"As CIGARRAS continuam cantando"

     Poetas - no masculino e no feminino -, são mesmo seres fantásticos. Sobre tudo (e todos) criam seus versos; unem as palavras e constroem sons inesquecíveis. Foi assim (é assim) com "o poeta dos escravos", "o poeta do mar", "o poeta da morte". Agora, deparo-me com a obra do "poeta das cigarras". Você sabe quem foi ele?
     Se não sabia, o Facetas foi pesquisar para os seus leitores, é óbvio. Trata-se de Olegário Mariano Carneiro da Cunha, poeta pernambucano, nascido no Recife (PE), há quem garanta que foi em Olinda, a 24 de março de 1889 e falecido há 60 anos, a 28 de novembro de 1958, na cidade do Rio de Janeiro.
     Ainda adolescente foi morar na Cidade Maravilhosa. Lá estudou, cresceu e exerceu vários cargos administrativos como: inspetor de ensino, censor federal, tabelião e embaixador em Lisboa. Também envolveu-se com política partidária: foi deputado constituinte em 1934.
     Membro da ABL, após a morte do poeta Alberto de Oliveira, "foi eleito 'príncipe dos poetas brasileiros', em concurso aberto ao público" (1).
     Bastante jovem, aos 23 anos, lançou seu primeiro livro, Angelus. "Seus versos têm musicalidade pessoal e são revestidos de inspiração delicada e expressão comovida" (2), ou seja, são poemas românticos e melancólicos.
     Seu contexto poético representa a transição  entre o sincretismo parnasiano-simbolista e o modernismo, cujo movimento sua obra não chegou a assimilar. Como compositor, ficou conhecido por letras como Arrependimento, Suave Recordação e Reminiscência. Nessa empreitada teve como parceiros Ari Barroso e Joubert de Carvalho. Para a melodia de Joubert, por exemplo, fez  a canção Cai, cai,  Balão.
      Seus livros de poesia mais conhecidos são: As últimas cigarras (tema predileto de seus poemas), Água corrente, Castelos na areia, Canto da minha terra, Cidade Maravilhosa, Destino, XIII Sonetos. 
     Quando das minhas  peregrinações à procura de vinil - um mercado muito minúsculo em Manaus -, encontrei e comprei o LP: "As CIGARRAS continuam cantando", gravado nos anos 50, por Roberto Faissal, contendo 21 poemas e sonetos de Olegário Mariano. Música do maestro Alexandre Gnatalli e órgão solo: Scarambone. Trata-se de uma obra-prima da nossa poesia.
     No disco estão As duas sombras, Silêncio, O enamorado das rosas, A última cigarra, Dentro da noite, e principalmente, O poço da panela. São fascinantes. Ainda gravados em Long Play Hi-Fi, isto é, a mais avançada tecnologia empregada por uma gravadora, à época. A sonoridade, a musicalidade e a fidelidade do som empregadas, eram elementos inimagináveis até então.
     Para ilustrar, ainda mais, tanta originalidade e  beleza, leia o que escreveu sobre o tema ora abordado, Sebastião Fonseca, na contracapa do disco:
    
