"Leite derramado", por Chico Buarque

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Capa do livro
    
A jornalista amazonense, e apresentadora do programa "Sempre aos Domingos", que vai ao ar numa rádio FM de Manaus, Ana Rita Antony, diz que o cantor e compositor carioca Chico Buarque (75 anos), tem cadeira cativa com as suas músicas onde são executadas, muito embora, garante ela, discorde dos posicionamentos político-partidários do cantor.
     Concordo com Antony. Eu também discordo veementemente das manifestações obsessivas desse artista por determinado partido político.  Porém, isso não tira um pouquinho sequer da nossa admiração pela arte criativa dele. Como bem o disse o velho filósofo francês Rousseau: "Posso não concordar com nenhuma das tuas palavras, mas as defenderei até a morte o direito que você tem de dizê-las".  Ao longo de três décadas reuni considerável produção artística desse autor, em vinil, CD, DVD, livros, etc.
     Li Chico pela primeira vez, em 1975, foi Pedro Pedreiro (de 1965). De lá para cá li as peças Roda viva (1968), Calabar (1973), Gota d'agua (1975) e Ópera do malandro (1979); os romances Estorvo (1991), Benjamim (1995) e, por último Leite derramado (2009). Ainda não conheço, portanto, a novela Fazenda Modelo (1974) e o romance Budapeste (2003).
     Em maio de 2009, fui presenteado por minha filha Winnie com Leite Derramado, que acabava de ser lançado. Li logo e gostei muito. Agora, 10 depois, o reli. Gostei mais ainda. Trata-se de um trabalho muito interessante e necessário a toda pessoa que gosta de literatura.

     A professora, escritora e crítica literária paulista Leyla Perrone-Moisés (83), fez a seguinte analise na orelha de Leite derramado, assim:

    "Um homem muito velho está num leito de hospital. Membro de uma família tradicional brasileira, ele desfia, num monólogo dirigido à filha, às enfermeiras e a quem quiser ouvir, a história de sua linhagem desde os ancestrais portugueses, passando por um barão do Império, um senador da Primeira República, até o tataraneto, garotão do Rio de Janeiro atual. Uma saga familiar caracterizada pela decadência social e econômica, tendo como pano de fundo a história do Brasil dos últimos dois séculos.
     A saga familiar marcada pela decadência é um gênero consagrado no romance ocidental moderno. A primeira originalidade deste livro, com relação ao gênero, é sua  brevidade. As sagas  familiares são geralmente espraiadas em vários volumes; aqui, ela se concentra em duzentas páginas. Outra originalidade é sua estrutura narrativa. A ordem lógica e cronológica habitual do gênero é embaralhada, por se tratar de uma memória desfalecente, repetitiva mas contraditória, obsessiva mas esburacada.
     O texto é construído de maneira primorosa, no plano narrativo como no plano do estilo. A fala desarticulada do ancião, ao mesmo tempo que preenche uma função de verossimilhança, cria dúvidas e suspenses que prendem o leitor. O discurso da personagem parece espontâneo, mas o escritor domina com mão firme as associações livres, as falsidades e os não-ditos, de modo que o leitor vai reconstruindo os acontecimentos e pode ler mas entrelinhas, partilhando a ironia do autor, verdades que a personagem não consegue enfrentar. Em suas leves variantes, as lembranças obsessivas revelam sutilezas ideológicas e psíquicas. 
     Tudo, neste texto, é conciso e precioso. Nenhum elemento é supérfluo. Percorre todo o relato, como um baixo contínuo, a paixão mal vivida e mal compreendida do narrador por uma mulher. Os traços e gestos de Matilde, ao mesmo tempo que determinam a paixão do marido, ocasionam a infelicidade de ambos. Embora vista de forma indireta e em breves flashes, Matilde se torna, também para o leitor, inesquecível.
     Outras figuras, fixadas a  partir de mínimos traços, também se sustentam como personagens consistentes. É espantoso como tantas personagens conseguem vida própria em tão pouco espaço textual. Leite derramado é obra de um escritor em plena posse de seu talento e de sua linguagem" (1).

Milton Hatoum
(Imagem: Companhia das Letras)
Alegorias do vazio: a obra de Chico Buarque
Chico Buarque (Imagem: Revista Cult)
Curiosidade literária: "O debate entre Chico Buarque e Milton Hatoum, na 7ª FLIP foi um encontro, no sentido mais amplo. Nele, ambos reconheceram semelhanças em seus livros. Num caso de simbiose. Órfãos do Eldorado, de Hatoum, e Leite derramado, de Buarque, eram pensados ao mesmo tempo com objetivo parecido: usar a memória centenária de um narrador para traçar um panorama histórico do país. O livro de Hatoum foi publicado antes e Chico revelou que, ao ler a história de Estiliano, personagem do amazonense, sua reação foi: "Esse cara copiou meu livro". Depois se deu conta de que Leite derramado nem tinha título e ainda estava sendo escrito. Hatoum teve reação semelhante quando saiu o livro de Buarque: "Mas essa é a história que eu contei para o Chico". Não se trata de plágio. Os dois contaram história um para o outro em ocasiões anteriores, esqueceram-se, voltaram a lembrar e adaptaram os episódios mais interessantes" (2).

A professora Perrone tem toda razão: trata-se de uma obra muito bem elaborada, pelo menos para um leitor leigo (comum) como eu. Só para melhor ilustrar este comentário, eis aqui algumas (itens 1 e 2) "sutilezas ideológicas e psíquicas" ( e de fatos históricos que ocorreram no final do século XIX e início do século XX, no Amazonas, mas precisamente em Manaus, na fase áurea do período da borracha), narradas no livro em questão: 1. "Espírito prático, foi parceiro dos inglesas na Manaus Harbour, e não na aventura africana de seu pai, igualmente vítima de ciúmes e maledicências"; 2. "A lavadeira era uma mameluca que mamãe trouxe da roça, e hoje papai não confia a mais ninguém suas camisas de linho, que nos tempos do porto de Manaus, mandava passar e engomar na Europa"; 3. "Veio a Revolução Militar de 1964". "Desde o princípio se mostrou um aluno sagaz, interessado em História do Brasil, discutia com seus professores de igual para igual, e um dia virou comunista. Diz minha filha que ele foi morto na cadeia, mas disso não se tem certeza, só sei que me telefonaram para buscar seu filho no hospital do Exército"
     O livro é fascinante, mas só após sua leitura, cada um(a) poderá fazer próprio juízo de valor. Leite derramado "cria dúvidas e suspenses que prendem o leitor. Prendem sim. "Quando eu sair daqui, vamos nos casar na fazenda da minha infância, lá na raiz da serra". É a primeira frase do romance. Narrada por quem? Por "um homem muito velho (que) está num leito de hospital", o qual alimenta a esperança, apesar de sua idade ser muito avançada. A esperança de sua infância feliz. Porém, de lá não saiu vivo.
     Todos sabiam que aquele ancião pertencia a uma família tradicional brasileira. Mesmo assim, o célebre general Assumpção morreu abandonado. "Tive pena porque para o velar só havia mamãe e eu, me admirou que não comparecesse autoridades, marechais, nem representantes da família real".

                                    "Na velhice a gente dá para repetir casos antigos,
                                             porém jamais com a mesma precisão, 
                                                         porque cada lembrança
                                          já é um arremedo de lembrança anterior" (1)

     Fontes
     1. Buarque, Chico. Leite derramado. - São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
     2. "Hatoum". Isaaca Maciel, pres do grupo editorial VALER. AM em Tempo, Manaus, 10.07.2009


    

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