Meu pai venceu o prêmio literário do Ministério dos Direitos Humanos

        
Imagem: Luis Detreehd/Pixabay

       Em novembro do ano passado, recebi no meu whatsapp, a notícia sobre o concurso literário promovido pelo Ministério dos Direitos Humanos (atualmente é Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos). Naquele momento, encaminhei a notícia para meu pai, fundador e autor do nosso blog, lemos o edital e vimos a possibilidade de participar. Foi um processo simples, meu pai preencheu os papéis e enviamos por e-mail.
         O gênero literário era uma crônica, o tema foi “Memórias do Lugar onde eu vivo”. Meu pai, sabiamente, com sua história de vida construída no interior da nossa Amazônia tinha, e tem, propriedade para escrever sobre o assunto. Pronto, dito e feito. Meu pai escreveu uma crônica que fiquei emocionada. Quanta riqueza nossa Amazônia, mas desconhecemos da realidade dos nossos Amazônidas. Mas, antes de falarmos e disponibilizarmos o texto, vou falar do concurso.
        O resultado preliminar saiu dia 03 de dezembro. Foram 242 inscrições e 25 trabalhos selecionados e classificados para o resultado final. Quanta emoção! Não por ser meu pai, mas por ter um trabalho de um professor e Amazonense, e, acima de tudo, um Amazônida vivo. Mas, o resultado não era garantia de ser um dos 25 vencedores.
        O resultado final saiu dia 11 de dezembro. Para nossa felicidade, meu pai conseguiu vencer e ficar entre as 25 obras selecionadas. Recebemos o convite, para meu pai ir até Brasília e participar da cerimônia de premiação. Na solenidade eles iriam anunciar os três primeiros lugares das obras que iriam ganhar o prêmio em dinheiro. Mas, para nossa tristeza, o evento iria acontecer dia 21 de dezembro, justamente no dia que meu pai vinha para Recife. Infelizmente, meu pai precisou recusar a participação da cerimônia, agradecemos a oportunidade e seguimos em frente, felizes e gratos com tamanha oportunidade.
     Acompanhamos a notícia pelo site, os três primeiros lugares que receberam a premiação em dinheiro foram, Maria de Lourdes Prata Garcia, Suzana Maria Fernandes Alipaz e Erli Rose Fonseca, autoras das obras "Maré Baixa", "A mulher onde eu vivo" e "Um lugar para retornar", respectivamente. Dos 25 autores vencedores, 21 compareceram, ou seja, 4 pessoas não puderam ir, dentre elas, meu pai.
       Há duas semanas, meu pai recebeu em casa seu certificado de premiação e o livro com as 25 obras selecionadas. Descobrimos que de cada região foram selecionadas 5 crônicas, então, isso significa que na nossa região norte, meu pai estava entre os 5. Quanto orgulho, hein? Pelo meu pai e pelos outros nortistas. Ficamos felizes com a iniciativa do Ministério que teve o cuidado para encaminhar o material até nossa casa. Fica aqui, registrado, nossa gratidão por essa atitude.
      Parabéns para todos as 242 pessoas que participaram, especialmente, para os 25 selecionados, e mais especial, para o meu pai, um escritor nato, uma pessoa que admiro em todos os sentidos, com quem aprendo, diariamente, sobre a vida, literatura, música, política, etc, etc, etc. Parabéns, pai! O senhor merece esse momento um único.
Chega de conversa e vamos ao que mais interessa, ler a crônica do nosso autor, fundador e blogueiro, Francisco Gomes da Silva.

