"Negro é a soma de todas as cores"

     Numa dessas "garimpagens" - de sebo em sebo - a procura de CDs, livros, DVDs e, principalmente disco de vinil, adquiri "Luz Negra", ou seja, o LP nacional lançado no final da década de 80, com 14 músicas. A saber: Raça (Milton Nascimento-Fernando Brabt) com Milton Nascimento; Meu Bem-Querer (Djavan), com o próprio; Oração pela Libertação da África do Sul (Gilberto Gil), com o próprio; Chiclete com Banana (Gordurinha-Almira Castilho), com Jackson do Pandeiro; Ao Povo em Forma de Arte (Wilson Moreira-Nei Lopes), com Martinho da Vila; 14 Anos (Paulinho da Viola), com o próprio; Negro é Lindo (Jorge Ben), com o próprio; Ébano (Luiz Melodia), com o próprio; Nervos de Aço (Lupicínio Rodrigues), com Jamelão; Vozes da Seca (Zé Dantas-Luiz Gonzaga), com Luiz Gonzaga; Sala de Recepção (Cartola), com o próprio; Moro na Roça (adapt, de tema popular: Xangô da Mangueira-Zagaia), com Clementina de Jesus: Yaô (Pixinguinha-Gastão Vianna), com Pixinguinha, Clementina de Jesus e João da Bahiana; e Luz Negra (Nelson Cavaquinho-Amâncio Cardoso), com Elizeth Cardoso.
     O disco traz um encarte  com excelente comentário de Tárik de Souza. Para quem ainda não conhece Tárik, trata-se do brilhante jornalista e escritor musical carioca (72 anos), o qual já publicou uma extensa lista de livros sobre vários artistas brasileiros, entre eles: Beth Carvalho, Dóris Monteiro, Elza Soares, Johnny Alf, Paulo Vanzolini, Sueli Costa, etc.
     Salienta-se que a intenção do Facetas não é reproduzir, na íntegra, o comentário do autor acima citado, apenas, para não produzir algo próprio. Não é isso e os nossos leitores sabem bem disso. Mas sim, pela importância do tema ora abordado. Muitos fatos que ocorrem Brasil afora só vão adquirir autenticidade  com ares de mudanças, se alguém ficar massificando-os. Já se foram 100 anos da Abolição (mas o preconceito e a discriminação seguem agindo, muitas vezes, de forma velada, ou até explicitamente); já se foram 100 anos da Proclamação da República; quase 200 da Independência, quase 100 da Semana de Arte Moderna de 1922; e 500 anos de Brasil, e, educacional e moralmente quase nada se solidificou. É triste esta constatação!

