"NOSSA MÚSICA" Amazonense

    
Capa do disco Nossa Música

      Não conheço outro trabalho referente à música amazonense - em gênero, número e grau - igual ou superior em qualidade ao NOSSA MÚSICA. Estou falando do álbum duplo (2 LPs), lançado em 1986. Gravado ao vivo por Spalla Gravações e prensado na gravadora RCA.
     Os dois discos contêm 20 canções - 10 em cada, cujos intérpretes e respectivas músicas são: Disco 1 - Natacha, Pirarublue; Wander Cunha, Cheiro da Dor; Almir e Bernardo, Praça Abandonada; Pereira, Mi Canto; Maranhão, A Colombina; Banda Transcendental, Marabá; Grupo A Gente, Amazônia; Rodrigo Augusto, Meu Rio Que é o Amazonas; Joemir Guimarães, Canto Forte; Carlos Castro, Vida Aguerrida. Disco 2 - Carrapicho, Coração Baião; Lissinho Sá, Delírio; Torrinho, Porto de Lenha; Pedrinho Ribeiro. Igarapé dos Currais; Cileno, Feira Hippie; Agnelo Rodrigues Carapanã, É a Vida; e Candinho, Renovação.
     Nota interessante: para cada artista e/ou música, o álbum apresenta um pequeno comentário, de grande valia para o leitor/ouvinte. Uma curiosidade: a vocalista da Banda Transcendental, que interpreta Marabá, é Eliana Printes, hoje, cantora de projeção nacional.
     Passados mais de 30 anos desse trabalho, algumas músicas ainda são bem executadas nas rádios locais, como Porto de Lenha, de Torrinho e Aldisio Filgueiras; Feira Hippie, de Cileno; e Renovação, de Candinho.
     Esta obra teve a direção artística e musical de Marcus Vinicius de Andrade, o qual, na contracapa, registra o seguinte comentário:

     "Há coisa de uns quinze anos, venho, em meu trabalho de compositor e produtor musical, viajando por esse Brasil afora. Tive a felicidade de em muitos lugares por onde passei, encontrar alguns artistas locais de grande talento, muitos destes chegaram ao disco por minhas mãos e alguns terminaram mesmo sendo nomes nacionalmente conhecidos. Mas o danado desse Brasil é muito maior que a nossa própria capacidade de defini-lo e compreendê-lo, por isso continua nos pregando (boas) surpresas. Quando se pensava que já não iria ter mais nenhuma surpresa musical, eis que surge à minha frente o trabalho da moçada amazonense, através do projeto NOSSA MÚSICA. Agradeci, mais uma vez, por ser brasileiro e mergulhei fundo no musical barato baré - não no sentido depreciativo.
     Misturar tuchaua com pajé - por que não? - a música amazonense existe e pede passagem.  Felizmente para nós. Num momento em que a MPB se recicla, tentando sair da ressaca provocada pelo autoritarismo e pelo monolitismo da indústria cultural (que nos impôs o padrão FM, a pasteurização do som, a tirania dos produtores discográficos e outras mazelas), qualquer que seja o caminho que venha a tomar a nossa criação musical, esse caminho terá, inevitavelmente, de levar em conta a produção feita fora do eixo Rio-São Paulo. Por essa razão, trabalho como os apresentados aqui neste disco adquirem especial significação.
     Em geral, a postura crítica dos artistas é batizada por uma inexplicável submissão aos padrões estéticos ditados pelo colonialismo interno. Dá naquilo da gente encontrar roqueiros na caatinga, niuéives no sertão, enquanto alastra-se a epidemia da mesmice e da burrice que nos mandam os cérebros (?) da indústria cultural. Parece que os artistas locais, desconfiados de suas próprias formas de expressão, só se afirmam através da incorporação dos valores massificados: é como se o dominado só se reconhecesse através da linguagem do dominador.
     Felizmente, a música produzida pelos artistas amazonenses de hoje não padece de tais vícios. Ao contrário, tem sobre eles uma postura crítica, ao mesmo tempo que exerce uma saudável recolocação da questão do regionalismo. "Porto de Lenha, tu nunca serás Liverpool", canta Torrinho. Então, por que não "curupirarmos por completo", questiona Natacha. Assim, entre a postura crítica com relação ao universalismo-via-dominação e a assunção, também crítica, dos valores regionais, exerce-se uma saudável dialética, capaz de produzir boa música e de gerar novos dados para a discussão cultural local e - por que não? - nacional.
     Tenho certeza de que é esta a importância do projeto NOSSA MÚSICA: abrir a discussão, colocar as ideias em jogo, levantar a poeira e o marasmo. Depois, dar a volta por cima, com a boa música, como a apresentada neste disco.
     Não tenho dúvidas, portanto: hoje, a melhor música brasileira é a que não está na crista de nenhuma onda, não está nas FMs, nem nos hits-parades: está, sim, se fazendo, nos pequenos teatros, nos auditórios das escolas, nos espaços alternativos, e em projetos como o NOSSA MÚSICA. Daí é que sairá o resgate qualitativo da criatividade musical brasileira, tarefa, prioritária, como prioritária é a reordenação democrática do país. Esta tarefa, que visa colocar a MPB no nível de realização e importância cultural como o atingido nos anos 50-60, é uma tarefa de toda a sociedade. Da mesma forma como há que varrer o entulho autoritário há também que varrer o entulho cultural, nutrido nos tempos do arbítrio.
     É claro que, a nível de desempenho, notam-se trabalhos desiguais neste disco: algumas canções são mais bem realizadas que outras, e isso é normal: as condições em que foram realizados os trabalhos de gravação também contribuíram para que essas desigualdades se fizessem sentir. Ousaria mesmo dizer que, com exceções, o "pique" apresentado por muitos criadores presentes no disco ainda não se reveste de realização a nível profissional - mas seria anormal se não fosse assim. O que vale é que não há, na produção ora mostrada, nenhum indício de oportunismo, desonestidade ou conformismo intelectual. O que já é muito bom.
     Nesse sentido, com suas contradições e com seus diversos níveis, a música produzida hoje no Amazonas não difere muito daquela que é feita em quase todos os cantos do país. Mas a inquietação de seus criadores e o clima de discussão cultural permanente, lá estabelecido, indicam claramente que devemos prestar mais atenção à música que vem do Norte.
     Vendo esses jovens do Amazonas, aumenta ainda mais a minha fé no poder realizador do músico brasileiro. E cresce a minha convicção de que o Brasil precisa ouvir a NOSSA MÚSICA que vem do  Amazonas, com a garra do trabalho de um camarada chamado Guto (por sinal compositor da linha de frente) e dos tantos outros amigos, músicos, compositores, intérpretes, com quem tive a honra de trabalhar e que, agora, abraço com respeito".

