Vitalino, um Mestre para a eternidade

     Na semana passada, acompanhados por uma família de Camocim de São Félix (PE), nós do Facetas, estivemos em Caruaru (PE), distante a 130 km da capital Recife. A nossa ida até lá tinha endereço certo: conhecer a Casa Museu Mestre Vitalino, situada no Alto do Moura.

Casa Museu Mestre Vitalino


Mestre Vitalino. Fonte: Casa Museu Mestre Vitalino
     Você sabe quem foi ele? Vitalino Pereira dos Santos, foi um artesão. Ele nasceu no sítio Ribeira dos Campos, Caruaru, a 10 de julho de 1909 e morreu a 20 de janeiro de 1963, aos 54 anos, na sua residência, vítima de varíola. Filho de Marcelino Pereira dos Santos e Josefa Maria da Conceição.
     Em 1915, "aos seis anos fez seu primeiro  trabalho (arte em barro, ou melhor, em cerâmica) - um gato maracajá trepado numa árvore, acuado por um cachorro e o caçador fazendo pontaria. Uma senhora do Recife gostou e comprou (a obra) por dois tustões" (2).
     Artista nato que era, ainda adolescente, em 1924, passa a dedicar-se à música, tocando pífano - inclusive alguns exemplares desse instrumento de sopro, por ele utilizados, estão expostos na Casa que leva seu nome -, quando então, "passa a integrar vários  zabumbas da região". É dessa época as suas primeiras observações sobre temas e elementos folclóricos regionais, criando (e solidificando) definitivamente seu estilo "para a cerâmica figurativa". Vindo a tornar-se uma das referências  da cultura popular brasileira.
Esposa de Vitalino. Fonte: Casa Museu Mestre Vitalino
       Em 10 de dezembro de 1931, casa-se com Joana Maria da Conceição, com quem teve seis filhões: Amaro, Manuel, Severino e Antônio Vitalino, Maria Pereira dos Santos e Maria José Pereira dos |Santos. 
     No final da década de 1940, muda-se com a família para o Alto do Moura, indo instalar-se na rua que hoje leva seu nome, no Centro Histórico e Cultural de Caruaru, onde está localizado o Museu, cujo imóvel e objetos de trabalho e uso pessoal, estão do jeitinho que eram à sua época, e, aberta a visitação pública. Por lá já passaram muitas autoridades notáveis, entre elas, cita-se a ex-presidente do Brasil, Dilma Rousseff. 
     A administração do local fica a cargo de Mestre Severino, mas devido a idade avançada, com 79 anos, o atendimento ao público é feito por sua filha Manuela Vitalino, que mantém vivíssima a arte deixada por seu avô. O visitante conversa por dois minutos com a jovem-artesã e logo constata que: 1. A moça é tão agradável, ou melhor, agradabilíssima, que você pensa tratar-se de um ótimo parente de primeiro grau, que não o via há anos; 2. Mantém o ofício do criador com rigor e tradição; e 3. Narra com detalhes a evolução histórica da arte que herdou. Esses elementos têm nomes próprios: originalidade, simplicidade e autenticidade. 
     Quando da passagem do centenário do nascimento do artesão, a 10.07.2009, a Prefeitura de Caruaru, fincou ao lado do Museu, uma placa fundida em metal, com esta mensagem:

                                                "No princípio, o barro adormecido.
                                                  Em Vitalino às mãos do criador.
                                                  O barro desperta, se faz beleza.
                                                  Retrata a vitalidade de um povo.
                                                  Vitalino é o artista.
                                                  E a arte ganha um mestre, para a eternidade..."

     Numa outra placa, também de metal, com fundo preto e letras douradas, afixada no muro, na frente do Museu, estão os seguintes dizeres:

               "Vitalino Pereira dos Santos  - MESTRE VITALINO retratou  no barro a sua terra
                 e sua gente, criando tipos e expressando sentimentos.
                 Sua arte alcança projeção internacional, afirmando o valor do homem  do agreste
                 e divulgando  CARUARU,  cidade que se faz mais conhecida e amada através de
                 sua arte.
                 Transformada em "CASA MUSEU MESTRE VITALINO", sua humilde moradia
                 foi incorporada ao  patrimônio  municipal pela lei nº 2.070 de 26 de abril de 1969 
                 e guarda o melhor e mais típico de sua criação.
                 HOMENAGEM de CARUARU ao seu artista maior, orgulho de um povo e glória
                 da arte popular brasileira. 
                 Caruaru, 18 de maio de 1971.
                 Administração - Anastácio Rodrigues".

