FOME: Josué de Castro e seu tempo - Parte II

     Na semana passada foi publicada a 1ª parte sobre esse cientista social. Agora, vamos à 2ª parte, com outras informações, é óbvio. Espera-se que corresponda a expectativa dos nossos leitores. 
     "Josué de Castro teve a ousadia de sonhar com um mundo em que não houvesse fome de alimentos, de conhecimento e de liberdade, onde não se ocultasse a verdade e onde os problemas pudessem ser discutidos" (1).
     A ciência possibilita ao homem, novas descobertas, preenchendo assim estes versos do poeta amazonense Thiago de Mello: "Quem sabe onde quer chegar, descobre o caminho e o jeito de caminhar". Foi exatamente isso que fez o nosso ilustre pernambucano. 
     Isto mesmo: "...Socializar as ideias e os feitos desse brasileiro que fez da luta pelos mais necessitados uma constante em sua vida". No entanto, o mais grave é perceber que que atualmente, o mundo vive e convive com os mesmos  problemas apontados  há décadas. Então, precisa-se de "uma tomada de consciência sobre o fenômeno da fome, com responsabilidade de cada um de nós".  
     Castro "elaborou e implantou políticas públicas relacionadas à busca da inclusão social, pela melhoria da qualidade de vida das populações carentes". Como ninguém, ele soube detectar esse quadro de famélicos e propor solução, no Brasil e fora dele. Na Amazônia, por exemplo, a fome era tão acentuada que se manifestava tanto no aspecto quantitativo quanto no qualitativo. 
     Li em algum lugar que um bilhão de pessoas é pobre ou está abaixo da linha da pobreza no nosso planeta. Desse número, 700 milhões passam fome. Em meados da década de 80, a revista VEJA estampou: "Brasil: a 8ª economia do mundo não tem o que comer".  Vinte anos depois, em 2004, quando anunciado o programa FOME ZERO, foi publicado o seguinte levantamento: "Atualmente, existem cerca de 53 milhões se subnutridos no Brasil". "Indivíduos em condições de sobrevivência extremamente precárias, chegando a formarem quase uma "sub-raça" de raquíticos e nanicos, diminuindo sua estrutura a cada geração. São homens-gabirus", isto é, aqueles que vivem do lixo, principalmente nas médias e grandes cidades. São nômades. migrantes invasores em seu próprio país, em busca do que comer. São mendigos, pedintes e esmoleiros de toda ordem. Ninguém os quer por perto, são incômodos, são peças descartáveis no jogo da vida. A essas pessoas Josué de Castro dedicou sua vida intelectual. Foi ele que criou a 1ª ONG para tratar do problema: a Associação Mundial da luta Contra a Fome (ASCOFAM)" (1).

     Naquele ano, 1956, já dizia ele: "Não estamos, pois, diante de uma moléstia a ser combatida isoladamente pela ação fulminante de um remédio específico. Não existe um remédio para a fome". Isto é, um fenômeno de caráter humano, o qual deve ser debelado por todos os povos, de todos os lugares, dos continentes, do mundo.

     São dele as 10 advertências seguintes sobre o tema em debate:
    1. "Todo animal precisa de alimento para puder se desenvolver. O homem como qualquer outro animal não é diferente. A vida depende da alimentação".
     2. "O homem bem alimentado quase não fica doente, já que a principal causa geradora de doenças é a falta de alimentos".
    3. "Muitas crianças que morrem de sarampo, na verdade, estão morrendo de fome porque não conseguiram reagir à ação da doença".
    4. "A fome não é mais do que a mais trágica expressão do desenvolvimento dos países mais ricos que se sustentam da exploração dos países mais pobres".
    5. " Mais grave ainda a fome aguda e total (...), é o fenômeno da fome crônica ou parcial, que corrói silenciosamente inúmeras populações do mundo".
     6. "Nenhuma calamidade é tão capaz de desagregar tão profundamente e num sentido tão nocivo a personalidade humana como a  fome..."
     7. "A fome é uma realidade demasiada gritante e extensa para ser tapada com a peneira dos olhos do mundo."
    8. "Viver na opulência num mundo em que 2/3 estão mergulhados na miséria, não é apenas perigosa, é crime".
     9. "É preciso integrar em um só mundo as paralelas justapostas das economias  contraditórias. E isto é a tarefa do homem do amanhã".
   10. "O subdesenvolvimento é uma forma de sub-educação.  De sub-educação não apenas no Terceiro Mundo, mas no mundo inteiro. Para acabar com ele é preciso educar bem e formar o espírito do homem por toda parte".