     "Bilac devia estar sentado aqui conosco, quando esse menino declamar seus versos.
     O menino era Roberto Faissal, e os versos eram os do seu LP "Bilac em Hi-Fi" que ele fora oferecer ao poeta das cigarras. Olegário ouvira o disco, comovera-se com a interpretação e tivera aquela frase. Concordou, pois, de pronto, sem qualquer objeção, quando Roberto lhe explicou que a outra finalidade da visita que fazia era pedir-lhe autorização para gravar, também, um disco de seus poemas e sonetos. Poderia o próprio autor fazer a seleção dos versos? - Claro que sim, respondeu Olegário. E acrescentou, satisfeito e comovido, quando já na varanda, Faissal se despedia: - Você me proporcionou a maior alegria da minha vida.
     Não fora aquele o primeiro contato entre o Príncipe dos Poetas e seu futuro intérprete. Outros houvera, que já revelavam a simpatia de Olegário ´pelo menino que lhe gravaria os versos. O primeiro, aliás, em circunstâncias curiosas. - Em 1953, Roberto Faissal fazia o papel de "Luiz" em uma novela da Rádio Nacional que terminava às 8,25 da noite. Logo depois, às 8,30, voltava  ao microfone, com seu programa "Ciranda da Vida", e declamava sonetos, inclusive muitos de Olegário. Este, que costumava ouvir a novela e depois a "Ciranda", decidiu um dia presentear o artista com um de seus livros - "Cantiga de encurtar caminho". Ao escrever a dedicatória, porém, deve ter confundido o rádio-ator com o galã que ele vivia, e a dedicatória foi feita a "Luiz Faissal". Percebido a tempo o equívoco, o poeta o corrigiu, usando a borracha. Mas os vestígios ficaram, e ele próprio, quatro anos mais tarde, os explicou a Roberto, rindo-se ambos do pitoresco engano. Já então outros livros tinham sido oferecidos por Olegário a Faissal, entre eles "O Enamorado da Vida", que, em autógrafo, foi dedicado "ao maior intérprete da poesia brasileira".
     Corria então o ano de 57 e nada parecia indicar que um mal inexorável já estivesse minando o organismo do cantor das cigarras. Só em 58 as cigarras começaram a sentir que o fim do seu cantor não estava longe. Foi aí, já bem doente, internada na Casa de Saúde, que Olegário entregou a Roberto Faissal a relação dos poemas e sonetos que escolhera para gravação. Relação escrita pelo seu próprio punho, com aquela sua letra clara e bonita. Relação que Roberto guarda como uma relíquia preciosa - "O Poço da Panela", "As Duas Sombras", "A Boêmia Triste". Vinte e uma poesias ao todo, em cada uma das quais ficara um pouco do sensível espírito do poeta e palpitava uma fibra de seu grande coração.
     - Floriano! (disse Olegário a Floriano Faissal, quando da visita que os dois irmãos lhe fizeram). Floriano esse menino me mata!... Imagine que ele quer gravar "O Poço da Panela"!... Eu nunca mais vou poder dizer estes versos!...
     - Era a modéstia que lhe impunha aquele desabafo. Mas, "O Poço da Panela" entrou no programa do disco, pela mão do próprio Olegário - e em primeiro lugar na lista. O que ele, porém, não sabia (sua aparência então perfeitamente saudável) é que aquelas duas terríveis palavras, "nunca mais" já começavam a pairar sobre sua vida, como se fossem as asas do "Corvo" de Edgar Allan Poe. Ele as repetira mais tarde, alguns meses antes de morrer.
     Foi isso quando, já então bem doente, deixou a Casa de Saúde e voltou para sua residência, em Copacabana. Roberto Faisssl fazia-lhe mais uma visita. Dona Maria Clara, a dedicada esposa de Olegário, o nume tutelar de sua grande vida, chamou Roberto a um canto, discretamente e segredou-lhe: - Proibi o Olegário de ouvir seu programa. E como Faissal admirado, lhe perguntasse por que, explicou - Por que ele não pode ouvir  o programa sem se comover demais - a ponto de chorar. E como eu, de uma vez, lhe perguntasse por que chorava, ele me respondeu: - "Eu choro porque sinto que nunca mais vou puder escrever versos como os que estou ouvindo na voz desse rapaz..." - O "nunca mais" se repetia, mas dessa vez não era a modéstia que o ditava - era o pressentimento de que o fim estava próximo.
                                                                      ( ... )
     Deve ter sido profundamente emocionado, vibrando da sinceridade mais enternecida, que o menino de Olegário Mariano gravou os versos do Príncipe dos Poetas Brasileiros. Comovido também deveria estar o maestro Alexandre Gnatalli quando compôs a famosa partitura com o organista Scarambone acompanhada a declamação de Roberto Faissal. Comovidos ficaremos todos nós quando ouvirmos este disco, porque os versos de Olegário - o coração de Olegário cantando em rimas, pulsando em rimas - não podem ser ouvidos sem que o nosso coração, a seu turno, não se sinta invadido pela ternura infinita de que era feito, todo ele, o imortal criador de tantas maravilhas da nossa poesia" (3).  

     O menino de Olegário Mariano, Roberto Faissal (1928-1988), era carioca. Foi ator, apresentador e radialista. Grande defensor da poesia, da música, da arte, enfim. Um baluarte da cultura. Um pescador de pérolas, cujo disco sobre Olegário foi lançado em 1959, quase um ano após a morte do mestre.
     A seguir, alguns dos mais belos versos do "poeta das cigarras", dotados de ternura infinita, que invadem, cantam e encantam nossos corações. 
     
     "Choveu tanto esta tarde/Que as árvores estão pingando de contentes./ As crianças pobres, em  
       grande alegria./Molham os pés nas poças reluzentes". (in Arco-Íris). (4)

                     "Figurinha do outono!/Teu vulto é leve, é sensitivo./Um misto de andorinha e bogari./
                      Num triste acento  de abandono,/A tua voz lembra o motivo/De uma canção que um   
                     dia ouvi." (in Cigarra). (4)

                                  "É amor? Não sei. Esta intranquilidade,/ Este gozo na dor, esta alegria/
                                   Triste que vem de manso e que me invade/A alma, enchendo-a e tornando-a
                                   mais vazia". (in Deslumbramento). (4)

     Assim, esperamos, cada vez mais, atender as expectativas dos nossos leitores, com estas e outras maravilhas poéticas, biográficas e musicais. 

     Você descobriu quantos anos o poeta levou para atender ao pedido, apesar de tê-lo aceito de imediato?

     Pesquisa, texto e arte: Francisco e Winnie Gomes

     Fontes
     1. Barsa, volume 9, SP, 1999, p. 305
     2. Dicionário Biográfico, SP, volume 8, 1984, p. 228
     3. LP "As CIGARRAS continuam cantando", de Roberto Faissal, Gravadora RCA, p. 1959
     4. www.mensagenscomamor.com



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