EU NUA por Odete Lara

     A busca humana pelo conhecimento, pelo aprendizado, sempre, é algo fascinante. Principalmente por meio das artes, é lógico. Na presente abordagem, eis um exemplo sobre LITERATURA e MÚSICA. Busca-se um livro aqui, cantarola-se  uma canção ali, e assim a gente vai armazenando um pouquinho das coisas d a vida na caixinha do saber.
     A incansável pedagoga paulista Fanny Abramovich  (1940-2017), que dedicou toda sua vida em prol da educação infanto-juvenil, com mais de 40 livros publicados, escreveu estas memoráveis palavras:

                                                                           "Ser leitor é  ter  caminho  absolutamente  infinito,
                                                                                    é ter a  curiosidade  respondida  em  relação a
                                                                                       tantas  perguntas, é encontrar outras ideias,
                                                                                                para  solucionar  questões, é   cada  vez
                                                                                                    mais  esclarecer  melhor as  próprias
                                                                                                           dificuldades,  ou  encontrar   um
                                                                                                                    caminho  para  a  resolução
                                                                                                                                               DELAS...."

     Pronto! Até aqui o leitor não entendeu nada é já pensa em desistir da leitura. Calma! A vida é assim mesmo. O que aprendemos num passado distante, agora volta e se cruza com aquilo que estamos aprendendo no presente. É tal qual a "Construção", de Chico Buarque: "Tijolo com tijolo num desenho lógico". São os momentos distintos que formam o todo do saber. Foi assim também para Odete Lara, personagem do Facetas de hoje, ilustrada em duas fases diferentes de sua carreira artística: como cantora no início dos anos 60 e como escritora no final dos anos 70. Clareou, leitor? Então desista deste artigo.
    Odete Righi Bertoluzzi (2929-2015), de nome artístico Odete Lara, era paulista. Além de destacada atriz, foi cantora e escritora. Morreu há 4 anos, ou seja, a 4 de fevereiro de 2015, na cidade do Rio de Janeiro, aos 85 anos. 
     Recentemente aadquiri VINICIUS DE MORAIS por ODETE LARA, isto é, um CD lançado nos anos 90, o 5º da série "Poesia Cantada", com trilha musical de Geraldo Brandão. Idealizado e produzido por Paulinho Lima. O disco contém 12 gravações: A hora íntima, O poeta e a rosa, Soneto do amor total, O operário em construção, soneto de felicidade, Pátria amada, entre outras.





     Na capa estão o sedutor poetinha e a bela intérprete  (imagem ao lado). Na contracapa está o seguinte comentário de Ruy Castro:

     "Há um lindo e antigo elo poético-musical-fonográfico entre Odete Lira e Vinicius de Moraes. Foi de vozes e mãos dadas com Odete que um tímido Vinicius entrou pela primeira vez num estúdio para gravar um disco - Vinicius e Odete, pela Elenco, em 1962. Eram tempos de astronautas, bênçãos e berimbaus. Os anos se passaram e, enquanto Vinicius tornou-se senhor dos estúdios, dos palcos e das luzes, Odete fez o caminho contrário: escolheu uma sombra onde recolher-se e buscar a sua própria luz interior - que encontrou.
     Agora, os dois estão de volta ao microfone. Só que, desta vez, Odete não tem Vinicius fisicamente a seu lado. Mas ele está dentro dela, dentro de nós, impregnando-nos com sua tremenda poesia.
     Odete diz Vinicius como Vinicius dizia Vinicius: com um véu para disfarçar a clareza do pensamento e com um traço de melancolia para sublinhar a beleza desses versos cheios de compaixão".

     O coração do poeta parou de bater em 9 de julho de 1980. O de Odete, 35 anos depois, quer dizer, em 4 de fevereiro de 2015. Mas tanto os poemas deles como a voz dela, hão de perdurar durante e depois da nossa geração por muito tempo, ainda. Pois, são manifestações artísticas indispensáveis ao nosso bom viver, bom aprender, bom recordar, bem amar. Quem possui esse CD desses dois grandes artistas, tem consigo uma obra de arte da poesia e da música brasileiras. 
     Continuemos então, com Lara. Desta vez, a Odete escritora. Depois de muitos anos reunindo anotações, escrevendo sobre si própria num diário, ela conclui EU NUA. Apresenta o material a um crítico literário, amigo seu e o mesmo por achar que a Odete do Livro não era a da vida real, não aceitou o conteúdo da autobiografia ( e da contundente autocrítica).





