Os podres poderes brasileiros - parte II

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Capa do Lp Velô
     No último dia 17 deste mês este Facetas publicou OS PODRES PODERES BRASILEIROS. O tema reporta-se não apenas como uma crítica sobre o Brasil atual, nos setores social, econômico e político, principalmente, mas, também, pela fragilidade que passam os poderes constituídos.
     Em 1984, o regime militar instalado no país desde de 1964, já indicava que estava chegando ao fim. O que acabou acontecendo em 1985. Para enfraquecê-lo ainda mais, no segundo semestre daquele mesmo ano (84), agiganta-se país afora a Campanha pelas DIRETAS JÁ!, cujo Projeto não passou no Congresso Nacional. Porém, Tancredo Neves foi eleito indiretamente Presidente do Brasil. Não chegou a governar e todos nós sabemos o porquê.
    Ainda em 84, o cantor e compositor baiano Caetano Veloso, considerado por alguns como polêmico e por muitos como opositor ferrenho desde os anos 60, a toda e qualquer ditadura, fosse aqui ou fora do país; na América Latina ou não, lançou o LP (disco de vinil) Velô, com 11 faixas, pela gravadora Philips, com canções como Pulsar, O Quereres, Língua (participação especial: Elza Soares, Podres Poderes, entre outras.
     Podres Poderes ilustrava bem (e ilustra) os acontecimentos da época (e de hoje), do panorama social, político, econômico, religioso, cultural, etc, dentro e foram do Brasil. Vamos à sua letra:

                                 PODRES PODERES

Enquanto os homens exercem seus podres poderes
Motos e fuscas avançam os sinais vermelhos
E perdem os verdes
Somos uns boçais
     Queria querer gritar setecentos mil vezes
     Como são lindos, como são lindo os burgueses
     E os japoneses
     Mas tudo é muito mais
          Será que nunca faremos senão confirmar
          A incompetência da América Católica
          Que sempre precisará de ridículos tiranos?
          Será Será que será que será que será 
          Será que essa minha estúpida retórica
          Terá quer soar, terá que se ouvir
          Por mais zil anos?
               Enquanto os homens exercem seus podres poderes
               Índios e padres e bichas, negros e mulheres
               e adolescentes
               Fazem o carnaval 
                    Queria querer cantar afinado com eles
                    Silenciar em respeito ao seu transe, num êxtase
                    Mas tudo é muito mau
                         Ou então cada paisano e cada capataz
                         Com sua burrice fará jorrar sangue demais
                         Nos pantanais, nas cidades, caatingas
                         E nos gerais?
                              Será que apenas os hermetismos pascoais
                              Os tons os mil tons, seus sons e seus dons geniais
                              Nos salvam, salvarão dessas trevas
                              E nada mais?
                                   Enquanto os homens exercem seus podres poderes
                                   Morrer e matar de fome, de raiva e de sede
                                   São tantas vezes gestos naturais.
                                         Eu quero aproximar o meu cantar vagabundo
                                         Daqueles que velam pela alegria do mundo
                                         Indo mais fundo
                                         Tins e bens e tais.

     Passados 35 anos do lançamento dessa composição, pontuo aqui alguns versos que poderão tirar a nossa nação do corredor da morte, assim como o mundo, escritos pelo poeta-contestador:

