Capiba, o SENHOR do Frevo Pernambucano

     Você sabe quem foi Lourenço da Fonseca Barbosa? Foi o conhecido músico e compositor pernambucano Capiba. Nasceu em Surubim (PE), a 23 de outubro de 1904 e faleceu a 31 de dezembro de 1997, aos 93 anos, no Recife (PE), a cidade tantas vezes por ele enaltecida. Aprende música com seu pai, o "Professor Capiba". Foi músico de banda no interior da Paraíba. Foi pianista de cinema de 1925 a 1930 em Campo Grande e na capital paraibana até ser transferido para o Recife, onde apresentou seu grande sucesso, VALSA VERDE, após ter fundado a JAZZ BAND ACADEMICA. Depois, fez surgir o BANDO ACADÊMICO, formado por estudantes universitários.
     A música, no entanto, não o tirou dos estudos regulares. Formou-se em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade do Recife. As orquestras por ele fundadas, juntamente com as inúmeras músicas que compôs (mais de 200), desde 1930, ao longo de mais de 70 anos de carreira, fizeram de Capiba o compositor mais categorizado do Recife e conhecido nacionalmente. Porém, foi além: estudou teoria e composição com o maestro Guerra Peixe de quem tornou-se grande amigo.
     Aos 30 anos de idade, é  reconhecido como compositor com É DE AMARGAR, quando, então, passa a receber uma consagração unânime e entusiasmada, tanto por parte do povo como dos seus companheiros músicos. Assim, foi, mais uma vez, quando lançou em 1978, o LP "CAPIBA: 25 ANOS DE FREVO", escolhendo para interpretar suas canções, seu amigo e notável cantar, Claudionor Germano, com direção  do maestro Nelson Ferreira.

     Na contracapa desse disco há um relato histórico sobre o mundo da música feito pelo próprio compositor, ou melhor, sobre o frevo. O autor inicia sua pesquisa com estes dizeres: 

     "Quando a Fábrica de Discos Rozenblit programou um "LP Rozemblit" exclusivamente com composições de minha autoria, a fim de comemorar os meus 25 ANOS DE FREVO, é escusado dizer que me agradou, sobremodo, a ideia dos srs. Rozenblit, muito embora tenha me desagradado a sugestão de eu próprio escrever esta contracapa. A princípio relutei em aceitar, porque, para mim era perigoso falar de minha produção, mas como as minhas escusas não valeram, resolvi aceitar o convite e aqui estou". (1).  
     Relata ainda que pensou em "mil coisas", inclusive nas suas próprias músicas, ou na história da canção É DE AMARGAR, mas, por aclamação popular, decidiu "contar um pouco da história do Freve", gênero esse largamente "abraçado" pelo compositor. Aí, vai buscar informações do chamado "frevo-canção", desde os idos do ano de 1900, chegando ao atual carnaval pernambucano. 
     A narrativa, é claro, impressiona pela riqueza dos detalhes tanto culturais quanto históricos. Sem nenhuma crítica, mas apenas uma observação: Capiba faz com lucidez no seu estudo numa contracapa, o que muitos autores não conseguem  explicar com coerência num livro todo.
     São dele, por exemplo, tanto o questionamento como a justificativa. A saber.
     "E por que marcha pernambucana? Porque ele diferenciava da marcha universal pela sua introdução já sincopada, por aqueles tempos iniciais do carnaval de Pernambuco. Era um novo tipo de música que o povo criava dentro daquele ritmo existente ao compasso de 2/4. Era um novo gênero que surgiu do sangue do povo, como um grito de libertação, ditado pelo prazer de se divertir, de esconder suas mágoas ao som das canções puxadas por trombones, pistons, clarinetes, e demais instrumentos usados para animar os cordões dos clubes. É bem verdade que dessas expansões sempre nascem  os conflitos e desses conflitos está cheia a história do carnaval de Pernambuco. Que o chamado frevo-canção de nossos dias sempre existiu. Ninguém de boa fé poderá negá-lo sem negar a própria existência nosso carnaval. Seria o mesmo que dizer que a marcha puramente instrumental, hoje conhecida unicamente pela palavra FREVO e que data do princípio do século atual (último quartel do século XX) não existe.. Seria negar que a palavra FREVO introduzida em nosso carnaval há uns 50 anos, mais ou menos, não é uma corruptela de FERVER, FERVURA, etc, etc".