     Ó xente! Quanto maravilhoso seria se o homenageado fisicamente vivo estivesse para absorver com humildade e talento o reconhecimento  pelo seu ofício, por parte dos que amavam sua pessoa e admiravam (e admiram) o seu dom de criação e de manifestação artísticas, com estas duas palavras verdadeiramente necessárias: ARTISTA MAIOR.
      Consta ainda, que em fevereiro de 1990 houve "RESTAURAÇÃO e CONSOLIDAÇÃO DO MUSEU MESTRE VITALINO". De quem partiu essa iniciativa? Daquele que até hoje é considerado por muitos pernambucanos, o grande timoneiro da reconstrução - em vários aspectos - do Estado de Pernambuco, ex-governador Miguel Arraes de Alencar. 
     Essa união de forças aglutinadoras para manter funcionando aquela Unidade Cultural - a única do tipo, voltada para a arte popular local -, é indispensável. Não se mantém viva a tradição cultural de um povo, de um lugar, sem investimentos. Pelo menos é assim em qualquer lugar do mundo.
    Em 2009, o incansável defensor da "força da sociedade civil organizada, politizada e participativa", numa campanha: "VALORIZE A CULTURA NORDESTINA!", o professor, cordelista e escritor Reginaldo Melo, publicou um emocionante poema sobre a vida e a obra de Vitalino, com 34 estrofes e 238 versos. A sensibilidade poética do autor impressiona e emociona o leitor. Grosso modo, cada palavra está no lugar certo, Sobre a pessoa certa: Vitalino.
Poema de Rafael dos Santos Barros.
Fonte: Casa Museu Mestre Vitalino
     Consta numa das paredes do Museu, a íntegra do poema "AS MÃOS DE VITALINO", de autoria de Rafael dos Santos Barros. Caruaru, 17 de março de 1983. Lembra os 20 anos da morte do artista. Leitura obrigatória. 
     A seguir, algumas estrofes desses majestoso estudo em versos e rimas:

"Atenção caros leitores/Pra essa apresentação/Um cordel modificado/Diferente do padrão,/    
E em nome da cultura/Faça uma leitura/De luta e superação".

       Nos versos abaixo, o corrdelista apresenta o Mestre, sua arte e seu herdeiro. Vejamos:

"O Mestre foi Vitalino/Na arte um campeão/Do barro fez sua história/Digna de admiração/
E com o mesmo destino/Severino Vitalino/Mantém hoje a tradição". 

     O poema evolui e é cada vez mais belo. até que surge uma estrofe, na qual o professor lamenta a morte do Mestre, assim como ter ele vivido pouco e de forma pobre. Porém, sua memória persistirá no tempo:

     "Viveu pouco morreu pobre/ seu nome não morrerá,/sua arte conseguiu enricar,/
       como não foi egoísta/vive em cada ceramista/e assim sempre viverá".

     Ao concluir seu maravilhoso poema, o Historiador, conclama:

      "Quem vier a Pernambuco/não deixe de visitar,/nossa famosa feira/pra conhecer e comprar,/
        no museu de Vitalino/lá o Mestre Severino/tem História pra contar".

     E, foi exatamente isso que tanto eu quanto a minha família fizemos: fomos ao Alto do Moura. Naquele momento o Mestre Severino não estava, mas fomos otimamente recepcionados por Manuela Vitalino.
     O genial cantor e compositor paraibano Chico César (54 anos), numa de suas canções, Mama Mundi fala assim do Mestre, tema  deste artigo: 

                                      O mapa que trago agora
                                      é amor de menino
                                      mama mundi me ensina
                                      pra onde seguir
                                      mãe de gagarin
                                      mãe de mestre vitalino
                                      me nina mama mundi.

     Esta é uma singela homenagem à memória, ao legado do Mestre Vitalino feita por nós, autores do Facetas, e um presente aos nossos leitores, principalmente àqueles que ainda não conhecem o Centro Histórico e Cultural de Caruaru (PE), onde fica o citado Museu e muitos outros artesãos e ateliês, no Auto do Moura, além, é claro de outras atrações.

     Pesquisa, texto e arte: Francisco e Winnie Gomes

     Fontes
     1. Visita - Casa Museu Mestre Vitalino
     2. Melo, Reginaldo de, "A História: De Vitalino Pereira à Mestre Vitalino", Caruaru, 2009.
     3. CD Mana Mundi, de Chico César, gravadora MZA, 1999/2000.

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