Clara, Claridade

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    Em 22 de dezembro de 2007 foi presenteado por minha filha Winnie com Clara Nunes: Guerreira da Utopia. São mais de 300 páginas de uma excelente obra de autoria do jornalista, escritor e pesquisador carioca Vagner Fernandes. É, sem dúvida um trabalho completo, e sem atalhos, sobre a vida e a carreira de Clara Francisca Gonçalves (1942-1983), a cantora Clara Nunes.
      Ouvi sua voz pela primeira vez em 1976, quando foi lançada Canto das Três Raças (Paulo César Pinheiro - Mauro Duarte). A partir daí sai à procura dos discos dessa mineira. Na minha percepção juvenil cada LP adquirido era melhor do que o anterior. Até que, em abril de 1983, a triste notícia de sua morte aos 40 anos de idade. No entanto, a sua voz continua viva. Vivíssima!  As mais de 250 gravações por ela deixadas continuam atuais, assim como atuais estão Elis, Elizeth, Angela, Dalva, Carmen, entre outras.
      Na "orelha" da obra acima citada, Antonio Carlos Austregésilo de Athayde assina: "Para aqueles que desfrutaram de momentos de proximidade de trazer de volta a presença fascinante de uma das mais luminosas estrelas da canção popular do Brasil". 
      De imediato, naquele naquele clima de Natal de 2007, li e reli "Clara". É "incontida emoção" a cada página virada. Pois nelas estão registradas, é óbvio, "a Clara fascinada pelas crianças (não teve filho), a Clara mística, a estrela que mesmo nos momentos de glória, jamais deixou de ser a figura doce, carinhosa, compreensiva, sensibilizando plateias e amigos", ou ainda, "a Clara vitoriosa em apresentações no exterior". 
      Por sua vez, José Louzeiro, ao apresentar o estudo ora em análise, diz: "Nestes tempos de leitura acossada pela ficção televisiva, os cativantes jogos eletrônicos e as navegações via internet, o gênero literário - BIOGRAFIA - resiste e, curiosamente, vem ocupando um número cada vez maior de escritores".  Referência direta ao brilhante jornalista aqui apresentado.
      Trabalho este que relata "a história da menina que viveu um sonho e este lhe transformou a vida. Deu-lhe forças e alegrias para o enfrentamento contra adversidades. Clara é a alma boa que, fisicamente viveu entre nós, cantando alegrias e celebrando a paixão humana em nível superior. Quando se foi, no auge do sucesso, deixou atrás de si um rastro de luz, encantamento e amor ao próximo", constata Louzeiro. 
      A pessoa de Clara Francisca é um exemplo a ser seguido por todos aqueles que têm projeto de vida, que têm meta profissional a ser cumprida, apesar de comprido seu alcance. Antes de sua sagrada projeção nacional como cantora, sua família viveu momentos trágicos. O biógrafo, por exemplo, descobriu que a "juventude da ex-operária (que obteve emprego como tecelã numa Fábrica de Tecidos aos 16 anos de idade), em certo momento, terminou perturbada por um lance de amor e uma mentira que conduziu a um crime (de assassinato) e a mudança de sua vidinha de menina provinciana, habituada aos estreitos limites da cidadela mineira de Cedro. Por causa do disse-que-disse, Clara decidiu mudar-se para Belo Horizonte, onde continuaria a trabalhar para sobreviver".  
      Nesse período, a jovem "passou a cantar no coral de uma igreja e a imaginar-se intérprete de primeira grandeza" da música brasileira.  Era isso que lhe interessava: cantar. Sonhava grande e foi à luta. "De aparência frágil, tinha, no entanto, disposição física, espiritual e firmeza de princípios", atesta o apresentador.
      Lutou e chegou ao topo de sua carreira. Mas, para tal, contou com a ajuda de figuras honestas e solidárias, à sua causa, à sua pessoa, por um lado. Por outro, teve de aturar indivíduos polêmicos e contraditórios. Não se deixou abater. Seguiu firme. Ninguém poderia mudar o curso de sua trajetória. Ela impôs-se pelo talento sem deixar de lado o dogma da religiosidade. Por sinal, "essa característica tornou-a extremamente popular. Quando morreu, num "acidente cirúrgico", provocou comoção nacional. Não deixou seguidoras. Clara Nunes continuará a ser única!", finaliza Louzeiro.
      Ao longo de anos, conseguimos praticamente todos os discos de Clara, inclusive as coletâneas. São musicalmente valiosos. Por último, adquirimos O Canto da Guerreira (volumes 1 e 2), de 1989 e 1990, respectivamente. No primeiro, o compositor e poeta carioca Paulo César Pinheiro (70 anos), autor de mais duas mil composições e mais de 120 parceiros músicos e letristas, o qual foi casado com Clara de 1975 a 1983, resume o seguinte:
      "Fazer uma coletânea de sucessos (14) da carreira de uma artista como Clara é sempre muito difícil. Ela emplacava pelo menos três por LP". Nesse disco estão canções do início da carreira da cantora, como: Conto de Areia, O Mar Serenou, Canto das Três Raças, Coração Leviano, Feira de Mangaio, etc.
      No segundo, o comentário sobre o projeto do disco é da jornalista Diana Aragão. São delas as seguintes citações: "Os versos iniciais do canto de fé da guerreira Clara Nunes dão exata medida do seu carisma e de sua importância na nossa música popular". Nesse LP, de 16 canções selecionadas imperdíveis, estão, entre outras: Menino Deus, Juízo Final, Alvorecer, Nação, Morena de Angola, Serrinha, Na Linha do Mar.
      "Ao longo de seus 17 anos de sucesso a tecelã da vida real (...) e das canções deixou, ´principalmente no samba, marcas indeléveis".  A partir do LP Alvorecer de 74, com vendagem de meio milhão de cópias (a 1ª cantora a atingir essa marca no Brasil). Em 75, Claridade; em 76, Canto das Três Raças; em 77, As Forças da Natureza; em 78, Guerreira; em 79, Esperança; em 80, Brasil Mestiço; em 81, Nação (seu último trabalho. Gravado em 81 e lançado em 82), além de várias coletâneas (hoje em CDs) e vídeos.