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Águas mortas

            Li em algum lugar, que na Amazônia, “homem e natureza precisam contar um para o outro, os seus segredos”. Somente assim estaria estabelecido um pacto de boa convivência, apesar do curso da vida ser mais lento que as águas que correm para o Atlântico. Depois para o resto do país – continente e, por último, para os confins do mundo.
            Paragens. Lugares distantes: lagos, igarapés, igapós; terra firme, planície; inverno, verão; águas barrentas, águas negras, águas paradas; anofelinos, serpentes, e entre tantas espécies da fauna e da flora, um punhado de seres humanos. Quem são eles: Negros? Brancos? Índios? Mulatos? Pardos? Caboclos. Por aqui “o canto das três raças” não ecoa com boa sonoridade. O negro quase não chegou. O Branco figurou como explorador e o índio como sofredor.
            Na selva, fatos e boatos confundem a História, encabulam os observadores e tolhem os poucos silvícolas que restam. As marcas do ontem fazem sangrar o presente e ofuscar o futuro, do todo, principalmente do caboclo, cuja memória, quando manifestada, é narrada de forma dúbia, confusa.
            A atual fase do capitalismo informacional já no meio do verde e dos descampados também. Quem tem os chamados meios de produção, manda as suas divisas para as matrizes, quem não tem, vende a sua força motriz para sobreviver. A grande parcela da população, no entanto, fincada nos vilarejos distantes de tudo e de todos, sonha – mais os adultos, com 50 anos de idade ou mais, com as modestas lembranças da infância nos seringais, nos castanhais, etc.
            Aquele menino segundo o pai ou o tio na plantação de subsistência; na extração da sorva, do caucho, da madeira. Fala-se em diversidade, sustentabilidade dos recursos naturais, da preservação disso e daquilo, mas afasta-se – rumo ao interior da região – das capitais: Palmas, Belém, Boa Vista, Macapá, Manaus, Porto Velho e Rio Branco, e o visitante caira na realidade, ou seja, há vilas nas quais ainda não se sabe o que é uma torre de TV ou de celular, nem médico, nem medicina, é óbvio. Isto hoje, imagina-se como na década de 70 do século passado.
            Esse emaranhado de segredos e mistérios amazônicos ainda faze doer muito o peito de quem sobreviveu estas fases longe e perto ao mesmo tempo. Lá onde o sol guia o mateiro e a lua, o canoeiro. Lá onde a chuva faz o caboclo parar para contemplar as águas do rio abaixo. Lá onde a tapera de palha, o Itapiri, o papiri, significa mais para seu ocupante o castelo do patrão de terno de linho.
            Estas palavras ativam a memória da gente. Onde você esteve, onde está; com quem viveu, com quem vive. São anos de solidão, ou melhor, “Cem anos de Solidão”, de Gabriel García Marquez, cujo enredo foi imaginado em outro lugar da América do Sul, mas na mesma Amazônia onde estou. Aqui, a Brasileira, lá a Amazônia Internacional.
            Em 1970, num seringal muito distante da capital Manaus, situado às margens do Rio Pauini, afluente do Rio Purus, afluente do Rio Amazonas, cujas as águas deságuam no mar, ocorreu um simples fato merecedor de ser lembrado aqui, tanto pela lembrança quanto pela sua originalidade, isto é, peculiaridade.
            Assis, o filho mais velho entre quatro irmãos, do casal Sabino e Eulina, avisa ao pai que alguém estava amarrando a canoa lá no porto. O senhor, de terçado na mão, desce o barranco da localidade e vai conferir o aviso. Era o seu vizinho Antônio de Ana, que viera trazer-lhe uma boa notícia.
            Juntos subiram até o barraco, onde foi pedido a Eulina um café bem passado. Enquanto isso, De Ana, como era chamado, disse que apesar de ter remado três horas rio acima, estava muito contente por dois motivos: um, a família Sabino estavam bem naquele beiradão; o outro era que o Brasil rinha acabado de ser tricampeão na copa do mundo.
            O senhor De Ana, era o único entre os vizinhos que tinha um rádio a pilha, raio-vac (o garoto propaganda era Pelé) da marca Semp. Após servido o café o prestativo vizinho rumou para sua casa, com a certeza que a boa notícia foi dada.
            Depois disso Assis questionou:
- Pai, ele mora tão longe e mesmo assim veio até nos avisar.
- Filho, ele já está acostumado. O rio corre pouco, as águas estão quase paradas, são águas mortas. Por isso, o seringal tem esse nome.
            Hoje, quase 50 anos daquele título “Brasil, a taça é nossa”, de como a notícia chegou àquela família, minha memória revive esses detalhes. Bem verdade, lá, fisicamente não estou mais, mas tudo está em mim aqui bem pertinho. Na Amazônia.

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1 Comentários

  1. Primeiramente quero parabenizar meu querido professor, Francisco Gomes da Silva.
    Por está entre os 25 e entre os 5 de nossa região Norte.
    Não é por ser só seu pai que ele é admirado! Eu como aluno a 2 anos tenho o privilegio de ter um dos melhores professores que tive!
    Admiro a sinceridade, o profissionalismo, as palavras de incentivo que por diversas vezes ecoaram em minha direção e pelo amor que tem pelo que faz.
    Para muitos pode passar despercebido, mas para outros até suas freses de reflexão da noite são estimulantes ao intelecto.
    Eu atualmente com 31 anos ao ler sua narrativa, me fez lembrar do pouco conhecimento que adquiri viajando pelos beiradões de nossa amada Amazônia.
    Enfim quero mesmo é parabenizar, esta pessoa que é seu Pai e nosso querido professor.

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