Amelinha: tempo de inspiração

     Você já ouviu falar de Amélia Cláudia Garcia Collares? Com certeza sim. Trata-se da cantora e compositora cearense Amelinha (68). De família de músicos, aos 12 anos já se apresentava nas festas escolares. Portanto, envolvida com a música desde criança. Mesmo quando foi para São Paulo fazer vestibular para Comunicação, continuou cantando e recebendo incentivo de amigos. 
     Em 1975, iniciou sua carreira profissional, acompanhando Vinicius e Toquinho, em Punta del Este, Uruguai. Em agosto daquele ano, em Itapoã, o poeta da paixão registrou: "Vá, jandaiazinha, abra as asas, alce voo e cante por aí tudo, porque você canta lindo. E já que eu estou dando bandeira, se a estrela da manhã cantasse, a estrela que ele desejou só para si num poema tão casto, seria como você, com esse timbre puro e cristalino de menina fazendo roda, que deixa o peito da gente transparente e refrigera o ar em torno".

     "Estas palavras de Vina foram escritas para que eu colocasse em meu primeiro LP. Um presente do poetinha para a jandaiazinha. Só agora publico este casto poema, através de "Água e Luz", porque, além de ser o 1º de uma nova fase, sinto que, na verdade, este é o meu primeiro disco, além de ser o melhor, por mostrar Amelinha em suas tantas possibilidades vocais, revelando regiões nunca navegadas de minha voz, sem qualquer malabarismo, sem sofrimento.
     Em "Água e Luz", vivi apenas a angústia necessária para o artista. A angústia da criação. No mais ele jorrou suave como o véu de água dessa cachoeira que me banha e é capa. Tranquilidade, convicção, alegria, brincadeira, amor" (Amelinha. Rio/janeiro de 1984) (1).

     Em 1977, lança seu 1º LP, o qual obteve vendagem modesta. Em 79, lança "Frevo Mulher". Foi uma febre nacional, ganhando Disco de Ouro. Porém, "o fenômeno aconteceu em 1980, quando a cantora colocou abaixo o Maracanãzinho no Festival MPB 80, cantando Foi Deus Quem Fez Você (de Luiz Ramalho), ficando em 2º lugar, e convertendo-se num estrondoso sucesso que tornou-se marca registrada da cantora, lançado em compacto homônimo seguido do álbum "Porta Secreta" ambos Disco Quádruplo de platina com mais de um milhão de cópias vendidas" (2). 
     Ainda naquela década, outros grandes sucessos foram emplacados, como Mulher Nova, Bonita e Carinhosa, Faz o Homem Gemer Sem Sentir Dor, Romance de Lua, Lua e Água e Luz. Tem mais: gravou Fagner, Gonzaguinha, Elomar, Geraldo Azevedo, Moraes Moreira, entre outros. 
     Entre 1080 e 1984, foram lançados 5 compactos. Em 85, "Caninho do Sol" e em 87 "Amelinha", ambos LP. "Romance de Lua, Lua", por exemplo, a canção homônima, é tradução de um poema do notável poeta espanhol García Lorca em "Romanceiro Cigano" (ou "Romancero Gitano", no original).
     Em 94, "Só Forró";em 96, "Fruta Madura"; em 98, "Amelinha"; em 2000, "20 Super Sucessos"; em 2001, "Vento, Forró e Folia"; em 2002, "Pessoal do Ceará, com Ednardo, Belchior e Fagner (todos LPs); em 2011, o CD"Janelas do Brasil", de vários compositores (veja a seguir); em 2012, o CD e o DVD "Janelas do Brasil", gravados ao vivo, onde a intérprete brilha em suas frestas com temas inéditos de Alceu, Chico César, etc.
     Entre 78 e 83, esteve casada com o cantor paraibano Zé Ramalho, com quem teve um casal de filhos. Nessa época, além de gravar várias canções dele, ainda teve alguns dos seus discos produzidos pelo marido.
     Vamos então ao CD "Janelas do Brasil", gravado ao vivo no Teatro Fecap, São Paulo, em 16 de maio de 2012, pela gravadora Lua Music, produtor Thiago Marques Luiz, direção musical de Dino Barioni,  com 16 músicas, mas só chegou ao mercado comercial em 2013, ou seja, a exatos 7 anos. O repertório é impecável. São compositores da antiga e da atual gerações, com participação de Fagner, Toquinho e Zeca Baleiro. O CD é realmente um  show!
     São essas as canções: Galos Noites Quintais (Belchior), Terral (Ednardo), Sol de Primavera (Beto Guedes  e Ronaldo Bastos), Ai Quem Me Dera (Vinicius e Toquinho), Valsinha (Chico e Vinicius), Foi Deus Quem Fez Você (Luiz Ramalho), Água e Luz (Tavinho e Ricardo Magno), Felicidade (Marcelo Jeneci e Chico César ), Quando Fugias de Mim (Alceu Valença e Emannoel Cavalcanti\), Ponta do Seixas (Cátia de França), O Silêncio (Zeca Baleiro), Asa Partida (Fagner e Abel Silva), Mulher Nova, Bonita e Carinhosa...(Zé Ramalho e Otacílio de Souza), Depende (Fagner e Abel Silva), Flor da Paisagem (Robertinho do Recife e Fausto Nilo) e Frevo Mulher (Zé Ramalho).
     Esse trabalho nos remete aos anos 70, 80 e 90, quando as gravadoras lançavam LP e fita K7, gravados ao vivo (já está longe esse tempo), Você entrava numa discolândia e logo ficava sabendo que o valor do "ao vivo" era 1/3 mais caro que os "comuns" pela novidde. Por isso, a surpresa sobre o CD aqui comentado, feito em pleno 2012. Hoje tudo é virtual: baixa-se aqui; salva-se ali, e pronto. é tudo digital. Nada contra a era do progresso informacional. Sabemos tratar-se de um caminho sem volta. Poucos têm a coragem de Amelinha em lançar um trabalho tão bom e no estilo à moda antiga. 

