“Um sorriso tímido, uma adolescência
comportada, de classe média carioca, um grande talento e uma grande criatividade
em arranjos e em canções. Os elementos pareciam prontos, misturados na medida
exata para cair nas boas graças do público. Mas o enredo não seria exatamente
esse. A musicalidade dele agradou em cheio, mas acabou vítima de preconceitos e
de rótulos. Felizmente para nossa história brasileira, esse foi apenas o
primeiro capítulo de uma trajetória. No final, maior que as circunstâncias. Uma
música que, além das posturas e das teorias, beija os limites de nossa
sensibilidade e de nossa alma”.
O
relato acima é sobre o cantor e compositor carioca Ivan Guimarães Lins (72 anos),
artisticamente conhecido como Ivan Lins. Hoje, seu nome faz parte da lista dos
grandes artistas da música brasileira. Mas, nem sempre foi assim. No início da
carreira recebeu duras críticas por ser considerado “alienado”.
“Um
país grande, a caminho do desenvolvimento. Assim o Brasil era mostrado no
início dos anos 70. Imagem construída graças aos sucessos nos esportes, à
conjuntura econômica internacional favorável e aos grandes empréstimos
estrangeiros. Imagem bonita de um povo alegre e receptivo, mas que escondia uma
terrível face: prisões políticas, meios de comunicação censurados, pessoas
desaparecidas, artistas e intelectuais exilados.
É nesse
contexto que surge o programa Som Livre Exportação, da TV Globo, apresentado
pelo então estreante Ivan Lins. Um rapaz universitário (Acadêmico do curso de
Química Industrial). Com uma música bem construída em termos harmônicos e
melódicos, pronto para se tornar o mais novo ídolo da MPB.
Infelizmente,
o que parecia um belo golpe de sorte acabou se revelando uma trapaça do
destino. Pois, se o programa marca o começo de sua carreira, marcam também um
momento difícil, em que a crítica e boa parte do público passam a taxar o
compositor de ‘alienado’. Em pouco tempo, a audiência do programa cai e Ivan
sai da TV. Estava só. O que viria a partir daí, seria muito bem retratado anos
depois, nos versos eloquentes do parceiro Vitor Martins:
Começas
de novo/e contar comigo/vai valer a pena/ter amanhecido/ter me rebelado/ter me
debatido/ter me machucado/ter sobrevivido”.
O artista precisava, urgentemente,
mudar, recomeçar. O público universitário, engajado em sua maioria na luta
contra o regime, não perdoava a atuação do jovem compositor. A relação entre o
cantor e seu público estava estremecida. O ano é 1973. Em entrevista ao jornal O Pasquim, o Ivan disse não saber disso
ou aquilo. “E eu só pude reconhecer que sim, que era mesmo um alienado”.
Porém, “finalmente Ivan passaria a perceber essas coisas que antes não queria
enxergar. Tornava-se consciente política e socialmente, e isso lhe dava mais
segurança para guiar a própria carreira”. Suas músicas, feitas a partir de
então com Vitor Martins, adquiriram significados mais profundos. Todos notam
sua mudança, tanto o público quanto a crítica. E passariam a se referir ao Ivan
“de antes de depois de 77”.
Era tempo de cantar. De mudar. Era chegada
a hora de definição de rota de sua carreira. De canções que misturam o
engajamento política e poesia. Assim vieram novas (e belas) composições. Surgiram
poderosos intérpretes, mais parceiros músicos, aqui e no exterior. Tudo isso
pode ser resumido nesta frase: “As
memórias de Ivan Lins falam de esperanças e de sonhos comuns, cultivados em
momentos com a família e com os amigos. Ambições de classe média que, no final
das contas, resultou em obras de arte”.
Possivelmente, veio daí Feliz Natal, uma de suas belas canções,
lançada por ele já homem feito, artista consagrado e discípulo de Jesus Cristo.
Conforme o vídeo abaixo:
Nós, os autores do Facetas, desejamos aos nossos leitores
um Feliz
Natal de paz, luz, prosperidade, harmonia, esperança e vida. Muita
vida!
Texto: Francisco e Winnie
Fontes
Ivan
Lins – Coleção MPB Compositores. Vol. 15. Editora Globo – Gravadora RGE Discos,
SP, 1996.
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