João Cândido, o Almirante Negro

     Ainda repercute muito bem o artigo publicado no Facetas da semana passada pela doutora Winnie Gomes, sobre o talentoso jovem cantor e compositor recifense, Ayrton Montarroyos. Isso, além de nos deixar orgulhosos, nos motiva mais a continuar com esta atividade. Este é o nosso papel: apresentar aos nossos leitores, biografias, música, literatura, filmes, etc, de qualidade. Independente de serem os temas suscitados antigos, contemporâneos ou modernos. O importante é que "o novo sempre vem", como escreveu o poeta Belchior.  
     O comentário de hoje versa, principalmente, sobre quatro personagens relevantes da nossa História, da nossa cultura, de 1910 para cá, em pelo menos, três momentos distintos: 1. A eclosão do movimento que ficou conhecido por A REVOLTA DA CHIBATA (1910); 2. A publicação do livro "A Revolta da Chibata" (1959 - primeira edição) do respeitável jornalista Edmar Morel (1912-1988); e 3. O lançamento da canção O Mestre Sala dos Mares (1975), de João Bosco e Aldir Blanc, imortalizada na interpretação de Elis Regina. 
     E onde entra o navegante, o almirante negro João Cândido Felisberto (1880-1969)? Exatamente nos três momentos. Nos quais, a seguir, a sua figura será bem delineada. Por sinal, o problema da judiação (esse é o termo mais apropriado) do negro no Brasil, em todos os aspectos, data bem antes da chegada dos primeiros escravos na terra brasilis. Os "arquitetos" da escravidão já haviam planejado tudo (como sempre, quando não é do interesse do povo). Isso está escrito nos anais História - essa ferida não sarou.
     Em 2015, o pesquisador Carlos Saraiva Leite publicou um excelente estudo sobre a Revolta da Chibata, tendo como pano de fundo a autêntica atuação de João Cândido. De sua pesquisa extraí algumas citações para melhor enfatizar o tema e enriquecer o conteúdo deste artigo.

     1. A REVOLTA DA CHIBATA
         "À noite, em 22 de novembro de 1910, eclodiu, no Rio de Janeiro, "A Revolta da  Chibata", devido aos castigos corporais sofridos pelos marujos, que eram punidos com chibatadas como à época da escravidão. Após Marcelino Menezes ter recebido, como castigo 250 chibatadas, no encouraçado Minas Gerais, a marujada composta por 90% de negros pobres, rebelou-se. O movimento tramado por marinheiros, como Francisco Dias Martins, o "Mão Negra" e os cabos Gregório e Avelino, teve como porta-voz o timoneiro João Cândido" (1).

     2. O LIVRO HOMÔNIMO 
         O menino Edmar, que nasceu dois anos após o motim, viveu toda a sua adolescência ouvindo relatos e mais relatos sobre essa Revolta. Adulto, "já homem feito", jornalista respeitado, pesquisa aqui, reúne material ali e, em 1959, publica "A Revolta da Chibata". Um dos mais importantes livros da historiografia crítica brasileira. Hoje (não sei se é bem aceita a comparação), mas, essa obra de Morel, está para o ocorrido de 1910, assim como está para a Guerra de Canudos, "Os Sertões", de Euclides da Cunha.  
     Em 2012, o doutor em História, pela Universitá  de Paris, Marco Morel, neto de Edmar, lançou: "CORRUPÇÃO: mostra a sua cara". Nessa obra, o autor inclui uma "lista dos incorruptíveis". Entre alguns, estão Dom Helder Câmara, Sobral Pinto, Marli Pereira Soares, João Cândido Felisberto, etc. É assim que Marco apresenta João, o incorruptível: 

     "O marinheiro que liderou a Revolta da Chibata nas águas da Baia da Guanabara em 1910 nasceu, viveu e morreu em situação de pobreza. Embora nunca tivesse sito chibatado (seu comportamento era exemplar), foi solidário a seus colegas de bordo que, organizados, obrigaram o governo a acabar com tais castigos físicos. O marujo tornou-se, na época, herói nacional, celebrado ou atacado pela imprensa e pelos políticos. Estava entre os milhares expulsos da Marinha de Guerra Brasileira na repressão ao movimento. Não conseguiu arranjar trabalho devido às perseguições. Os governos ofereceram-lhe empregos: na polícia política, como empregado doméstico de governantes, mas ele nunca aceitou. Durante quatro décadas trabalhou modestamente como carregador de cestas de peixe no Mercado da Praça XV, no centro do Rio de Janeiro. Somente no fim da vida, quando sua história foi parcialmente reconhecida, recebeu doações para construir uma casa simples em São João de Meriti, na Baixada Fluminense, numa rua sem calçamento nem iluminação elétrica. Ganhou apelidos heroicos, como Almirante Negro,  e faleceu aos 89 anos, em 1969, numa enfermaria de um hospital público carioca. Tinha a dignidade de um mestre-sala dos mares. Até hoje o governo federal nega anistia (que democracia é essa? Que país é esse?) com indenização para os descendentes daqueles que participaram da Revolta da Chibata" (2).