     Mas, também apontou a solução para vencer esse monstro. Aqui, enumerada em 10 itens: 1. Combater ao latifúndio. 2. Evitar a monocultura. 3. Aproveitar, de forma racional, terras agricultáveis em torno das grandes cidades. 4. Intensificar o cultivo de alimentos sob aspecto de policultura nas pequenas propriedades. 5. Usar mecanização intensiva na grande lavoura. 6. Financiar projetos agrícolas. 7. Diminuir, progressivamente, até total isenção de impostos da terra cultivada para a produção de alimentos básicos. 8. Amparar e fomentar ao cooperativismo. 9. Fortalecer os estudos tecnológicos para maior produtividade. 10. Fazer campanha nacional sobre bons hábitos de alimentação e de higiene. 

     Assim, Josué não só quebrou o tabu da fome, como suas propostas chegaram a outros países. Foi, quando ele passou a ser recebido (e ouvido) em ouros continentes, por exemplo, na Sorbonne, em 1955, na luta por um mundo sem fome. Nessa época já era um notável homem público e o maior defensor das políticas públicas na defesa de suas ideias.
     Nos anos 40 foi recebido por Getúlio Vargas; nos anos 50, por Juscelino Kubitschek. Também participou da política partidária. Em 1955 foi eleito deputado federal por Pernambuco. E reeleito em 58, tendo sido o mais votado pelo Nordeste. Porém, ele mesmo reconheceu não ser um bom parlamentar. Não era aquela a sua missão.
     No Congresso trabalhou ao lado de dois deputados influentes: Ulisses Guimarães e Nereu Ramos, os quais o apoiaram na instalação da ASCOFAM. Em 1963, assume a Embaixada do Brasil junto à ONU, em Genebra. e a representação do Conselho de Administração da OIT. No mesmo ano é indicado, pela segunda vez,  ao Prêmio Nobel da |Paz.
     Com o golpe militar de 64, seus direitos políticos são cassados pelo AI nº 1, de 9 de abril. Seu nome foi incluído na lista dos primeiros 40 "inimigos" do regime. Entre outros, estão: Darcy Ribeiro, Miguel Arraes, Celso Furtado, Carlos Prestes, Jânio Quadros, João Goulart, Leonel Brizola. Como Josué já estava na Europa, escolheu a França para seu exílio. 
     Ali terminava uma luta de 4 décadas em prol da igualdade dos direitos do homem, iniciada logo depois de ser diplomado médico aos 20 anos. "Terminado o Curso de Medicina, Josué retorna ao Recife, quando trabalha como médico numa fábrica de tecidos onde diagnostica que a "doença dos operários preguiçosos" era na verdade subnutrição. Descobre e revela que a doença é a mesma fome que conhecera nos meninos que habitavam o mangue.  Perde o emprego e conclui que o problema é social e não só do Recife, não só do Brasil, nem só do continente e sim mundial, universal. Mal de fome e não fruto da indolência de um povo mestiço (contrariando teorias como o arianismo e a superioridade racial" (1).
     Em 1932, chefiou o 1º estudo brasileiro sobre as condições de vida dos operários recifenses. Uma espécie de inquérito médico sobre a vida e a saúde no país. Esse estudo foi um dos que fundamentaram a institucionalização do salário mínimo por Vargas, pelo Decreto-Lei nº 2.162, de 1º de maio de 1940.
     Ainda não tinha 30 anos, em 1936, quando inicia a carreira de professor universitário, indicado por Roquete Pinto, para substituí-lo na cadeira de Antropologia Física. Depois Geografia Humana e Nutrição. "Orgulhava-se de ser professor, atividade que melhor expressava seu modo de ser. Dá aulas de Antropologia, Geografia Humana, Fisiologia, Nutrição, Ciência Política e Sociologia, dentro e fora do Brasil era uma realização" (1).
     Foi nessa época, na Universidade, que conheceu a misse pernambucana Glauce Rego Pinto, uma bela aluna, sua futura esposa, companheira, colaboradora (a única na vida dele) e mãe dos três filhos do casal: Josué Fernando, Anna Maria e Sonia. 
