para o fim de muitos casamentos, tem por elemento causador básico, a independência econômico das mulheres, além, é claro, de uma grande exigência em relação à vida afetiva, pois, as mulheres "procuram uma relação emocional  verdadeira, sincera e profunda". Caso esses ingredientes não existem, as mulheres acham por bem ficar sozinhas, por serem mais honestas do que os homens.
     Diante dessas considerações, pergunta-se: O QUE É O AMOR? "O amor - segundo os autores aqui analisados - é uma vivência que se manifesta de várias maneiras". Cabe, portanto, cada pessoa, administrar essa vivência de acordo com as suas possibilidades pessoais e sociais. 

     Pesquisa e texto: Francisco Gomes

     Fonte
     "A qualidade do amor", por Leneide Duarte, A Crítica, de 28.06.1998.
      Imagem, DariuszSankowski
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