Foto do LP "Brasileiro: Profissão Esperança.
Foto: Nilton Ricardo
     Toda discografia de Clara é pura arte ou arte pura. Canções inesquecíveis. Interpretação impecável. Porém, para quem pretende elevar a sua emoção à flor da pele, ouça o show "Brasileiro: Profissão Esperança", de 1974, quando a talentosa cantora tinha apenas 32 anos e brilhou ao lado do saudoso e grandioso ator Paulo Gracindo, o qual interpreta texto de Paulo Pontes. O LP foi gravado ao vivo, sob direção de Bibi Ferreira. 
      Essa obra-prima do cancioneiro nacional, contém 17 músicas e a diretora explica que a montagem do texto "se apoia no permanente cruzamento dessas duas vidas, de tal forma que ninguém sabe o que é de Antônio Maria e o que é de Dolores. Uma crônica de Maria vira um dado para explicar a existência de Dolores, assim como uma canção de Dolores exprime a sensibilidade de Maria". Algumas músicas são: Ternura Antiga (José Ribamar - Dolores Duran), Menino Grande (Antonio Maria), Estrada do Sol (Tom Jobim - Dolores Duran), considerada por muito como uma das mais belas do Brasil. Canção da Volta (Ismael Neto - Antonio Maria), Suas Mãos (Antonio Maria - Pernambuco), Noite de Paz (Durando),
      O show foi tão completo, que vieram comentários favoráveis de artistas, jornalistas, jornais e revistas, como Chico Buarque, Sérgio Cabral (pai), Maysa, Mário Lago, Ronaldo Bôscoli, Artur da Távola, entre tantos outros. Maria Helena Dutra, da Veja, escreveu: "Afinal um programa para quem gosta de ver sua inteligência respeitada mesmo nas horas de lazer.
      E todas as intenções da antologia foram habilmente desenvolvidas na direção de Bibi Ferreira, impecável na pontuação e na criação do clima dramático adequado às românticas composições em destaque". 
     Tem mais. No LP Claridade, consta uma homenagem a Clara, do genial poeta, escritor e jornalista Artur da Távola, escrita para a Revista Amiga, e o conteúdo transcrito para a contracapa desse disco, de 1975. A seguir alguns trechos desse memorável artigo:
           1. "Clara, Clareira, Claridade,. Manhã Luz, Clareza. 
           Não sei direito a razão pela qual você me emociona como artista. Acho que você passa um sentimento que, eu sei, é o sentimento do nosso povo, com suas dificuldades, suas esperanças, seus exageros, suas realizações, sua desorganização criadora, seus sonhos, mas sua infinita capacidade de transformar e sentir o que os outros transformam pensar em agir";
        2 "Clara - claridade. (Veio de Minas) sozinha, modesta, sorrio fácil, ar de quem pede desculpas por estar ali cantando. Nada de entrevistas bombásticas para efeitos publicitários. Nada de ondas, jogadas, mutretas";
          3. "De repente o canto de Clara e a claridão do seu canto foram chegando. Aí tudo mudou. Clara sucesso. Clara - recordista. Clara - modelo";
         4. "Agora é a Clara - Estrela. Estrela também é luz. Estrela também e clara. Mudará por elogios? Continuará o canto do seu povo? Vai começar a inventar bossas vocais?";
         5. "Ou Clara - Estrela continuará clara, mineira? Não sei, nem quero saber. Mas saiba Clara, que você representou até hoje, na linha escolhida, uma posição muito importante para a sensibilidade de sua gente, da qual seu canto é uma expressão de suas origens. Nela está sua força. Use-a!",  exclama Távola.