     - "O livro não  mostra o que você é. Eu tinha impressão de estar lendo sobre uma outra pessoa.Uma moça boboca, moralista, cheia de preconceitos, queixosa e vingativa", conclui o crítico.
       -  "Mas eu era assim", rebata a autora.
       A nudez era o seu interior. Ela conta tudo e surpreende o amigo. Porém, relata a atriz-cantora-escritora que encerrou o assunto ali mesmo. Um ano depois, "resolvi dá-lo ao Énio Silveira, editor amigo, para ler:
       - Quero editar já. Vou mandar fazer um copy-desk mínimo, só para reparo gramatical. Quero manter tudo da forma que você transmite". Resultado: em 1975, foi publicada a primeira edição; em 1976, a segunda.
      São do próprio Énio, nas "orelhas"da segunda edição, as seguintes considerações, sob o título: A LONGA VIAGEM DA NOITE PARA O DIA:

     "É difícil precisar qual o motivo exato que leva uma pessoa a escrever - e publicar uma autobiografia: desejo de comunicação passiva, em que as palavras se espalham sem eco nem resposta? Generosidade na comunicação de experiência vivida, esperando que ela passa ter utilidade para terceiros? Escrever de si para si mesma? 
     Talvez seja possível dizer-se que um pouco de cada desses motivos forme a essência dos confessionários, das "revoluções". Poucas pessoas, contudo, têm coragem de se expor com total honestidade e candura, de sorte que as autobiografias passam a ter caráter frequentemente ficcional, o autor dando aos episódios em que se envolveu e às personagens que o cercaram, em bom ou mau relacionamento, uma orquestração a seu gosto. 
     EU NUA, de Odete Lara, é raro exemplo do uso de completa franqueza em termos de revelação de si própria. Ao fim de sete anos de psicanálise - "o tempo necessário para demolir, até o ultimo tijolo, a antiga construção do meu ser e reconstruir, pedra por pedra, o novo edifício de mim mesma" - teve a coragem de se expor totalmente, sem peias ou injunções. "só por ter me reconcebido dentro do ventre de minha própria verdade". 
      Em linguagem que é simples e chocantemente direta até mesmo quando se permite certos rebuscamentos (ao lhe sugerirem que desse melhor forma literária ao texto,  que procurasse um ghost writer para isso, respondeu com a mais encantadora sinceridade: "Como vou recorrer a outro fantasma, se foi justamente o meu que me obrigou a escrever?"). Odete Lara nos conta tudo dessa acidentada viagem existencial até o encontro de si própria que hesitou bastante antes de se decidir a publicar sua história: "... escrever foi uma necessidade. E publicar? De que vale dissecar minha vida e expô-la aos outros?"
     Acabou por se convencer de que valia a pela fazê-lo. Artista famosa de cinema e de televisão, imagem conhecida, cobiçada, invejada por milhões de homens e mulheres anônimos, seu livro poderia prestar bom serviço "a alguma pessoa que se veja enredada nos mesmos problemas que eu, ajudando-a a ver que não está só, e o quanto custa furar o cerco de aço que a sociedade nos arma antes mesmo de termos nascidos".
     EU NUA alcança plenamente tal objetivo. |Com dura franqueza, sem qualquer pena de si própria, mas com grande dose de compreensão das limitações humanas - suas e alheias -, Odete Lara nos enreda na saga apaixonante de uma bela mulher que se desnuda dos artifícios, conveniências e segredos, depois de sofrida infância, de perigosa exploração (passiva e ativa) de seus encantos físicos no esplendor da juventude, e do doce perfume do sucesso profissional, para revelar-se em plenitude como pessoa. O processo lhe custou muito, em termos emocionais ("Tive que sofrer de novo, com a mesma intensidade, todas as emoções que tinha vivido"), mas essa espécie de cartase a que se entregou tocará e inspirará a todos os que a puderem ler.
     Sendo um livro em que demonstra amar aos outros como a si mesma, EU NUA não se alimenta de ódio ou vingança com pessoas vivas ou mortas... não é mera coincidência. Se omito seus verdadeiros fatos, é porque o respeito que tenho pelo próximo me impede de expô-las arbitrariamente ao conhecimento do público da mesma maneira que exponho a mim mesma".

     Dessa forma encerra Énio. Se o seu resumo é brilhante, chocante, emocionante, o livro então, com 247 páginas é muito mais ainda. Na contracapa, a própria editora dita o tom da obra:

     "Esse título aparentemente gratuito e insólito constitui como que uma síntese deste livro corajoso e honesto em que Odete Lara nos relata sua acidentada viagem existencial até o encontro de si própria.
      De fato, ela nos permitirá acompanhar sua saga desde as origens modestas, o trauma da orfandade materna ainda na infância, a revelação de seu extraordinária ria beleza física - perigosa arma de dois gumes - e o sucesso como estrela de cinema e televisão, até o momento em que, amadurecendo na plenitude de seus valores e propósitos como pessoa, ela finalmente se desnuda para si mesma,  ser artifícios nem segredos.
      EU NUA é um livro apaixonante e revelador, que tocará fundamente a todos os que o lerem". cuja capa traz uma foto de Afonso Beato e Euclides Marinho, numa montagem de Euclides marinho, com um olhar austero da atriz e o busto complemente despido - artisticamente falando.

     É realmente um livro interessante e, de necessária leitura para quem pretende se despir para si mesmo (a) sobre aquilo que acumulou ao longo dos anos sem serventia alguma. Reconstruindo assim, um um novo edifício da vida e seguir vivendo novas verdades.


     Fontes
     1. CD Vinicius de Moraes por Odete Lara, coleção "Poesia Falada", vol. 5, Luz da Cidade Produções Fonográficas,  p. 1998.
       2. Lara, Odete. Eu Nua. Civilização Brasileira, 2ª ed. Rio de Janeiro, 1976
    


    
    
    

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