Elis, Elis

Quadro adquirido no hall da Ufam, em março de 1985

       Há um provérbio que diz: Antes tarde do que nunca. Faz sentido com o nosso tema de hoje. Trata-se da cantora Elis Regina (1945-1982). Nada, porém, sobre sua biografia especificamente, mas, sim, sobre sua vasta e rica discografia, apesar da curta carreira de pouco mais de 20 anos.
     Ouvi falar sobre ela, pela primeira vez em 75. E, somente a vi pela TV em 78, cantando Águas de Março, ao lado de Tom Jobim. Ficamos, eu e outros telespectadores, deslumbrados. Eu morava no interior do Estado a mais de 700 km distante da capital Manaus (AM). A tv, uma Toshiba de 14 polegadas em preto e branco, de válvula e cheia de chuviscos. Pior: era do vizinho.
     A partir daí, passei a adquirir os discos de Elis. Quarenta anos depois,  nós do Facetas, temos tudo que encontramos da sua arte (não temos tudo o que ela produziu, é claro): LPs, CDs, DVDs, livros, revistas, posters, etc. Quem lida com arte, cada um ao seu modo, deixa um legado que acaba se perpetuando no tempo. Foi assim com Dante, Da Vinci, Gardel, Elvis, Gaudí, Lorca, entre outros. Está sendo assim, também, com Elis e outras centenas de artistas brasileiros.
    Em 85, a jornalista Regina Echeverria lançou "Furacão Elis", com apresentação de Hamilton Almeida Filho e cronologia e discografia de Maria Luiza Kfouri. Entre outras publicações sobre a cantora, não conheço uma outra obra mais completa. "É um livro reportagem", feito com jornalismo sério, com amor, mas que "nos dilacera a alma e o coração".
    Foi por meio da da Elis, que durante muito tempo, "morríamos de saudade do Brasil". "Toda geração tem, um curto espaço de tempo, que descobrir a sua missão - cumpri-la ou traí-la" (Gracias Senor, Zé Celso, Oficina - Brasil).
     "Tempos de Elis, do qual somos todos, de uma certa maneira, apenas sobreviventes. Portanto, "abaixo a morte, viva a inteligência! O brilho e o gênio da raça, juntos". A outra Regina, a autora, durante três anos fez da sua vida jornalística uma obstinação, e fez sua maior e melhor matéria como profissional e testemunha do seu tempo, nas artes e nos espetáculos da cena brasileira. Os últimos seis meses antes do término do livro, trabalhou todos os dias. "Passou a termina-lo com paciência, competência, dor e alegria. Um ofício feito com arte ao longo de mais de cem entrevistas, momentos de explosões de personagens, até o voltar pra casa em prantos", garante Hamilton, seu marido.
     "Furacão Elis é isso: um competente trabalho de uma jornalista, cercada de jornalistas por todos os lados. Todos mergulhados na vertigem de contar a história de todos os dias, a sangue-quente, abordando os temas de sua geração e do tempo de seu país", finaliza Almeida Filho.
     A discografia de Elis é algo impressionante ( e fascinante). Em apenas duas décadas (1961-1981), a começar por Viva a Brotolândia, pela gravadora Continental, foram vários discos; shows; viagens ao exterior; lançou novos compositores; fez parcerias musicas, etc. Sua capacidade para interpretar era algo divino, inesgotável. Um exemplo grandioso, para não dizer espetacular: prometeu ir aos estúdios gravar com Adoniran Barbosa. Lá ele ficou quase duas horas à sua espera. Quando chegou -pra lá de atrasada -, juntos, em 30 minutos a gravação ficou pronta - sem ensaios e sem cortes.