     Se seu corpo vivo estivesse, no próximo dia 12 de agosto, Clara Francisca Gonçalves Pinheiro, ou melhor, a cantora Clara Nunes, estaria completando 77 anos. Porém, naquele fatídico dia 2 de abril de 1983, milhões de brasileiros  ouviram "um soluçar de dor": morria Clara. Mas sua voz continuará clareando a nossa vida, suavizando a nossa audição.
      
                                             CLARA
                                            Abre o pano do passado
                                           Tira a preta do serrado
                                           Põe Rei Congo no Gongá
                                          Anda
                                          Canta o samba verdadeiro
                                         Faz o que mandou o mineiro
                                         Ô mineira.
                                                                (Mineira, de João Nogueira e Paulo C. Pinheiro).

     Notinha útil: Em seus contatos, o Facetas descobriu que a Sra. Goreth Jucá, servidora do Grupo   Petrobras, Unidade de Manaus (AM), é fiel leitora das nossas publicações. Assim, a nossa homenagem de hoje vai para ela. Que continue prestigiando nosso trabalho de caráter educativo.


     Pesquisa, texto e arte: Francisco e Winnie Gomes

     Fontes
     1. Fernandes, Vagner. Clara Nunes: Guerreira da Utopia - RJ, Ediouro, 2007.
     2. LP "Brasileiro: Profissão Esperança - com Clara e Gracindo, EMI/Odeon, 1974
     3. Demais discos citados no artigo.
       
    
      
      

Comentários

  1. Clara Nunes faz parte de um tempo áureo da música brasileira. Clara Nunes, Tom Jobim, dentre outros. É uma pena que as pessoas prefiram submeter seus ouvidos à canções do tipo "o nome dela é Jenifer" e "pscininha, amor, e deixem de conhecer o acervo belíssimo da música brasileira.

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