Modigliani, adorável maldito

    
      O Facetas não tem por tradição publicar artigos sobre pintura, pintores. Mas, quando um desses artistas deixou telas geniais, logo queremos compartilhar com o conhecimento dos nossos leitores. Portanto, aqui está um pouco sobre a vida e a obra de Modigliani, adorável maldito.
     Amadeo Clemente Modigliani, nasceu a 12 de julho de 1884, em Livorno, Itália, e morreu a 24 de janeiro de 1920, em Paris, França, aos 36 anos de idade. Pintor criador de um estilo único influenciado por seus amigos artistas e colegas, sejam italianos sejam franceses. Também foi escultor de personagens em estilo primitivo, caracterizados pelo pescoço longo, a cabeça ovalada e os traços graciosos, ambientação esparsa; pinceladas amplas e simplificadas. 
    Suas obras-primas são: Cabeça de mulher (1912), encontra-se no Museu da Filadélfia, Nu feminino (1912), em Londres, Mulher com cabelo vermelho (1917), Washington, Nu deitado (1917), Retrato de Jeanne ((1918), Pasadina e Cigana com bebê (1919) em Washington.
     Apaixonado por pintura de muito jovem, frequentou a melhor escola de arte de sua cidade, entre 1898 e 1900. Depois partiu para Roma "e, em 1902 se matriculou na Academia di Belle Arti de Florença" (1). Chegou até Veneza atraído por essa arte, "mastambém começou a frequentar as partes mal afamadas da cidade", por um lado. Por outro, passou a se interessar por filosofias radicais como a de Friedrich Nietzsche. Em 1906, chegou a Paris onde "conheceu as obras de Henri de Toulouse-Lautrec, Georges Rouault e Pablo Picasso em sua Fase |Azul, assimilando as ideias desse artista" (1), assim como as de Paul Cézanne. Sua amizade com Constantin Brancusi tê-lo interessar-se pela escultura, continuando a criar traços fortes e lineares e formas simples e alongadas.
     Porém, foi a partir de 1915, que Modigliani passou a viver exclusivamente da pintura. "Seu interesse pelas máscaras e esculturas africanas e evidentes, sobretudo no tratamento dado ao rosto do modelo: plano semelhante a uma máscara, com olhos amendoados, nariz torcido, boca fechada e pescoço comprido" (1). Muitas de suas obras exibem arranjos elegantes e notáveis idealização da sexualidade feminina. 
     Em 1984, quando do centenário do nascimento do pintor, o jornalista Alberto Beuttenmulller uma reportagem - "Adorável maldito" - , cujas primeiras palavras são estas: "Um rebelde na vida e na arte, |Modigliani foi sempre um artista independente, dividido entre o trabalho e os vícios da bebida e do haxixi".
     Se sua arte estava repleta de traços e cores, seus dias estavam manchados por nódoas por levar uma "típica vida romântica fin-de-siècle." Quando morreu, vítima de meningite, seu corpo já estava muito debilitado, decorrente dos maus costumes adquiridos nas noites de Veneza, quando ainda era um garoto de apenas 18 anos.
     "Seu pai era banqueiro, de origem judia; a mãe tinha ancestrais franceses, de Marselha, descendente de Spinoza, o que era um dos orgulhos do artista" (2).
     O meio onde escolheu para viver e solidificar seus traços, suas cores, foi Paris, um laboratório frequentado por grandes mestres. Isso rendeu-lhe notoriedade, mas, somente depois dos 30 anos. Por exemplo, "dois anos antes de sua morte, o sucesso começou a coroar os esforços de Modigliani, mas a saúde já combalida sucumbia aos excessos do haxixi, do absinto e do vinho" (2). Daí, apesar da vida curta, saiu o italiano "colecionando escândalos e obras-primas", assevera Alberto. 
     Os encantos artísticos e boêmios do moço tornaram-se pequenos. Amadeo queria mais. Queria viver em lugares mais efervescentes - em todos os sentidos. E foi com esse querer, ou melhor, ímpeto,  que num dia frio de janeiro de 1906, o jovem de apenas 22 anos de idade, partiu para a capital do mundo, a Cidade Luz, mas, a princípio, desembarcou na Gare de Lyon. Era a metade do caminho para concretizar as suas ambições artísticas e carnais. 
    Quando ali chego ficou deslumbrado. "`Parado em meio aos passantes, o jovem italiano observava a processão de carros e carruagens que se escondiam em meio à densa fumaça invernal. Amadeo não sabia sequer para onde seguir. Surpreendia-o a azáfama da cidade grande. Divertia-o aquela correria de pessoas e máquinas. Chegara a Paris" (2).
      Na Praça Madeleine o visitante consegue um quarto num modesto albergue. No local, a dona da pensão quis saber por quanto tempo fica em Paris. Responde com um vaticínio: "Para sempre". O ambiente era pobre, não deixa dúvida, mas ele só queria um lugar para dormir.
     A questão era: "O que faz um pintor num lugar desconhecido sem amigos? Os primeiros dias parisienses  são de completa solidão. Porém, outros artistas, em busca da glória, passaram por situação igual. E assim, viveu por semanas. Vai ao Louvre e leva consigo um álbum onde desenha sem parar. No final da tarde, volta cansado ao quarto trazendo seus rabiscos. Era "uma forma de falar com o mundo, de retratá-lo, de refazê-lo".
     Nos jornais lia crônicas de arte. Até encontrar uma reportagem no Ilustration, dedicada à mostra coletiva da Societá des Artistes Français, sobre a qual conclui raivosamente: "Estão todos mortos". Não vai mais ao Louvre. E passa a buscar uma "nova linguagem, uma forma nova de expressar-se. Tudo o que vê é velho, ultrapassado, morto" (2).
     De galeria em galeria, chegou a de père Voullard, que logo simpatiza com Amadeo e aceita expor suas obras. A partir daí, foi um pequeno passo para conhecer "os grandes mitos de Paris",inclusive malagueño, como era conhecido Picasso, por meio de Clovis Sagot.
     No dia e hora marcados, o moço segue na direção da rua Notre-Dame de Lorette. Sente as pernas bambas ao avistar "um tipo estranho, vestido de verde-forte". Aproxima-se: "Eu peço desculpas, monsieur, mas o senhor é Pablo Picasso, não é? Meu nome é Amadeo Modigliani. Vi sua pintura na Galeria Sagot e desejava conhecê-lo" (2).

