A eterna sabedoria de Jessier Quirino

                              "...Mas eu tenho meu espelho cristalino
                                que uma baiana me mandou de Maceió 
                                      ele tem uma luz que me alumia
                                      ao meio-dia clareia a luz do sol..."

     Estes versos de Espelho Cristalino, são de Alceu Valença. No meu caso, tenho 42 poemas extraídos de Paisagem do Interior I e II e Bandeira Nordestina cantados pelo próprio criador, o poeta e escritor paraibano Jessier Quirino, que uma amazonense me mandou de Recife em janeiro de 2013. Completando: em janeiro de 2019, a mesma nortista me mandou Papel de Bodega (livro e CD homônimo com 15 músicas).
     Jessier Qurino (65 anos), também compositor "e intérprete brasileiro, que faz uso de um linguajar nordestino utilizando como recurso cômico além de expressar a rica cultura popular existente no sertão nordestino" (1). Ele nasceu a 30 de abril de 1954, em Campina Grande (PB).
      Papel de Bodega, é um livro apaixonante. Os 15 primeiros poemas, também estão em CD, isto é, tanto podem ser lidos, como ouvidos. O nome do livro foi uma forma que o poeta encontrou para homenagear "os amantes da causa interiorana, os fregueses e o bodegueiro" (2). Segundo o autor, há uma década, ganhou "uma caderneta de fiados, grossona, formada por três dezenas de calendários de papelão amarrados por um grosso barbante" (2).
     "De escrita sortida e garranchenta, o bloco (sujo pelo uso) é uma espécie de tratado de antropologia, redigido com força e liberdade, contendo contas (precisas e preciosas) e páginas seguindo ordem alfabética com o nome dos fregueses: "B" de Seu Biu, "P" de Pedinho e "S" de Dona Severina" (2).
     Ao conjunto foi dado o nome carinhoso de: Manuscritos do Cariri, ou seja, trata-se de "uma caderneta de fiados rabiscada, somada e tirada a prova dos nove pelo bodegueiro Joaquim Celestino da cidade Ouro Velho - PB - ano 1992 - e me foi presenteada pelo compade Zelito Nunes, caririzeiro dessas bandas" (2). por isso, estes versos:
      
                                 Papel de Bodega tem a sigla PB de Paraíba
                                 Bodega começa com Bode
                                 Ode quer dizer poema.
                                                Eu tenho pra mim
                                                Que o primeiro mapa da liberdade
                                                Foi traçado em papel de bodega.

     Sobre a obra e seu autor, há comentários de Orlando Tejo, Gilberto Braga de Mello, Alberto da Cunha Melo, Tatiana Carlotti e Vital Farias. Vital, por exemplo, faz este registro: "Observador, pesquisador e, antes de tudo, poeta pra entontar, como diz outro imenso poeta, Orlando Tejo, a poesia de Jessier Quirino é um misto de Zé da Luz, Quito Dias, Augusto dos Anjos, romanceiros populares, cantigas de amigos, cantigas de maldizer, cantigas de amor, cantigas de escárnio, poesia e romance do cordel propriamente dito" (2).
     Mestre Orlando Tejo, diz: "Poeta arguto de inspiração inteiriça e imaginação desregulada, impõe-se no cenário nordestino com a força imponderável do estilo próprio. E é por essa originalidade que sua poesia poderá ter a perenidade do Rio São Francisco"  (2).
     O prefácio é do multiartista Rolando Boldrin, o qual, de forma curiosa, informa ao leitor que estava almoçando num shopping center de São Paulo, quando recebeu de uma das garçonetes "um rústico CD" deixado por um freguês que frequentava o mesmo restaurante. Apesar de não ter "o nome ou telefone do artista (...) quis ouvi-lo com atenção e respeito (...). Era um CD com poemas caboclos". Logo após ouvir a 1ª faixa, certificou-se que estava "diante de um artista genial do nordeste brasileiro", quer dizer, "um grande ator inspirado e poeta". E assim foi ficando cada vez mais deslumbrado, a cada canção ouvida: os versos, os poemas, a interpretação, o humor, o romântico-emocional, o linguajar nordestino, etc.
     Autor completo, genial, segundo Boldrin, mas como trazê-lo ao Programa Sr. Brasil, se não sabia quem era ele. Foi, quando então, apelou para o amigo e jornalista José Nêumanne Pinto - grande conhecedor das originalidades nordestinas -, que após ouvir os elogios, disse: "Esse artista só pode ser o Jessier Quirino". Acertou. Foi ao Programa e apresentou "suas histórias escritas, cantadas, faladas e gravadas".

