Ricardo Brennand: a perseverança de um colecionador

     A visita foi rápida. Durou apenas uma tarde. Tudo ocorreu num clima de boas expectativas do Natal e do Ano Novo, ou seja, final de 2018 e início de 2019. Porém, as lembranças perdurarão por muito tempo. Fomos ao Instituto Ricardo Brennand, a convite da nossa filha que já conhecia o local. O Museu fica no bairro Várzea, distante apenas 10 km do centro do Recife e abrange uma área de 30 mil metros quadrados. É um espetáculo artístico e arquitetônico.
     O centro cultural encontra-se encravado em terras do engenho de São João da Várzea, na Alameda Antônio Brennand, que no século XVII foi propriedade de João Fernandes Vieira (1613-1681), um dos principais líderes da Restauração Pernambucana de 1654.

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Um dos castelos do Instituto RB. Fonte: Instituto Brennand

     O Instituto RB (visite o site), diga-se de passagem, não tem fins lucrativos e suas ações têm programas de caráter educativo voltados para crianças e jovens. O lugar não encanta o visitante somente pelo acervo que possui, mas também pela arquitetura e, principalmente, pelo local onde está geograficamente instalado. 
     "Erguido sobre uma colina terciária, cercado por árvores frutíferas e pela Mata Atlântica, ostenta na sua entrada uma importante portada em sua cantaria, oriunda de um castelo francês, ladeada por dois monumentais  leões esculpidos em pedra, originários do Palácio Monroe (Rio de Janeiro)". (1)
     Nos relata o próprio Ricardo Brennand, que tão logo reuniu o acervo necessário, cujo Instituto está "formado por este Museu de Armas, Pinacoteca - com auditório, sala de exposições, reserva técnica, administração e uma sempre crescente Biblioteca, e pela Galeria - destinada a exposições temporárias e eventos" e a Capela que é, sem dúvida, uma obra-prima de arquitetura.
     Se o visitante vai  à Pinacoteca, lá está exposta "a maior coleção dos quadros do pintor holandês Frans Post (1612-1680), o primeiro a retratar a paisagem brasileira no século XVII". Se vai à Biblioteca, lá estão valiosas obras que pertenceram "ao historiador José Antônio Gonsalves (assim mesmo) de Mello, estudioso do Brasil Holandês".
     Foi  assim que o senhor Brennand conseguiu agregar nos belos casarões daquele antigo Engenho, donde incontáveis toneladas de açúcar e outros derivados da cana saíram, para hoje, "guardar" um "notável acervo de peças artísticas ligadas aos tempos medievais dos senhores feudais, nobres e cavaleiros, que aqui convivem de forma harmônica com outros objetos pertencentes ao simpático caminhar do povo pernambucano", e, com quem "resolvi repartir a contemplação e a vivência de tal acervo", garante o idealizador de toda aquela imponência. 
     Li em algum lugar que ali estão catalogadas e expostas 13 mil peças. Mas, para tanto, levou-se um bom tempo e muita perseverança do seu mentor. Por exemplo, são deles estas palavras: "Durante mais de meio século, reuni, de forma apaixonada, particularmente a partir de segunda metade da década de 1950, os diferentes exemplares de armas brancas, todos ligados diretamente à história do Ocidente e do Oriente". Por isso, no Centro Cultural, estão expostas "algumas raridades e preciosidades" de artesãos feudais do século XVI ao século XIX. Um lembrete: Parte do acervo originário veio da coleção particular do industrial Ricardo Coimbra de Almeida Brennand.
     Atualmente o Instituto RB é um dos Museus mais importantes do Brasil, aberto ao público sem fins lucrativos e ser ser mantido por verbas públicas. Duas características incomuns se comparadas a tantas fundações similares espalhadas país afora.
     Quando lá estivemos há três semanas, fizemos algumas anotações e algumas imagens (de acordo com o que está permitido, é claro) sobre o que mais nos encantou. Exemplificando: 1. Num mural há um texto impecável e nele uma frase impactante: "Somos todos, disse Shakespeare, feitos da mesma matéria de que são feitos os sonhos". 2. Um CADEIRAL em madeira de Jacarandá, do Rio de Janeiro, do século XVIII, em estilo D. José, originário do Convento Franciscano de Paraguaçu (BA), de dimensões: 209 x 622 x 60,5 cm. 3. Um SÃO FRANCISCO, de Francisco Xavier de Brito (c.1715-1751), de Minas Gerais, do século XVIII, em madeira policromada, de dimensões: 166,8 x 53,1 x 39 cm. 4. Um Globo Terrestre, de Matthaeus Greuter (1564-1638), de 1632. Maior tipo de globo terrestre de biblioteca, o qual teria pertencido a João Maurício de Nassau. , de dimensões: 113 x 65 x 65 cm. 5. O relógio Tissot de ouro usado durante toda a vida por Capiba, e doado por sua viúva, senhora Zezita ao I.RB. 6. O artigo Simplesmente Janete, de Joaquim Falcão, diretor da Escola de Direito da FGV, cujos primeiro e último parágrafos são estes, respectivamente: "Algumas pessoas se distinguem pela intensidade de sua personalidade, pelo talento de seu exercício profissional e pela generosidade de seu caráter. E, assim, se fazem líderes e influências em sua geração. São pessoas substantivas". "Janete Costa é a explosão criativa multidirecional. Quanto mais cria, mais se inventa e se reinventa. A si e a sua própria transgeração. Viva!"