     Simpático, o espanhol o aconselha deixar o albergue e mudar-se para Montmartre, onde há espaço para trabalhar. Fala-lhe também de Utrillo (aquele foi o melhor amigo de Modigliani, além de companheiro de boemia, dividindo a bebida, as loucuras e, inclusive, a cela da prisão - por embriaguez).
     No entanto, a carne é fraca, o corpo não aguenta tantas noitadas. Surge o sinal de um quadro de saúde grave."O primeiro foulard manchado de sangue. Sangue de uma tosse angustiada. Os amigos ficam preocupados". Amadeo procura o médico Paul Alexander, que o ajuda. O artista retorna ao trabalho e à bebida e fazendo uso do haxixi. Os malditos continuam frequentado os bares. São eles: Utrillo, Soutine, Pascin e Modigliani.
     Diante desse quadro existencial ambíguo onde a arte imita a vida e a vida copia a arte, ainda resta a Clemente tempo para amar? Sim. Teve várias amantes. "Uma delas foi a poetisa Beatriz Hastings. Um amor que parecia eterno e terminou na rotina e no desgosto de ambos. Enquanto estiveram juntos, a obra de Amadeo cresceu bastante" (2). O amor dos dois "foi até à loucura", pois drogavam-se com cocaína. Vivia-se a primeira década do século XX, e sua arte começava ganhar reconhecimento. Porém, o amor de Beatriz não resistiu. Desmoronou.
     O pintor parte para amar uma menina de apenas 19 anos, Jeanne Hebuterne, quando ele tinha 33, com quem passa a viver na cidade de Nice. em março de 1918, fica sabendo da gravidez da amada, vindo a nascer a filha do casal em 29 de novembro. "A vida continua difícil." Retornam a Paris a procura de mercado para suas telas. Em julho de 1919, "sabe que será pai pela segunda vez".
     Preocupado pela falta de conforto da família, passa a trabalhar 12 horas por dia. Mas, procura "encorajar-se nas drogas". Doente e sendo abatido pela doença, apesar de só ter 36 anos de idade, promete casamento à sua Jeanne. Não tiveram tempo para realizar a solenidade matrimonial: "em 24 de janeiro (há 99 anos) de 1920, às sete da noite, Modigliani morre. Sua fiel Jeanne, joga-se pela janela da casa de seus pais" (2).

        "NÃO ESTOU EM BUSCA DO REAL OU DO IRREAL, E SIM DO INCONSCIENTE".

     Pesquisa, texto e arte: Francisco e Angeline Gomes

     Fontes
     1. 501 Grandes Pintores, Sextante, RJ, 2009, p. 335 ( por Susie Hodge).
     2. Adorável Maldito, por Alberto Beuttenmuller, revista Visão, 16.07.1884, pp. 80/83.

     

Comentários