     Ao finalizar seus estudo sobre o tema ora em análise, diz o porquê de tanta admiração pelo frevo, cuja carreira já se estende por 25 anos - isto em meados do anos 70, e assim seguiu até sua morte em 1997 -, "com uma melodia que praticamente se impôs a mim e que passou a significar tanto em minha vida, pois marcou bem um tempo em que como moço que era, vivia dominado pela vontade de fazer na vida alguma coisa que mais tarde pudesse ser citada. Se consegui isso, não sei: que o digam os que se lembrarem dos frevos  - canções aqui reunidas (no LP, é lógico) como de alguma coisa capaz de evocar um bom momento ou de guardar uma lembrança. Porque não aspiro a mais do que isso e tenho certeza de que qualquer outro compositor popular diria o mesmo".

     São as emocionantes palavras de um senhor de 69, que desde a juventude lutou pelo devido reconhecimento da cultura, da música, do frevo, enfim. Mas, sem a busca pela glória, pelas coisas efêmeras da fama, dos bens materiais. É a pura exteriorização da humildade do mestre. o qual, após proferir estas palavras, em registro histórico, ainda viveu, fisicamente falando, mais 19 anos, sem parar de fazer canção, fazer poesia, e acima de tudo, emocionando a todos aqueles que bebiam na fonte cristalina capibiana 
     Tem mais: Das mais de 200 composições que nos legou, mais de 100 estão voltadas para o frevo. O restante estão inseridas em outros gêneros musicais, de samba à música erudita, isto é, em outros degraus da mesma escada cultural popular do Nordeste, do Brasil. Por exemplo, Maria Betânia (1944) é uma das suas canções clássicas. Na interpretação de Nelson Gonçalves é show. No entanto, no dueto Nelson Gonçalves e Jessé é o próprio espetáculo. É emocionante. Outro momento de arrepiar é ouvir - também de sua autoria - é Recife, Cida Lendária, seja com João Gilberto, seja com Chico Buarque. Não é apenas uma composição, uma canção com escala de notas, é um hino. Seus versos são estes:

     Eu ando pelo recife, noites sem fim
     Percorro bairros distantes sempre a escutar
     Luanda, luanda, onde está?
     É alma de preto a penar
     Recife, cidade lendária
     De pretas de engenho cheirando a banguê
     Recife de velhos sobrados, compridos, escuros
     Faz gosto se ver
     Recife teus lindos jardins 
     Recebem a brisa que vem do alto mar
     Recife teu céu tão bonito
     Tem noites de lua pra gente cantar
     Recife de cantadores
     Vivendo da glória, em pleno terreiro 
     Recife dos maracatus
     Dos tempos distantes de pedro primeiro
     Responde ao que eu vou perguntar?
     Que é feito dos teus lampiões?
     Onde outrora os boêmios cantavam
     Suas lindas canções. (2)

     Outro poeta popular nordestino, o cantador paraibano lá do Brejo do Cruz, Zé Ramalho, numa de suas canções garante: "Toda cidade é uma lenda". Acho que esse principio seja universal: De Praga de Kafka, de Manaus de Aníbal Beça, de São Paulo de Adoniran Barbosa a Recife de Capiba. Por onde andou Lourenço, fez versos poéticos Capiba. Recife é realmente deslumbrante. É só o visitante observar uma coisinha aqui, outra ali, que estará diante das "noites sem fim", vendo " noites de lua..." ou sentido a "brisa que vem do alto mar".

     Nota - Quem visitar o Instituto Ricardo Brennand, na capital pernambucana Recife, irá descobrir o relógio TISSOT de ouro usado durante toda vida por Capiba, doado por sua viúva, a senhora Zezita ao IRB. (3)

     Pesquisa, texto e arte: Francisco, Winnie e Angeline Gomes

     Fontes
     1. "Capiba: 25 ANOS DE FREVO, volume 1, produção Rozenblit, p. 1978.
     2. letrasweb. com. br
     3. Instituto Ricardo Brennand