     Senhores, essa é a cara que o Brasil insiste em não mostrar. Tantas vezes cobradas pelo poeta Cazuza. A cara oculta dos fatos reais, das pessoas originais. A cara de brancos, negros e índios que verdadeiramente ergueram este país. E, não a silhueta pálida de impostores que infestam a nação de norte a sul: seja pela prática da mentira, da corrupção, da desonestidade ou pela ausência de civismo.

     3. A CANÇÃO
         "Em nosso país, entre outras contribuições, o samba se constitui numa herança musical do negro, representando uma das formas da sua resistência cultural. "O Mestre-Sala dos Mares", composto, em 1975 (seis anos após a morte do grande herói), por João Bosco e Aldir Blanc, é um relicário desse gênero musical, cuja letra foi censurada no regime militar (1964-1985) por trazer a público a figura de João Cândido Felisberto (1880-1969),o líder da "Revolta da Chibata" (1910), personagem que a história oficial soterrou nos porões da memória nacional. Entre outras alterações na letra, destacam-se a substituição de marinheiro por feiticeiro e navegante no lugar de almirante" (1).
     Nascidos no mesmo ano, ou seja, 1946, juntos, o mineiro Bosco e o carioca Blanc construíram (e ainda constroem) um belo capítulo do cancioneiro brasileiro com suas letras, suas melodias com intérpretes como Clementina de Jesus, Clara Nunes, Maria Creuza, Elis Regina, etc. O Mestre Sala dos Mares, por exemplo, na voz de Elis, é de arrepiar. Leiamos a composição a seguir:

    Há muito tempo nas águas
     Da Guanabara
      O dragão no mar reapareceu
        Na figura de um bravo
         Feiticeiro
          A quem a história
           Não esqueceu
            Conhecido como
             Navegante negro
             Tinha a dignidade de um
               Mestre-sala
                E ao acenar pelo mar
                 Na alegria das regatas
                  Foi saudado no porto
                   Pelas mocinhas francesas
                    Jovens polacas e por 
                     Batalhões de mulatas 
                      Rubras cascatas jorravam
                       Das costas
                        Dos centros entre cantos
                         E chibatas
                          Inundando coração,
                           Do pessoal do porão
                            E a exemplo do feiticeiro 
                             Gritava então
                              Glória aos piratas, às
                               Mulatas, às sereias
                                Glória à farofa, à cachaça
                                 Às baleias
                                  Glória a todas as lutas
                                   Em glória
                                    Que através da 
                                     Nossa história
                                      Não esquecemos jamais 
                                       Salve o navegante negro
                                        Que tem por monumento
                                         As pedras pisadas no cais.  (3)

     É isso aí, amigos leitores. Façamos a nossa história também. Não deixemos que engravatados e togados que querem engessar o país, pisoteiem os valores individuais e sociais da Nação. Tivemos uma semana repleta de sopapos e empurrões "institucionais" (mas harmônicos) entre os três poderes. Porém, quem realmente tem o poder é o povo. E somente ele - de forma unida e ordeira - poderá expurgar essa gente nefasta.
     Conheci um acadêmico de Direito, hoje magistrado, que falava abertamente nos corredores da Faculdade de Direto da UFAM a seguinte frase: "Os juízes pensam que são Deus; os desembargadores têm certeza que o São; e os ministros do Supremo, a Santíssima Trindade".  Pergunte a parcela esclarecida da nossa população o que acha dos membros da Corte Maior. Ela dirá: 'não são todos bona gente'. Mas, o perigo estará nos que virão se continuarem achando que são inatingíveis.
     Acorda Brasil! Cem anos depois, precisamos de outro Felisberto.

     Fontes
     1.  Há 135 anos nascia "O Mestre Sala dos Mares", de |Carlos Roberto Saraiva da Costa Leite. 2015. Para o geledes.com.br
      2. Morel, Marco. Corrupção: mostra a sua cara, RJ: Casa da Palavra, 2012.
      3. CD João Bosco. MPB Compositores, RJ: Editora Globo, 1997.
     
                                 
 

           
           
         

    

    

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