     Vamos às indispensáveis palavras do jornalista em questão:
     "O negro desembarcou na terra promissora das Américas agrilhoado no porão dos navios. Mas não permaneceu numa posição cultural subalterna. Aos poucos a música negra foi se infiltrando pelas frestas da cultura dominante até modificar por completo a situação e transgredir a hierarquia de valores estabelecidos pelo poder econômico. Hoje é possível contemplar o sólido edifício musical do jazz como um projeto musical autônomo, em permanente reciclagem. O rock nasceu exatamente de um casamento proibido pela segregação racial: o country caipira dos brancos deserdados, entrelaçado ao blues dos negros plantadores de algodão. Partindo da América Central, o calipso, o cha cha cha, o reggae, o mambo, a valsa e as inúmeras transfusões de ritmos calientes e letras perturbadoras alimentam há anos as fornalhas das pistas de dança do mundo todo.
     No Brsil, na casa das matriarcas tias baianas aclimatadas no centro do Rio no início do século (XX), cozinhou-se em fogo esperto o que seria uma fusão dos batuques dos terreiros com a umbigada semba, trazida da África. do trivial variado inicial do lundu, ao sassarico de salão do maxxixe até chegar ao samba já infiltrado no sopé dos morros pelos  bambas articulados do Estácio. Um ritmo que virou escola, tornou-se identidade do país do futebol e do carnaval: produtor industrializado casou-se ao jazz e aos clássicos na exportável bossa-nova, gerada nos apartamentos da metrópole
     A música negra não ficou no samba apesar de suas inúmeras vertentes de gafieira, terreiro, breque, enredo, canção, partido alto ou exaltação.  Do sortido sotaque nordestino ao cancioneiro sulista; das franjas nortistas aparentadas ao merengue aos afro-blocos baianos trieletrizados, há sempre um canto negro em cada ponto do novelo da música nacional. Ancestrais pianeiros, engravatados flautistas, roqueiros de jeans e camisetas; há sempre uma tintura negra a serviço dos timbres mais coloridos do planeta. "Negro é a soma de todas as cores", já dizia o poeta Gil que neste roteiro despacha um reggae indignado com o apartheid sul-africano. "É preciso ter raça, é preciso ter gana mesmo", emenda Milton Nascimento com a pungência dos bronzes mineiros. Ou Nervos de Aço como admite, tratando da questão amorosa, o gaúcho Lupicínio Rodrigues través de seu porta-voz (e que voz!) Jamelão. 
     O clamor de outras vozes - as da seca - ressoa na sanfona do rei do baião Luiz Gonzaga, enquanto Jackson do Pandeiro mistura Chiclete do Banana na mesma proporção em que o inventor da fusão samblues, Jorge Ben, traduz para o jeitinho brasileiro o slogan da era dos Panteras, black in beautiful. Martinho da Vila abre alas para a escola de samba dissidente Quilombo, com um enredo dos escolados Nei Lopes  e Wilson Moreira. O poeta Cartola desdobra fibra por fibra o coração da Mangueira, Sala de Recepção do samba de morro. Paulinho da Viola questiona a marginalização do sambista "nessa terra de doutor".
     Todas essas veias abertas injetam no canto, no toque, no gesto brasileiro o traço negro: o urbano Djavan (Meu Bem-Querer), mãe Clementina de Jesus em visita à zona rural (Moro na Roça) e um Pixinguinha à parte do choro, em aliança com o batuque na cozinha do candomblé do ritmista João da Bahiana (Yaô). Claro como o Ébano de Luiz Melodia. Tal como outro bardo de rua, o boêmio Nelson Cavaquinho inventou de cantar, acompanhado da Divina Elizeth, na luminosidade ofuscante de sua singular Luz Negra - a que ilumina o teatro sem cor para a evolução aflita dos palhaços do amor. Todos nós, raça humana" (1).

     A contribuição desses artistas "sem cor" é tamanha - principalmente sobre o tema ora em foco - que a gravadora editou esta nota na contracapa do disco: "LUZ NEGRA (nacional e internacional) é uma homenagem à raça negra através da sua música no centenário da Abolição. Procuramos selecionar entre os mais representativos compositores e intérpretes da música negra certos, entretanto, de não termos esgotado o assunto. Para isso seriam necessários não dois, mas um dezena de discos. A todos os ausentes nossa admiração e respeito" (1).

     Acima, Tárik reporta-se a Gil. Muito bem. Em 85, três anos antes do 1º centenário da decretação da Abolição da escravidão negra no Brasil, no disco "Dia Dorim NOITE NEON" Gilberto Gil, incluiu no LP Oração pela Libertação da África do Sul, um grito estridente contra qualquer que seja a forma de escrivão, em qualquer que seja o recanto do mundo. Nesse hino, estão alguns versos como:
     "Já que vermelho tem sido todo sangue derramado".
                                (...)
     "Devolvei o chão a quem no chão foi criado".
                                (...)
     "Ó Cristo Rei branco de Oxalufã
       zelai por nossa negra flor pagã".
                                (...)
      "Sabei que o Papa já pediu perdão
        varrei do  mapa  toda  escravidão" (2).

     Outra obra indispensável e associada aqui pelo tema proposto é o magnífico CD "Bossa Negra", "O encontro de dois expoentes da nova música brasileira": Diogo Nogueira e Hamilton de Holanda. Doce Flor, por exemplo, é um espetáculo à parte. "Bossa Negra é a miscigenação da música europeia com os ritmos dos escravos africanos que, sucumbidos pelo calor, alegria e inventividade do povo daqui, renasceram brasileiros" (3).

     É isso aí, leitores. A exigência é esta: "Que não nos calemos nunca no combate à discriminação racial, ao preconceito ou qualquer que seja a forma de humilhação e violação dos direitos das pessoas".


     Fontes
     1. LP "Luz Negra", gravadora SomLivre, 1988.
     2. LP "Dia Dorim NOITE NEON", Gilberto GIL, RCA/WEA, 1985.
     3. CD "Bossa Negra", Diogo Nogueira e Hamilton de Holanda, EMI/Universal, 2014.
  


     




    

Comentários

  1. Informações culturais super úteis. Vou procurar Bossa negra, pois não conheço

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