     Sua produção literária (o pioneiro nos estudos ecológicos), fê-lo ganhar admiradores de escritores, poetas, jornalistas, compositores, repentistas, etc. Outro Josué, o Montello (1917-2006), escritor maranhense, disse jamais ter esquecido o encontro que teve com o médico no Boulevard Saint Germain, em Paris. A tristeza daquela figura alta o impressionou. "Dir-se-ia que o exílio tinha-lhe tocado a fonte da vida". O antropólogo mineiro Darcy Ribeiro (1922-1997), disse ter ficado encantado ao ver o professor falar a diferentes plateias do mundo de forma tão brilhante. "O público ficava preso aos lábios de Josué, ouvindo o milagre que ele produzia frase após frase". A poetisa carioca Cecília Meireles (1901-1964), também se rendeu ao talento dele: "Escreveu com  Josué de Castro A Festa das Letras, onde o alfabeto é apresentado em versos que expressam noções de alimentação e higiene"  A genial escritora cearense Rachel de Queiroz (1910-2003), que publicou seu primeiro romance, O Quinze, aos 20 anos, ao referir-se sobre Geografia da Fome, disse: "... afinal de contas, fazer literatura não é mais do que coisa gratuita e à toa.... Mas escreve um livro que informe, ensine, descubra as verdades encobertas ou controvertidas, isso sim, representa, na realidade um mundo de honestidade, esforço, labuta, rigor - além do talento natural que exige em grandes doses".
      Outros nomes correlacionados ao escritor Josué de Castro e/ou sua época são: Chico Science, Arthur Ramos, Théo Brandão, Cândido Portinari, Di Cavalcanti, Lula Cardoso Ayres, Paulo Freire, Luís da Câmara Cascudo, Ziraldo, entre outros. 
     Mas, como tudo na vida é dinâmico, o viver e o morrer são verbos da mesma conjugação, umas pessoas vivem mais, contribuem mais para o bem da humanidade. Outras nem tanto. Josué viveu intensamente: viveu no mangue. Estudo o mangue. Foi para a Universidade. Estudou. Pesquisou. Gritou ao mundo que há cura para a fome. Falou da seca, do cangaço, do êxodo rural, do homem-caranguejo, do homem-gabiru; da fome endêmica,  da fome epidêmica; quebrou tabu. Provou que o fenômeno da fome não é apenas um problema físico, "mas também político, social, cultural e econômico. Aniquila a vida, atua sobre a estrutura mental e a condição social do ser humano" (1). 
     No dia 24 de setembro de 73, seu coração parou de pulsar. Morreu com saudade de seu país, de sua gente. Seu corpo foi encontrado pela manha já sem vida pela sua mulher e sua morte foi atribuída a uma crise cardíaca. Os jornais de várias partes do mundo noticiaram assim: "Josue de Castro: Mort d'un cutoyen du munde"; "Cultura Perde Josué de Castro e o Poeta Neruda"; "Dr. Josue de Castro, 65, dead; Diplomat Aided Third World", etc.
     Seu corpo foi transladado para o Brasil por seu filho e sepultado no cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro, controlado (ou seja, vigiado) por agentes de segurança do governo.

                                   "Eu sonho sonhos distantes,
                                                Em barcos ausentes, velozes,
                                                            Ondeantes,  
                                                                     Paisagens vivas, longe, diferentes.
                                                                               Eu sonho sempre. Sonho"

                                                                                          (Josué de Castro)

     O Facetas quer saber: Por que então, o "infortúnio" da fome grassa mundo afora, se os estudos da FAO garantem que a produção mundial "poderá alimentar sem problema 12 bilhões de seres humanos", se somos um pouco mais de 7 bilhões de pessoas?

      "Você tem fome de quê?"
                   (Titãs)
       Fonte
       1. ALMANAQUE HISTÓRICO. Josué de Castro: por um mundo sem fome. BB/Petrobras, 2004
              
   
      

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2 Comentários

  1. Personagens de nosso contexto histórico devem ser lembrados. Parabéns e obrigado por aumentar meus conhecimentos

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