     1. Motos e fuscas avançam os sinais vermelhos. As estatísticas falam por si. Lamentavelmente o Brasil é o único pais do mundo que mais mutila e mata pessoas anualmente no trânsito. Excesso de velocidade, álcool e direção, avançar o sinal vermelho, ultrapassagem irregular, etc, são as campeãs de tragédias dentro dos 8,5 milhões de quilométricos quadrados do gigante adormecido.    
     2. Como são lindos, como são lindos os burgueses. Burgueses ou burguesia são velhas palavras ainda citadas nos livros de História. Hoje o termo em voga é ELITE. ELITE dominante, ou seja, refere-se àquela gente que forma a classe A da Pirâmide Social Brasileira. Apenas 10% dos 210 milhões de brasileiros (e agregados também. Esta semana o IBGE divulgou relevantes dados). São os intocáveis. Os insuspeitos. O poeta Vinicius de Moraes dizia: "O rico rir à toa". 
      3. A incompetência da América Católica. Está mais do que confirmado: a exploração da América Latina pelos colonizadores foi um desastre, ou melhor, um genocídio. A Igreja Católica veio junto com seus pares europeus e fizeram a farra: exploraram, catequizaram, demarcaram terras; deixaram a Amazônia (em todos os países que a compõem) tão saqueada, que a mesma, até hoje sofre as consequências e, jamais encontrará o desenvolvimento humano desejável.
    4. Que sempre precisará de ridículos tiramos?  Sempre. As ditaduras latino-americanas já ocorridas foram cíclicas (isso é fato; é constatação. Não é uma "estúpida retórica", nem é espantoso dizer que já viu "esse filme passar"). A ditadura só muda de endereço. Ora se instala no Chile, na Argentina, no Haiti, em Cuba, no Brasil, no Peru, na Venezuela (a bola da vez), etc.
     5. Índios e padres e bichas, negros e mulheres e adolescentes. Fala-se tanto em movimentos sociais daqui e dali, ou ainda as minorias, que, até soam bem aos ouvidos dos "senhores do poder" lá no andar de cima (por onde fazem as famigeradas audiências públicas, de mentirinha, é claro). Aqui embaixo, no térreo, onde ficam as camadas sociais menos assistidas pelo chamado "poder público", a realidade dessas classes citadas nos versos acima, a realidade é outra, principalmente a das mulheres. Não há como "cantar afinado" com os detentores do poder. "Tudo é muito mau".
    6. Com sua burrice fará jorras sangue demais. "Cada capataz" deveria está mofando nas masmorras pelos crimes ativos ou passivos praticados por seus patrões, nos pantanais, nas cidades, nas caatingas, e, principalmente nas Minas gerais que choram dia e noites a estúpida perda de seres humanos, da flora e da fauna.
     7. Nos salvam, nos salvarão dessas trevas. Quem? Quem entre nós terá coragem de romper os grilhões da mediocridade, da demagogia, da hipocrisia, da administração viciada, do "jeitinho brasileiro" (segundo o Arnaldo Jabor é o primeiro passo para se originar a corrupção), radicadas em todas as camadas sociais brasileiras? Quem é verdadeiramente autêntico dentro dos Três Poderes (os quis são independentes entre si, mas devem funcionar harmoniosamente, assegura a CF/88), capaz de abdicar de suas benesses advindas da coisa pública? Essas "trevas" não devem mais persistir! Precisamos ir "mais fundo".
     8. Enquanto os homens exercem seus podres poderes/Morrer e matar de fome, de raiva e de sede/São tantas vezes gestos naturais. O genial Chico Anysio dizia que o cidadão brasileiro (de bem) tem medo do futuro, os políticos, do passado. A maioria desse indivíduos já chega ao poder (seja municipal, estadual ou federal) com a nítida intenção em tapear o povo, a nação. Para os que assim agem (uma minoria) ver ou saber que parcela da população morre de fome, de raiva ou de sede é a coisa mais natural do mundo. Um detalhe: só não lembram esses impiedosos que um povo irado é bicho indomado. E a ira do brasileiro já chegou ao nível 8 numa escala de 0 a 10. Qualquer hora dessas todos os "Nero" que agem contra a sociedade vão ter de pular de suas sacadas de luxo, de seus gabinetes intransponíveis...
     Os versos abaixo são do grande poeta russo Vladimir Maiakovski (1893-1930), extraídos do poema No Caminho (há quem garanta não ser dele esse tema. Não interessa. O importante é a realidade viva de seus versos, não no contexto russo da sua época, é lógico, mas do Brasil, dos tempos idos até a nossa atualidade. Assim:
                    
                              Na primeira noite eles se aproximaram
                              e roubaram uma flor
                              do nosso jardim
                              E não dizemos nada
                              Na segunda noite, já  não se escondem
                              pisam as flores,
                              matam nosso chão,
                              e não dizemos nada.
                              Até que um dia,
                              o mais frágil deles
                              entra em nossa casa, 
                              rouba-nos a luz, 
                              conhecendo nosso medo, 
                              arranca-nos a voz da garganta
                              E já não podemos dizer nada.

     Senhores, nossa casa é a nossa dignidade; a luz é a nossa vida; nosso medo é o nosso silêncio; a voz da garganta é o eco do nosso protesto. Portanto, vamos dizer alguma coisa sim. A palavra esperança vem nos alimentando por meio do ato de esperar há muitas décadas; há cinco séculos. Não podemos mais ficar aguardando mudanças culpando apenas os Poderes "até que a Democracia se digne a aparecer no balcão (Maiakovski)". Ainda há muito o que dizermos (e fazermos) para conter a categoria desses malfeitores que insistem em roubar-nos a luz do viver, da paz, da prosperidade, da moralidade, da dignidade.

     Notinha Útil - Hoje pela manhã participamos de uma manifestação pública (sobre a Ponte Rio Negro - Manaus (AM), por algumas entidades religiosas, cujo tema era: BASTA: Automutilação, Depressão, Suicídio. O folder distribuído traz dados assustadores, como: a) "Estima-se que mais de 300 milhões de pessoas sofram de depressão em todo o mundo; b) 1.173.418 casos de automutilação notificadas no Brasil; c) No mundo todo, mais de 800 mil pessoas são vítimas de suicídio. Segundo a OMS é a 2ª causa de morte no planeta, entre jovens de 15 a 29 anos; d) A cada 40 segundos uma pessoa se suicida no planeta; e) Aproximadamente  uma a cada cinco pessoas no mundo apresenta depressão em algum momento da vida; e f) No Amazonas, segundo os dados apresentados da SSP, 30 pessoas já tiraram a própria vida de janeiro a abril deste ano (2019).
     Por favor, faça você também crescer esta campanha: SETEMBRO AMARELO É NOSSO.

     Por Francisco Gomes e Winnie Barros

     Fontes
     1. Encarte do LP VELÕ, de Caetano Veloso, gravadora Philips, 1984.
     2. www. recantodasletras. com.br
            
       

     

    

 
    

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