Patativa do Assaré: sua inspiração é sua vida

   
Foto do Cordel ''Patativa do Assaré - Um poeta do Sertão'' escrito por Rivani Nasario
  
       Ainda lembro muito bem: eu e meu irmão éramos muito crianças, quando nosso pai tinha por hábito nos contar umas estórias muito engraçadas. Algumas nos assustavam, por exemplo, a do Lampião e seu cangaço. Homem cruel e tenebroso que saia Nordeste afora perseguindo e matando pessoas, mesmo que fossem inocentes.
     O tempo passou e descobrimos que o senhor João Sabino lia bastante literatura de cordel, depois contava, ao seu modo, aquilo que os cordelistas haviam versado sobre os mais variados temas.
     Assim, desde a adolescência, leio cordel com frequência. Alguns amigos quando vão ao Ceará ou Pernambuco, trazem exemplares, haja vista não ser muito comum encontrar esses livretos aqui em Manaus. Gosto tanto que no final dos anos 80, fiz um trabalho para a disciplina Cultura Brasileira, na Universidade Federal do Amazonas -UFAM.
    Em 1983, quando ouvi o violeiro paraibano Zé Ramalho cantar em Xote dos Poetas: "Maracatu de d. Santa/Batutas de S. José/Patativa do Assaré/E também Dodô e Osmar...", foi que passei a pesquisar os versos do poeta popular Antônio Gonçalves da Silva, o Patativa do Assaré, principalmente. Além de outros como Manoel D'almeida, Meca Moreno, Divani Nasario, Davi Teixeira, entre outros. 
     Gonçalves nasceu a 5 de março de 1909, em Patativa (CE) e lá morreu no dia 8 de julho de 2002, aos 93 anos. Brilhante compositor, cantor e improvisador, dono de uma memória fantástica. Era o 2º filho de uma família carente que vivia da agricultura de subsistência. Ainda criança ficou cego do olho direito por causa de uma moléstia vulgarmente conhecida por "Dor-d'olhos". Aos 8 anos de idade ficou órfão do pai, quando então, passou a ajudar a família na lavoura. 
     "Aos 12 anos foi alfabetizado em um curso que fez por 6 meses com um professor improvisado pela escola. A partir dessa época, começou a ler os cordéis das feiras da sua região e, aos 14 anos, compôs versos próprios, que ele decorava" (1). 
     quando tinha 20 anos adotou o pseudônimo de Patativa, por sugestão do escritor cearense José Carvalho de Brito e o topônimo de sua vila natal Assaré, por ser sua poesia comparável à pureza do canto dessa ave, muito comum naquela região. Sempre viveu no seu lugar de origem ( passou uma pequena temporada no Pará, Amapá e Maranhão), depois voltou para o Ceará onde foi trabalhar à terra. Em 1956, com a ajuda de José Arraes Alencar e outros amigos leitores, publicou seu 1º livro: "Inspiração Nordestina".
     Em 1966 sai a 2ª edição sob o título de "Cantos de Patativa". Em 1970 foi lançada uma nova coletânea de poemas "Patativa do Assaré", e em 1978, "Cante Lá que Eu Canto Cá". "Ispinho e Fulô (88) e "Aqui Tem Coisa" (95).
     "Patativa era a voz do sertanejo nordestino (dos trovadores, dos repentistas, dos violeiros e da literatura de cordel), procurando fazer justiça social, por meio dos seus versos, e acima d tudo, reafirmando a cultura popular. Além de improvisador, era capaz de recitar qualquer um de seus poemas de cor" (1).
     "Figura emblemática da poesia oral, 'mestre da poesia popular' (como definiu o ensaísta Rosemberg Cariry), Patativa do Assaré foi um dos principais representantes do cantador nordestino, tipo do homem proveniente do meio rural e em geral analfabeto, que improvisa ou narra, graças a uma memória prodigiosa, os principais assuntos de seu cotidiano, desde as aventuras de homens valentes até as dificuldades de se viver no sertão" (2). 
     Segundo Ubiratan Brasil, da Agência Estado, é exatamente por essas características de Patativa, que a sua obrar ganha uma dimensão marcante. Por exemplo, no "Ao Leitô, o autor avisa: "Não vá procurá neste livro singelo/Os canto mais belo das lira vaidoso,/Nem brio de estrela, nem moça encantada,/nem ninho de fada, nem chôro de rosa./Em vez de prefume e do luxo da praça. /Tem chêro sem graça de amargo suó,/Suó de cabóco que vem do roçado,/Com fome, cansado e queimado do só".
     A inspiração poética de Patativa teve como pano de fundo sua própria vida. Como pessoa pobre da região do Cariri, sabia e reconhecia que viveu momentos difíceis. Um deles foi a perda do pai, fato que obrigou a trabalhar na roça para ajudar a sustentar a mãe e criar os irmãos.
     Sua curta alfabetização escolar tem um aspecto prosaico: aprendeu a ler, mas sem ponto nem vírgula, como se o ritmo das palavras fosse dado unicamente pela voz. "Essa estranha aprendizagem, em realidade, é apenas a expressão profunda da oralidade que caracteriza a cultura popular e a tradição dos poetas-repórteres", observa Sylvie Debs  em um estudo sobre a obra de Patativa, publicado pela Editora Hedra em sua coleção Biblioteca de Cordel.
     O próprio Patativa disse: "De 13 a 14 anos, comecei a fazer 'versinhos' que serviam de graça para os serranos, pois o sentido de tais versos era o seguinte: brincadeira de noite de São João, testamento de Judas, ataque aos preguiçosos que deixavam o mato estragar os plantios das roças" (2)
     Foi, a partir dos 16 anos, quando adquiriu uma viola de 10 cardas e decide fazer improvisações seguindo a tradição dos violeiros, esperando ser convidado para festas de santos e casamentos. Esse poeta não escrevia as suas poesias. Eram memorizadas. Tem mais: "Nunca quis fazer profissão da minha musa", garante.
     Em 1995 suas antologias já eram conhecidas fora do circuito do Nordeste, especialmente na região Sudeste. Nesse ano, o então presidente do Brasil, Fernando Henrique, rendeu-lhe uma homenagem, época em que o poeta já estava completamente cego, com a medalha José de Alencar. Apesar da idade avançada e fisicamente debilitado, teve lucidez para recitar versos sobre as grandezas dos sertanistas e as misérias que afetam o sertão - "Da minha vida eu não me orgúio". Eis aí a sensibilidade do ser humano ante às mazelas e o analfabetismo que sempre dominaram o sertão. Sua poesia é a sua voz de protesto contra o abandono do nordestino, contra a seca, contra o descaso dos governantes. 
     Apesar de admirado por políticos e ensaístas, finda sua autobiografia dizendo: "Não tenho tendência política, sou apenas revoltado contra as injustiças, que tomei algum conhecimento das coisas, provenientes talvez da política falsa, que continua muito fora da programa da verdadeira democracia" (2). 
     Rivani Nasario, com o nome artístico de Cangaceira do Cordel, de Olinda (PE), há mais de uma década vem praticando cordel. Formada em jornalismo, pedagogia e pós-graduação em administração escolar, tem preferência por temas políticos sociais, educacionais e culturais. 
     Suas obras literárias, que ao todo somam 35 temas de cordel, CD, apostila com a história e regras da literatura popular, são referências na Universidade de Macau -China. A autora, também foi premiada a nível nacional pelo Ministério da Cultura e dez campanha educativa para o governo de Pernambuco, Municípios de Olinda e Recife.
     O Cordel "Patativa do Assaré - Um Poeta do Sertão", retrata a vida e obra desse mestre que cantou e encantou o sertão com poesias, cuja edição recebeu o Prêmio Mais Cultura de Literatura de Cordel. Em dois momentos distintos, ela retrata assim esse cordelista:

     "O menino violeiro/Espelho na região/O seu amor ao nordeste/Tamanha inspiração/O coração bateu forte/Com bastante emoção."
     "Era um homem muito simples/Do povo se orgulhar/Suas obras são gigantes/Poesias de admirar/Fica na mente da gente/Pro mundo se encantar".  

     Eu já havia concluído o manuscrito deste texto, quando fiquei sabendo de dois ocorridos pertinentes ao tema aqui defendido: 1º) Recebi um recorte do jornal Amazonas Em Tempo, de 20/09/2018, enviado pelo nosso seguidor, senhor José Joaquim Freire, no qual consta que agora a Literatura de Cordel é Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro. A decisão foi tomada no dia 19 deste mês pelo Conselho Consultivo do Iphan, em reunião que ocorreu no Rio de Janeiro com a participação do NinC e ABL. O Estado de Pernambuco está em festa. Lá o gênero ganha destaque em festivais e com o Museu do Cordel Olegário Fernandes, em Caruaru. Por sinal, reformado em 2013; 2º) Nos dias 20 e 21 deste mês, foi realizado na cidade do Recife (PE), o XVI Congresso Internacional de Tecnologia na Educação, quando, por 4 minutos e 58 segundos, o Diretor do Museu do Cais do Sertão, o mestre e mágico das palavras Antônio Carlos, além de aplaudido, emocionou os presentes àquele evento com um recital numa didática cordelista. 
     Assim, o Facetas espera que seus leitores gostem do tema ora abordado, sobre o grande poeta popular Patativa do Assaré.
     Chegou ao nosso conhecimento que o professor das rede estadual e municipal, catedrático em Matemática, Ronaldo Santana Ferreira, é fiel leitor das nossas publicações. A ele dedicamos o presente trabalho.
     Pesquisa, texto e arte de Francisco e Angeline Gomes

     Fontes
     1. O Cordel de Patativa do Assaré, Correio Amazonense (cad. Aplauso), 12.07.2006.
     2. A obra de Patativa do Assaré é reeditada, A Crítica, 04. 01.2004.
     3. Nasario, Rivani, Patativa do Assaré - Um Poeta do Sertão, Pernambuco . s/d.