     Bondrin, ao finalizar, confessa: "Hoje seus livros, fazem parte de algumas relíquias que possuo desde sempre, onde figuram Catulo da Paixão, Zé da Luz, Guimarães Rosa, e outros mestres poetas que escreveram a nossa História em verso e prosa" . Portanto, "Salve o nosso poeta Jessier Quirino e sua eterna sabedoria (2).

     Em Mapa da Liberdade, Jessier faz, em duas páginas, uma síntese da obra em questão, onde explica que após lançar, os sortido e saudosista poemas Parafuso de cabo de serrote e Vou-me embora pro passado, respectivamente, publicados no livro Prosa morena, em 2001, percebeu que esses temas "encantam plateias de todos  os quilates, idades e culturas, talvez pelo colorido das palavras, como se fosse o povo pensando alto. Poesia na voz do dia a dia" (2). Daí veio "o seu interesse em ser freguês de caderno de memória coletiva".

     No livro estão as histórias: Carrossel na chuva, Obra inacabada de uma colher de pedreiro; Sonhos de uma cidadezinha mais ou menos, entre outras. "Para empacotar tudo isso, eis aqui, o presente Papel de bodega, que do ponto de vista fibroso e vegetal, é um papel simples, sem refinamento, que tanto embrulho nossos sonhos de infância e juventude" (2
     Em Página pintada quem foi que te pintou (final do livro), há uma notinhas bem humoradas (e de fácil compreensão) do estilo Millôr Fernandes: 1. RAUL SEIXAS - Um Raul em formato de Seixas foi abordado, portando 4 quilos de metamorfose ambulante. 2. ENDEREÇO ARRISCADO - Rua Contraventor Mansinho Camuflado, esquina com Violenta de Briga, Calibre 38, próximo ao Apocalipse. 3. ESCREVA ISAURA - A Escrava Isaura ficou tão conhecida no mundo todo, que, quando perguntada sobre seu endereço no Brasil, respondia apenas: Escreva Isaura. 4. ANÚNCIO DE FIM DE MUNDO - Vende-se cabaré em zona glacial, excelente globalização, entre outras.
     Jessier é fascinante e atualizadíssimo. Ou melhor, já foi dito que "os poetas são as antenas do mundo". Ele é uma dessas antenas. Por exemplo, leiamos abaixo:

                                 BEBEDOURO
  
                 No primário, eu bebia água no copo da lancheira
                 No ginasial, fui apresentado ao bebedouro,
                 Bebia mais pelo "cheringar" que pela matança da sede.
        
                 No científico, água na lanchonete.

                 Hoje, aluno adolescente mata a sede no bar e com pouca água.

      Portanto, não deixe de ser um inquino da obra escrita, cantada, falada, ou gravada do Quirino. Ele é fantástico. E quando conversa "miolo de pote" com Zé Lezin, a genialidade fica frente a frente. Se Lygia Fagundes Tellas, havia encantado seus leitores com A Estrutura da Bolha de Sabão (pense poeticamente: "a estrutura da bolha...), agora vem Jussier com Obra Inacabada de uma Colher de Pedreiro e Parafuso de Cabo de Serrote (é simplesmente espetacular).
   
      Notinha útil - Sobre amanhã, dia 11 de agosto: aos nossos leitores pais e estudantes ou estudantes e pais ao mesmo tempo, muita saúde e paz. Aos mesmos dedicamos Como Nossos Pais (Belchior) e Coração de Estudante (Milton Nascimento e Wagner Tiso).

      Pesquisa, texto e áudio: Francisco e Winnie Gomes. 

      Fontes
      1. www.ebiografia.com
      2. Quirino, Jessier. Papel de bodega. - Recife: Bagaço, 2013.

    
         

 

    
                                                             

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