     Outras constatações: 1. O Museu das Armas reúne uma das mais importantes coleções particulares de armas brancas, formando um conjunto com cerca de 4mil peças. Na Sala dos Cavaleiros, por exemplo, seis são de valor inestimável. Um sabre que foi usado por um oficial da Guarda Imperial Francesa (1804-1815), tem cabo e adaga decorados em bronze dourado e a lâmina azulada com detalhes dourados. 2. A Pinacoteca tem 1.200 telas, ´"é uma das mais modernas do Brasil". Nela está parte da coleção do casal Janete Costa e Acácio Gil Borsoi. Nesse espaço, "por meio de um sofisticado sistema de monitoramento, permite-se o envio de imagens 24 horas por dia para qualquer parte do mundo. Um dos quadros lá exibido é Les deux tareaux (manufatura Gobelins), do século XVIII. 3.  No setor de Heráldica, são encontradas moedas obsidionais cunhadas em ouro no Brasil Holandês (1646-1654). 4.  Nos jardins de uma das Torres, há várias esculturas em mármore, mas o destaca é de uma réplica em dimensões originais de O Pensador, fundida em bronze patinado, obra máxima de Auguste Rodin, autenticada pela Casa Rodin de Paris com marca 8/25. Não se pode deixar de mencionar A Mulher no Cavalo, escultura original do artista colombiano Fernando Botero (1932), confeccionada em bronze, entre tantas outras obras, obras, obras. 
     Voltemos, então, a origem de tudo isso. Só para fins associativos, em 1980, o sambista e poeta de Parintins (AM) Chico da Silva lançou o LP "Sonhos de Menino", os versos iniciais dessa canção-titulo são estes: "Sonhos de menino/É crescer ganhar o mundo". Ganhar o mundo no bom sentido, é lógico. Sair por aí vivendo bem a vida. Mas quando se é criança os sonhos não são fáceis em serem decifrados. São enigmáticos. E, às vezes, não são bem acolhidos (quando ditos, ou revelados) nem mesmo por parte daqueles que cercam as suas crianças. 

Ricardo Brennand. Fonte: Informativo (Cartilha) do Instituto RB

     Ricardo Brennand também sonhava. Leiamos seu depoimento: "Ainda criança, ganhei de meu pai um canivete... O que seria um brinquedo para qualquer menino de minha idade, veio a despertar em mim a vocação de colecionador. Ao longo da minha vida, fui reunindo facas, adagas, espadas, alabardas, armaduras e, como não poderia deixar de ser, canivetes".

     Tem mais: "Para a realização desse meu sonho, tive sempre por lema os versos do poeta português Fernando Pessoa: DEUS QUER, O HOMEM SONHA, A OBRA NASCE".

     Estas motivadoras e emocionantes palavras trazidas aos nossos leitores, nos remete ao inesquecível cantor e compositor baiano Raul Seixas (1945-1989), que traduziu estes versos de John Lennon (1940-1980), in Prelúdio:

                                          Sonho que se sonha só 
                                                É só um sonho que se sonha só
                                                      Mas sonho que se sonha é junto é realidade.          

     Eis aqui a síntese da síntese da perseverança de um colecionador, ou seja, do menino Ricardo que sonhou, que cresceu, que hoje é o senhor Ricardo Brennand, que tornou realidade seu sonho e ganhou o mundo, despertando na "comunidade o gosto e o amor por sua própria cultura". Façamos o mesmo. Não sonhe sozinho (a).            

     Pesquisa, texto e arte: Francisco e Winnie Gomes

     Fontes
     1. Informativo (Cartilha) do Instituto RB
     2. Registro: 70 imagens captadas por Angeline Gomes, nas nas áreas externa e interna do I.RB.


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