A Estrela de Papel de Chaplin

     Você sabe quem foi José Florentino dos Santos? Foi o cantor e compositor carioca Jessé. Ele nasceu em Niterói (RJ) a 25 de abril de 1952 e morreu vítima de um acidente de trânsito em Ourinhos (PR), a 29 de março de 1993, aos 41 anos.
     Antes de adotar o nome artístico de Jessé, o cantor adotou alguns pseudônimos como Christie Burgh (1976), Tony Stivens (1976-1977) e Reginaldo Veloso (1978-1979). Em 1980 tornou-se sucesso nacional com Porto Solidão, no Festival MPB 80, promovido pela TV Globo.
    Nos próximos 13 anos àquela data, lançou vários LPs, emplacando alguns sucessos: Voa Liberdade; Campo Minado; Solidão de Amigos; Estrela Reticente: Maria Bethânia (com participação especial de Nelson Gonçalves), entre outros.
     Em meados de 1983, as rádios, assim como os Programas de Auditórios, começaram executar uma nova (e bela) canção, cujas versos são estes:

     Nas imagens de um gibi/Ele é um herói/Faz de conta que sorri/Quando vai chorar/Com bandidos e cowboys/Faz um carrossel/Põe estrelas fora do lugar/Brinca no painel lá no céu.
     Meu herói tem um chapéu/Tem o cão leal do vagabundo/Tem o sorriso imortal/E não se cansa de amar.
     Mas se a vida chega ao fim/Deixa um grande herói.
     ...E eu vi num filme o meu herói/Zombar um ditador cruel/E vi um outro em que ele fez/Estrelas num cenário de papel.

Capa do vinil Estrela de Papel
     Trata-se de Estrela de Papel ("Carlitos"), de Jessé e Elifas, com arranjo e regência de Daniel Salinas. Bateria, Carlinhas. Baixo, Pixinga e Piano, Jessé. Canção vencedora do 12º Festival Ibero-Americano realizado em Washington (EUA).
   Na contracapa do encarte do disco JESSÉ consta, na íntegra, o texto de O Último Discurso (de "O Grande Ditador"), cujo conteúdo é este:

  "Sinto muito, mas não pretendo ser um imperador. Não é esse o meu ofício. Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja. Gostaria de ajudar - se possível - judeus, o gentio... negros... brancos.
     Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo - não para o seu infortúnio. Por que havemos de odiar e desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover a todas as nossas necessidades.
   O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma dos homens... levantou no mundo as muralhas do ódio...e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.
Contracapa do vinil
 A aviação e o rádio aproximaram-nos muito mais. A própria natureza dessas coisas é um apelo eloquente à bondade do homem... um apelo à fraternidade universal... à união de todos nós. Neste mesmo instante a minha voz chega a milhões de pessoas pelo mundo afora... milhões de desesperados, homens, mulheres, criancinhas... vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes. Aos que me podem ouvir eu digo: "Não desespereis!" A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto  da cobiça em agonia... da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano. Os homens que odeiam desaparecerão, os ditadores sucumbem e o poder que do povo arrebataram há de retornar ao povo. E assim, enquanto morrem homens, a liberdade nunca perecerá.
     Soldados! Não vos entregueis a esses brutais... que vos desprezam... que vos escravizam...que arregimentam as vossas vidas... que ditam os vossos atos, as vossas ideias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como um gado humano e que vos utilizam como carne para canhão! Não sóis máquinas! Homens é que sois! E com o amor em vossas almas! Não odieis! Só odeiam  os que não se fazem amar... os que não se fazem amar e os inumanos!
      Soldados! Não batalheis pela escravidão! Lutai pela liberdade! No décimo sétimo capítulo de São Lucas é escrito que o Reino de Deus está dentro do homem - não de um só homem ou um grupo de homens, mas dos homens todos! Está em vós! Vós, o povo, tendes o poder - o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela...de fazê-la uma aventura maravilhosa. Portanto - em nome da democracia - usemos desse poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo... um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice. 
     É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas, só mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão! Os ditadores liberam-se, porém escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à prepotência. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à ventura de todos nós. Soldados, em nome da democracia, unamo-nos!
     Hannah, estás me ouvindo? Onde te encontres, levanta os olhos! Vês, Hannah? O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos saindo da treva para a luz! Vamos entrando num mundo novo - um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade. Ergue os olhos, Hannah! A alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da espera. Ergue os olhos, Hannah! Ergue os olhos!     
Imagem de Perlinator
                                                                                                                         CHARLES CHAPLIN".

      Amigos leitores, apesar do texto acima ser um senhor de 78 anos de vida - foi escrito para o filme "O Grande Ditador", em 1940 -, cuja contextualização direta visava combater as atrocidades praticadas pelo bando criminoso de Hitler, durante a 2ª Guerra Mundial contra a humanidade, o genial cineasta conclama a todos para o mundo da paz, da justiça, da fraternidade, da democracia.
     Por que não fazermos o mesmo: nos unir em torno de um mundo novo, no qual reine a esperança e sucumba o ódio, a intolerância? Um país novo no qual a democracia possa amadurecer. Ela foi gerada, tornou-se uma criança, chegou à adolescência. Mas só isso não basta. 
     O escritor carioca Antônio Callado (1917-1997), costumava dizer: "A democracia no Brasil só ocorre na hora do recreio das crianças". Isto já é um bom sinal. Portanto, vamos fazer com ela cresça e apareça sem ganancia,  sem cobiça, mas, farta de liberdade. 
     O Facetas está num ótimo dia. Ontem, foram lembrados os 30 anos da promulgação da Constituição de 88, a |Carta Cidadã; amanhã, 148 milhões de eleitores estarão aptos para votar. Vamos revolucionar esta nação pelo silêncio poderoso do voto, do exercício da cidadania.
     Assim sendo, 

                          "Abrimos a cabeça
                                 Pra que afinal floresça
                                     O mais que humano em nós.
                                          Então tá tudo dito
                                               E é tão bonito
                                                   E eu acredito
                                                       Num claro futuro".
                                                             (Tá Combinado, Caetano Veloso).

     Pesquisa, texto e arte: Francisco e Winnie Gomes

     Fontes
     1. JesseMPB.blogspot.com
     2. LP "JESSÉ", de Jessé, gravadora RGE, p. 1983.
     3. Encarte do LP "Maria", de Maria Bethânia, gravadora RCA Victor, p. 1988
     4. Imagem de Chaplin, por Perlinator. Fonte: Pixabay
     

                                 
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