     Sobre essa empreitada bem sucedida, a autora diz: "Eis-me aqui novamente com meu balde de canções. Trago comigo novas parcerias em fina sintonia com velhos amigos que me presenteiam carinhosamente com suas maravilhosas presenças neste DVD (e CD), JANELAS DO BRASIL, que surge impulsionado pelo êxito e acolhimento espetacular do Janelas gravado em estúdio lançado no final de 2011". 
     "Isso me faz refletir na força e no poder da perseverança e da fé... Quantos aqui ouvem 'os olhos eram de fé!!!' E, portanto, passo a todos quanto queiram participar e curtir este nosso esplêndido momento, como um presente do fundo do meu coração, estas novas imagens onde me entrego de corpo e alma, sempre convicta de que o essencial é que vai prevalecer."
     "Agradeço a Deus, por mais este trabalho se tornasse possível. Continuarei sempre voando como as andorinhas no verão que uma só, não faz, levando nas plumas e nas asas, agora, as experiências, vividas, a maturidade, ainda a menina de olhos de flor da paisagem e o meu canto sincero de amor, esse canto intenso de jandaiazinha como bem disse o poetinha camarada Vinicius de Moraes, que assim me batizou nos caminhos dos sons por onde viajo com muito alegria e até hoje e enquanto houver fôlego"
     "Há sempre um novo olhar de compaixão e com paixão viver sempre o que há pra viver, porque a vida é pra ser bem vivida com sentimento de gratidão, então quero trazer à memória somente aquilo que me traga esperança".

     Como ela mesma diz, seguirá cantando. "Cantar é viver, é vida. E vida é arte". Em 2017, gravou o CD "De Primeira Grandeza", com 10 músicas de Belchior. Só lembrando. No próximo dia 30 deste mês, fará uma apresentação no Centro Cultural João Nogueira - IMPERATOR (com T) (RJ) com o show "Amelinha - De Primeira Grandeza - As Canções de Belchior".
     Com quase 50 anos de carreira, ela garante que sempre teve ótimo relacionamento profissional com Bel, como o chamava desde os anos 70. Apesar do cantor ter ficado uma temporada morando fora do Brasil, nunca deixou de manter contato. "Respirei fundo e me entreguei de voz e alma. Eis-me aqui novamente com mais um álbum no qual, além da composição "De primeira Grandeza", veio uma cascata de outras músicas do saudoso amigo, a compor esta nova e delicada sinfonia".
     Com mais de uma centena de canções por ela interpretadas, aquela que marcou sua carreira foi, é e será Foi Deus Quem Fez Você, do compositor paraibano Luiz Ramalho (1931-1981), do clã dos "Ramalho da Paraíba". A canção estava  havia  um ano nas paradas de sucesso em todo Brasil, quando seu criador faleceu, em 18 de julho de 1981. Até hoje, 39 anos do sei lançamento, ainda é uma das músicas mais ouvidas nas rádios Brasil afora. 
     Esses relatos engrandecem  e emocionam a todos nós, independente de qual geração seja seu fã, seu ouvinte. Eu, particularmente, ouço Amelinha desde Frevo Mulher. O LP adquirido no final da década de 70, está em perfeito estado e está  no acervo material do Facetas com outros discos, CDs, etc.. Amélia Cláudia Garcia Collares é bela em tudo. Ouvir "Janelas do Brasil", a emoção se repete. Ouvi-la interpretar Terral e Valsinha (Toquinho ao violão|), Sol de Primavera, é algo fascinante. Mas, Felicidade, se supera em todos os aspectos, principalmente pela poesia de seus versos e pelo som de sua intérprete. São dela (Felicidade) estas palavras:

                     "Quando chover... deixa molhar...
                       Para receber o sol quando voltar.
                                           (...)
                       Melhor viver, meu bem
                       Pois há um lugar em que o sol brilha pra
                       Você. 

     Sendo assim, amigos leitores, leiam conosco: "Há sempre um novo olhar de compaixão e com paixão viver sempre o que há pra se viver".

   
       Fontes
       1. LP "ÁGUA E LUZ".Amelinha. CBS, p. 1984.
       2. www.amelinhafrevomulher.com.br. (site oficial).
       3. CD JANELAS DO BRASIL. Amelinha. Lua Music, RJ, p.2013
       4. www.vagalume.com.br
 
    















































































    

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