     Por sua vez, o então Superintendente Cultural do Estado do Amazonas, José Augusto de Souza Rodrigues (Guto), justifica assim a execução desse grandioso projeto musical:

     "Este disco tornou-se possível devido ao êxito do projeto 'NOSSA MÚSICA' que abriu espaço para os artistas amazonenses e ampliou o contato com artistas de outros estados que abraçam a música como profissão e luta".

     As dificuldades para se fazer arte em nosso país é um traço sintomático na sociedade brasileira, pois a arte tem sido aleijada ao longo do desenvolvimento, não obstante a denúncia, a crítica e a elaboração de uma política cultural que se identifique com as nossas raízes mais profundas sejam os caminhos perseguidos pela maioria dos artistas da MPB. O projeto "NOSSA MÚSICA" revelou esta preocupação, pois desde seu início em 84, esteve aberto às propostas mais diversas sendo importante para a reorganização do movimento musical amazonense, devido a sua postura democrática, fugindo das formas alienantes que caracterizaram a relação entre os órgãos oficiais e os artistas nos últimos anos.
     Esta antologia da música amazonense é tão importante, como igualmente foi a participação e contribuição dos artistas que se apresentaram e viram de perto o "NOSSA MÚSICA"'. 
     Como no álbum, nem todo intérprete é autor da canção ora apresentada, Guto, teve o cuidado, num gesto nobre, em concluir suas palavras, agradecendo aos compositores, que direta ou indiretamente fizeram parte do trabalho em análise, assim:

     "Um abraço aos companheiros: Adelson Santos, Alcides Neves, Aldisio Filgueiras, Alexandre Otto, Aníbal Beça, Capinam, Domingos Lima, Fred Góes, Marcus Vinicius, Maurício Tapajós, Paulo André Barata, Rui de Carvalho, Sérgio Souto, Teixeira de Manaus e Zeca Bahia".

     Há alguns anos, Porto de Lenha (Torrinho e Aldisio Filgueiras), entre 20 canções, foi eleita a mais bonita do Amazonas.  O hino de Manaus. Vamos à letra dela:

                               PORTO DE LENHA

                               Porto de lenha
                                    tu nunca serás Liverpool
                                        com uma cara sardenta
                                            e olhos azuis
                                                 um quarto de flauta
                                                      do alto rio Negro
                                                          pra cada sambista-paraquedista 
                                                                que sonha o sucesso
                                                                     o sucesso sulista 
                                                                          em cada navio, em cada cruzeiro
                                                                               em cada cruzeiro
                                                                                    das quadrilhas de turistas.


     Pesquisa, texto e arte: Francisco e Winnie Gomes

     1. Fonte
         Álbum com 2 LPs Nossa Música. Produzido por: Superintendência Cultural do AM. p. 1986.

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