"Mulheres da Amazônia"


Foto: Pedro Martinelli, 2003
     As artes são realmente criações encantadoras. Se seus criadores não ficam envaidecidos, milhões de outras pessoas ficam extasiadas. Por exemplo, a fotografia é arte? "Uma visão tem como matéria-prima fundamental o sonho. Ela é a projeção futura de um ideal que, mesmo distante, já se torna verdade concreta em nossos corações".
     "Em 1970, o então iniciante fotógrafo Pedro Martinelli, com apenas vinte anos, partiu para o mato com os irmãos Villas Bôas para registrar frente de contato com tribos isoladas na região amazônica. Havia uma dose farta de idealismo na bagagem daqueles observadores. O respeito e a admiração pelos povos da floresta, o desejo de lutar pela preservação de seu modo de vida e cultura eram a base étnica que norteava suas ações". 
     Com as citações acima, a marca comercial de cosmético Natura, que naquele mesmo ano, abria sua 1ª e pequena loja, na cidade de São Paulo, onde nascia um grande sonho: que seus "produtos contribuíssem para a criação de um mundo melhor. Ou seja, de um mundo que acolhesse a diversidade, que valorizasse a beleza individual de cada ser, livre de estereótipos, preconceitos e manipulações".
     Esse objetivo ocorreu no ano 2000, quando a Linha Natura Ekos "busca na diversidade e na riqueza natural e humana do Brasil sua inspiração e matéria-prima. Para tal, apoiou a reedição do livro de Martinelli "Amazônia, o Povo das Águas", e ter seu autor como colaborador profissional, o qual considerava a região um tema pulsante, pungente, quase inesgotável.  Um sonho. Uma paixão. 
     "Essa paixão faz nascer agora este outro livro, "Mulheres da Amazônia. Com imagens especificamente tocantes: Pedro Martinelli esperou a luz e os gestos mais significativos para nos revelar a beleza singela, autêntica e forte das mulheres da floresta". Só assim, 500 anos depois, a Amazônia, era retratada, como também as belas faces da floresta-mulher. 
     O então governador do Amazonas, Eduardo Braga, também se manifestou sobre a obra. Até porque a mesma fora editada com recursos oriundos do MinC por meio da lei de incentivo à CULTURA: "O livro é, ao mesmo tempo, documento e obra de arte, traduzindo a paixão do autor por tudo que é por demais brasileiro.  Autêntico ao retratar o jeito de ser e de viver das mulheres".
     Outro relato marcante, sobre o tema, vem do Secretário da Pasta da Cultura, à época, Robério Braga: "Pedro Martinelli viu, fotografou, registrou, documentou, redesenhou com cores vivas e cruas a presença e a vida da mulher dos muitos interiores da Amazônia Brasileira, pegando, aqui e ali,com olhos de encanto as que registraram para longo tempo , se não para sempre, aquele instantâneo muitas vezes perdido na imensidão do mato denso e das águas tantas".
     O historiador-secretário vai além: "É registro da vida verdadeira que as mulheres levam por aí, recolhido na presença do dia e da noite", lá estão elas: nas canoas, nas obras de construção, nas tabas, retocando a beleza, nos poços de petróleo, cuidando do filho, fazendo cafuné, balançando o corpo no funda da rede, estudando, meninas matreiras, nas janelas, na roça ("no plantio, na colheita e na caça"), nas fábricas modernas, fardadas nas Forças Armadas, dançando ("fazendo um bailado que é só sedução"), rezando ("nas mãos calejadas, as marcas do tempo"), pulando fogueira; "surgem carregando de longe nas costas vergadas o peso da vida. O peso do tudo e do nado". Na beira do rio, na popa do barco; as devotas de Santo Antônio, entre tantas outras. 
     São assim também - e lá estão elas -, as que pagam, as que compram, as que vendem, as que fazem a canção do amor, da existência, da sobrevivência, as que se vão para outras paragens, as dão e as que se doam.



Foto: Pedro Martinelli, 2003

     São elas indígenas? Não, não são. São elas mulatas? Não, não são. São elas negras? Não, não são. São elas brancas? Não, não são. São elas solitárias? Não, não são. São mulheres, simplesmente. São seres "reunidos pela força da fé e do trabalho". Da vida em si própria. Do vigor da fêmea no seu embate amazônico.
     "Mulheres de todas as cores, tamanhos, idades; mulheres sorriso, que sonham acordadas; pintadas pra guerra, pintadas pra festa; armadas, surpresas, encantadas; de tiara e chapelão; cheias de lastimação; mulheres faceiras; mulheres nascendo, dançando, cantando, morrendo. Mulheres que são".
     E ao referir-se diretamente sobre a Amazônia, o observador conclui:"Ali onde nenhuma atualidade imediata desarruma a história, onde nada parece acontecer, exceto o lento escoar de um Brasil escondido, é ali que o fotógrafo paulistano Pedro Martinelli reaprendeu a olhar", sentencia Dorrit Harazim.
     Foi por esse prisma que suas mágicas lentes se deixaram tragar pela vida cabocla. Mas para isso, o artista percorreu "um longo caminho de depuração estética, física, cultural e profissional", durante 30 anos como fotojornalista de influentes órgãos de imprensa do país. 
     Com "Mulheres da Amazônia", o autor "capta o tempo e o silêncio", ou seja, registra simultaneamente o movimento do momento e a imobilidade do eterno. Sem no entanto, se deixar seduzir "pela natureza que, na Amazônia, tende  reduzir o homem a figurante do espetáculo maior. Nas fotos de Martinelli, ÁGUA e FLORESTA servem, no máximo, de moldura à invisibilidade da vida cabocla".
     O que marca a obra em questão, é "a busca pelo comum, pelo simples; o banal é permanente". A ensaísta norte-americana Susan Sontag, comparando o ofício de pintar ao de fotografar, acredita que o 1º leva vantagem, pois pode criar à exaustão, enquanto o 2º precisa de imaginação permanente. "Na fotografia, tudo é tão comum", espanta-se Sontag. "Martinelli achou o belo no comum". Não dramatiza, mas prioriza a informação do modo de vida desse Brasil escondido pela natureza. 
     Nossos leitores, nossas leitoras, vos garantimos que tudo é muito belo, muito artístico, muito real. O livro ora analisado contém 176 páginas, em papel e encadernação especiais, e 221 fotografias - poucas são coloridas. Cada uma mais singular que a outra, é óbvio. Cada uma, um mundo distinto a ser observada, admirada, e acima de tudo, interpretada. 
     Fica aqui a nossa dica. Confira.
     Obs.: Repetimos o título da obra neste artigo, não para copiar o autor, mas para enfatizar o tema Amazônia e as mulheres que nela habitam.

     Pesquisa, texto e arte: Francisco e Winnie Gomes

     Fonte
     1. Martinelli, Pedro. Mulheres da Amazônia. Editora Jaraqui, São Paulo, 2003.