     Os preferidos de Elis: . Tom Jobim - 24 músicas. Só dele 9; com Vinicius: 8; com Chico Buarque: 3, com Aloysio de Oliveira: 2; com Dolores Duran; com Jararaca: 1. João Bosco - 19 músicas. Com Aldir Blanc: 16; com Aldir Blanc e Cláudio Tolomei: 2; com Paulo Emílio:1.Edu Lobo - 18 músicas. Só dele: 1; com Vinicius: 4; com Ruy Guerra: 4; com Gianfrancesco Guarnieri 3; com Torquato Net: 2; com Capinam: 2; com Lula Freire: 1; com Oduvaldo Viana Filho: 1. 4º Gilberto GIl -17 músicas. Só dele: 14; com João Augusto: 1; com Torquato Neto: 1; com Duda: 1. Milton Nascimento - 13 músicas. Só dele: 2; com Fernando Brant: 9; com Ronaldo Bastos: 3; com Márcio Borges: 1. Baden Powell - 11 músicas. Com Paulo César Pinheiro: 6; com Vinicius: 5.Chico Buarque - 11 músicas. Só dele: 5; com Tom 4; com Francis Hime: 2. Ivan Lins - 9 músicas. com Vitor Martins: 6; com Ronaldo Monteiro de Souza: 3.Caetano Veloso - 6 músicas (todas só dele). Marcos e Paulo Sérgio Valle - 5 músicas. Roberto Menescal e Ronaldo Bóscoli - 5 músicas.

     Os letristas mais gravados: 1º Aldir Blanc - 21 (com diversos parceiros). Vinicius - 12 ( com diversos parceiros; 1 só dele). Chico - 11 (6 só dele; 3 com Tom e 2 com Francis Hime). 4º Fernando Brant - 10 (9 com Milton; 1 com Beto Guedes). Paulo Cesar Pinheiro - 9  (com diversos parceiros). Ruy Guerra - 8 (com diversos parceiros).Vitor Martins - 7 (6 com Ivan Lins; 1 com Sueli Costa). Ronaldo Bóscoli - 6 (5 com Menescal; 1 com Luiz Eça)
     Obs: Dos compositores Roberto e Erasmo Carlos, interpretou um grande sucesso: As Curvas da Estrada de Santos; de Belchior, a inesquecível Como Nossos Pais; de Renato Teixeira, um clássico Romaria, além de outros.

     Gil, o  4º mais gravado por Elis, garante que conheceu a cantora em meados dos anos 60, no apartamento dela, na Av. Rio Branco, quando ele era administrador da companhia Gessy-Lever. Logo ela ficou muito impressionada pelo trabalho artístico dele. Ali mesmo ela ouviu algumas canções, como Louvação e Lunik 9.
     Para ele, Elis representava uma novidade, uma legitimidade na música brasileira. "Ela era diferente de todas as cantoras.", na gestuália, na voz, no modo de cantar, no repertório, etc. "Eu fui lançado por ela - garante o baiano -, embora a Gal tenha sido a primeira a gravar música minha, mas ela (Elis) tinha um zelo em sempre incluir músicas minhas em seus discos".
     Porém, com o passar do tempo, as coisas foram ficando mais difíceis para lidar com a Elis. Ela passou a criar "a crosta da dificuldade" entre os dois. Foram, "pelo menos uns três ou quatro estremecimentos". O primeiro durante o tropicalismo.  Por exemplo, quando de Domingo no Parque, n não estavam se falando. Numa entrevista, ela disse: "Gil é um compositor em deterioração, um artista que está se deteriorando".
     Essa declaração não deixou apenas Gil entristecido, mas "todo o pessoal (...), todo um círculo ". Os encontros tornaram-se raríssimos, esporádicos. Não havia clima favorável para manter um relacionamento profissional estável, se o lado pessoal está instável. Logo ele que durante algum tempo alimentou por ela uma amor platônico ("ela nunca soube, mas desconfiava"). Só voltaram a se ver em 72, 73, quando a artista gravou Oriente e Doente Morena. 
     Mas, logo depois, a situação voltou a ficar tensa, esquisita, quando lançou "Oriente, porque ela cantava una frase, uma palavra errada na música, e depois eu me referia a isso. Não cheguei a falar com ela, mas ela ficou sabendo. É aquele pedaço que diz: 'aranha vive do que tece'. Ela gravou: 'aranha duvido que tece'. Ela deve ter pegado a gravação e não entendeu a letra. Quando ouvi fiquei abismado com aquilo, era muito diferente e engraçado um equívoco dessa ordem, como duvidar de uma coisa daquelas? Que coisa estranha a Elis não conhecer esse ditado, 'aranha vive do que tece'. E me lembro que ela não gostou de eu ter dito (isso)".
     Somente quase dois anos depois desse episódio, ela voltou a manter contato. Quando foi-lhe enviada a composição O compositor me disse, feita exclusivamente para ela. "É uma coisa que eu queria dizer por causa do excesso de tensão que eu estava percebendo nos discos dela naquele período. Eu quis mandar um recado com a música (...). E quando a gravação veio, me pareceu que ela assumiu uma atitude exatamente oposta do que eu achei que estaria comunicando (...). Quando ouvi fiquei com essa sensação (ela tinha virado uma pedra). Foi uma época em que Elis estava bem estremecida com todo mundo. Estava com dificuldades com Tom, depois daquele disco que fizeram na América (do Norte). Estava com dificuldades com o Milton. Qualquer lugar que a gente ia, tava sempre ocorrendo um probleminha qualquer com a Elis".
     Mesmo nesse clima, ele fez "Rebento e ela não gravou". Alegou que não entendeu a harmonia.Só veio gravar a música, depois da gravação do próprio Gil. "Aí, em Se eu quiser falar com Deus houve um problema de outra ordem. É incrível, minha vida com a Elis era uma coisa impressionante. Sem querer". Ele ia gravar essa canção. Ela queria uma composição para o novo disco, o autor mandou Palco. Ela não gravou. Alguns dias depois, telefonou dizendo que havia gravado e ia lançar Se eu quiser falar com Deus. "Mas eu estou lançando um compacto com essa música, como é que a gente faz? Ela não colocou a música no disco. Só após a morte da cantora, a Odeon lançou a música.
     "Elis mudava de ideia de cinco em cinco minutos". E, quando adotava uma nova ideia, passava a ironizar da anterior.. "Uma coisa complicada". Elis não se conformava com a dúvida. Era, para ela, uma espécie de fraqueza. "Mas isso foi devido muito à formação dela (...). Alguém sempre chegando e dizendo: decora, leia isso ou aquilo (...). Quer dizer, me parece assim, mas estamos especulando sobre essa personalidade aparente, esse nível de consciência verbal dela".
     Porém, no fina de sua entrevista à outra Regina, o mestre Gil reconhece o peso ("teus ombros suportam o mundo" - Drummond) que o artista carrega: seja pela fama, pela crítica ao seu trabalho, pela a admiração dos fãs, pelas opiniões políticas, ou seja, pela vida pessoal que leva.  
     "Hoje em dia (em 1985) eu sei muito bem como é para um artista grande assumir a importância inteira de uma época na sua pessoa. Eu sei como é esse tormento, essa dualidade profunda que se instala numa pessoa pública famosa, que detém o poder de alguma ordem. É a luta contra o ímpeto de ser importante e o ímpeto de ser feliz".
     Ontem, quando estava concluindo a pesquisa para este comentário, fui presenteado por minha filha Winnie (via Correios), com a obra: "Elis - Uma biografia musical". Chegou na hora certa e, curiosamente, ela não sabia qual era o tema da semana. A apresentação desse livro é feita por Maria Luiza Kfouri, onde ela resume tudo, assim: "Há muitas razões que explicam o fato de que - mais de 30 anos depois de sua morte - Elis, ao contrário de ter sido esquecida, continue a ser cultuada e, como diz Fernanda Montenegro, "cante cada vez melhor". Como um joalheiro que sabe muito bem a preciosidade que tem eu suas mãos, Arthur de Faria não só explica cada uma dessas razões como dá a Elis Regina a biografia musical que ela há muito merecia".
     Acima, ela expressa a verdade explícita: ouça uma interpretação de Elis - seja dos anos 60, 70 ou do início dos anos 80 - e você tem a sensação que aquela canção fora lançada no ano passado. Um exemplo: meu pai ouvia Romaria e dizia que na mente dele, estava sendo ouvida pela primeira vez e ainda perguntava: "De onde vem tanta beleza, meu filho?"
     Aos nossos admiráveis leitores, eis aqui Elis, Elis, título deste artigo, de Estevan Natolo Jr e Marcelo Simões, cuja canção foi interpretada por Emílio Santiago, no Festival dos Festivais, da Rede Globo, de 1985, sendo classificada entre as 12 que deram origem ao LP lançado pela SomLivre.

                  "DEUS MEU DEU ESSA VOZ, E ISSO É A MAIOR COISA QUE TENHO."
                                                                                                                                           (Elis)

       Pesquisa, texto e arte: Francisco e Winnie Gomes
  
        Fentes
        1. Echeverria, Regina. Furacão Elis. SP, Círculo do Livro, 1985.
        2. Faria, Arthur. Elis: uma biografia musical. Porto Alegre, Arquipélago Editorial, 2015.





























                               

    

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